02 - A Princesa do Império

Faína Stepanov

Nasci em um mundo onde homens eram temidos e mulheres eram negociadas como gado em feira, onde o valor de uma filha se media pela aliança que seu casamento poderia selar ou pelo dinheiro que sua troca poderia render.

Meu nome é Faína Stepanov, e por muito tempo isso foi tudo o que importou, não quem eu era, não o que eu sentia, não o que eu queria. Apenas o sobrenome forte de uma família bastante temida em toda Europa. Não era apenas o sangue que continha a minha herança de um homem que construiu um império sobre ossos e promessas seladas com a sua palavra.

Ser uma Stepanov significava poder na sua forma mais crua, de um poder que não se explicava e nem se justificava, que simplesmente existe porque ninguém tem coragem de desafiá-lo. Significava respeito arrancado à força das gargantas alheias, respeito que vinha acompanhado de medo e de olhares desviados rapidamente quando passava.

Significava principalmente que ninguém ousaria me tocar.

Eu acreditava nisso com a fé cega de uma criança que ainda não aprendeu que castelos de areia desmoronam com a primeira onda quando se b**e. Era mais fácil acreditar do que encarar a verdade que sempre esteve ali, escondida nas entrelinhas das conversas sussurradas e nos olhares de pena que as mulheres do círculo mais fechado dos Stepanov dirigiam a mim quando achavam que não estava vendo.

Meu pai, Oskar Stepanov, era conhecido nos quatro cantos do mundo como o Lobo de Deus, um apelido que ele mesmo cunhou e que seus capangas espalharam como fogo em palha seca. Um homem que não pedia, mas tomava com força. Que não fazia ameaças, mas as cumpria. Que não negociava acordos, ele as impunha. Todos o temiam, desde os políticos mais poderosos até os mendigos que dormiam nos becos atrás de seus cassinos.

Como criança, eu também os temia às vezes.

Mas quando ainda era criança, pequena o suficiente para caber no colo dele e distraída o suficiente para não perceber o cheiro de sangue que sempre o acompanhava, confundia o medo com admiração. Achava que o frio na espinha era respeito por ter ele como meu pai. Achava que o coração acelerado era orgulho e que o silêncio que tomava conta dos ambientes quando ele entrava era uma forma de reverência.

Mas não era. Era terror puro e simples. Infelizmente, demorei anos para aprender essa diferença.

Ele não era um homem de abraços ou palavras gentis, seu amor, se é que podia ser chamado assim, vinha em forma de segurança. De homens armados me seguindo aonde quer que fosse, mesmo que fosse apenas até o jardim atrás da mansão. Que estava sempre de portas fechadas para o mundo lá fora, muitas vezes trancadas com cadeados que só ele tinha as chaves.

Minha casa era uma jaula dourada e tão bonita que eu nem percebia as grades.

Minha mãe, Rebeka, era o oposto completo do meu pai. Silenciosa como um fantasma, observadora como uma coruja, falava tão pouco que às vezes esquecia o som da sua voz. Mas seus olhos diziam tudo o que sua boca se recusava a pronunciar.

Às vezes, a pegava me olhando com todo amor que há em seu coração. Mas havia algo entre a tristeza e a resignação, como se ela já soubesse de algo que eu ainda demoraria anos para descobrir. Como se ela soubesse que aquele mundo de segurança era ilusória, de proteção armada, de portas trancadas, um dia me engoliria viva e que não havia nada que ela pudesse fazer para impedir.

Zakhar, meu irmão mais velho, estava sempre ao meu lado como uma sombra mais forte do que a minha. Ele era o meu protetor, meu escudo contra um mundo que queria me devorar. Ele brigava por mim antes mesmo que eu pedisse, gritava por mim quando minha própria voz falhava, enfrentava qualquer um que ousasse levantar o tom na minha direção, incluindo, às vezes, o nosso próprio pai.

Com Zakhar ao meu lado, me sentia invencível. Como se nada pudesse me atingir, como se o mal fosse uma coisa que acontecia com outras pessoas, em outros lugares e em outras vidas que não a minha.

Eu era a princesa daquele império construído sobre sangue e mentiras. A joia mais preciosa da coroa do Lobo de Deus. E as princesas, no nosso mundo, não escolhem seus destinos. Elas são entregues a eles como oferendas em um altar que não pediram para construir.

Mas as lembranças da minha infância não são as melhores. Tinha apenas doze anos quando tudo acabou e não foi com um estrondo ou uma explosão, como sempre acontecia nos filmes que eu assistia escondida quando os guardas cochilavam.

Não.

Meu mundo fantástico acabou com um silêncio estranho, um silêncio que veio antes do caos, como a calma que antecede tempestades devastadoras.

Não houve aviso, nem houve tempo para que minha mãe ou Zakhar pudessem me preparar. Ouvi o som de vidro se estilhaçando em algum lugar lá embaixo e passos pesados subindo as escadas da mansão.

E então havia mãos ásperas e desconhecidas me puxando para fora da cama onde eu dormia e me arrastando pelos corredores que conhecia tão bem. Arrancando-me da minha realidade como se eu fosse nada mais do que um objeto, uma peça de mobília ou algo que podia ser movido sem consentimento.

Ainda consigo lembrar do cheiro antes de qualquer outra coisa, era de gasolina misturada com suor. Mas aqueles homens tinham tanto medo, que esse terror exalava por seus poros. Sabia que não era apenas o meu medo, mas de todos que estavam ao meu redor. E o cheiro do meu próprio terror era um cheiro ácido e doce ao mesmo tempo, subindo da minha pele enquanto era carregada para dentro de um carro escuro.

Gritei até minha garganta arder como se estivesse em chamas, gritei o nome do meu pai, o nome do meu irmão, o nome de qualquer um que conseguisse lembrar.

Chorei até não ter mais lágrimas, apenas soluços secos que sacudiam meu corpo pequeno como folhas ao vento.

Implorei a eles para que me deixassem ir, para que me levassem de volta para casa, para que me matassem logo se fosse para sofrer daquele jeito. Implorei para que alguém, qualquer um, tivesse piedade.

Mas ninguém me ouviu. Ou talvez tenham ouvido e simplesmente não se importaram com o meu desespero.

Naquele momento, na escuridão daquele carro que me levava para um destino que eu não podia imaginar, deixei de ser Faína Stepanov. Deixei de ser a princesa, a filha protegida. E passava a ser apenas uma mercadoria, um produto e um corpo, que seria avaliado e vendido como tantos outros antes de mim.

Ali começava o meu inferno silencioso…

O tempo dentro daquele lugar não existia da forma como eu conhecia. Os dias se misturavam com as noites em uma confusão de luzes artificiais e escuridão sufocante, refeições que não conseguia comer e sono que não vinha mesmo quando fechava os olhos. As horas se estendiam como chicletes sendo puxados e prestes a se romper a qualquer momento.

Só sabia que estava sozinha naquele lugar, uma certeza que doía mais do que qualquer surra que passei a levar por chorar demais e implorar para voltar para casa. Aquele lugar doía mais do que as diversas noites em que, cansada, dormia com fome. Com o tempo passando, sabia que ninguém viria me buscar, que meu pai não iria invadir aquele lugar com seus homens armados, que meu irmão não iria quebrar portas para me encontrar.

Sabia, no fundo do meu coração partido, que havia sido abandonada pela família poderosa onde havia nascido.

E cada pedaço de mim estava sendo arrancado lentamente, um por um, como as pétalas de uma flor que alguém destrói por prazer. Primeiro foi minha esperança, que murchou como uma planta sem água. Depois foi minha fé, que se desfez em pó. Para em seguida a minha capacidade de acreditar que o amanhã poderia ser melhor do que o hoje.

A Yakuza conseguiu me quebrar, mas não de uma vez só, isso teria sido misericórdia demais. Eles me quebraram devagar, metodicamente, como se estivessem seguindo um manual escrito por alguém que entendia da alma humana mais do que qualquer padre ou psicólogo. Eles sabiam o momento certo para golpe, palavras cruéis na hora exata, cada humilhação era calculada para destruir um pouco mais do que restava de mim.

Como se soubessem exatamente o que estavam fazendo, como se quisessem transformar uma criança de doze anos em algo que não pudesse mais ser salva, em algo que não merecesse ser salva e que passasse a aceitar seu destino sem lutar.

E conseguiram. Ah, como conseguiram.

No final das primeiras semanas naquele lugar que para mim pareceram décadas, eu não era mais a mesma garota que fora arrancada da sua cama. Eu era um fantasma habitando em um corpo que ainda respirava. Me tornei o eco de uma pessoa que não existia mais.

Até que chegou o dia do leilão. Esse foi o dia em que parei completamente de sentir alguma coisa, não por escolha, mas por sobrevivência.

A mente humana tem mecanismos de proteção que a ciência ainda não consegue explicar completamente, e o meu havia decidido que a única forma de continuar existindo era desligar todas as emoções, uma por uma, como interruptores em um painel de controle.

Lembro da hora em que um homem da Yakuza entrou no cubículo onde dormia e aplicou algo em mim. Comecei a ver luzes fortes demais, brancas demais, que começaram a me cegar como um sol artificial que não aquecia nada. Lembro que depois havia diversas pessoas e os olhares deles sobre mim eram pesados como chumbo, mas também famintos como lobos e estavam avaliando cada centímetro do meu corpo como se eu fosse um cavalo em um leilão de gado.

Homens de terno escuro e expressões vazias, homens que cheiravam a dinheiro, poder e morte.

Eu não era uma pessoa ali. E mesmo com pouca idade, entendi que era um simples objeto que seria comprado. Naquele momento, estava sendo disputada entre diversos homens para ser possuída. Era uma peça de carne exposta em um palco para o maior lance.

Estava dopada, sentia a névoa cobrir todos os meus pensamentos, a lentidão nos reflexos e a desconexão entre o que meus olhos viam e o que meu cérebro processava. Mas não estava dopada o suficiente para não entender, nem para não sentir o que aquilo significava, para não perceber a gravidade do momento em que minha vida seria decidida por um martelo batendo em uma mesa.

Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia mantê-las quietas ao lado do meu corpo. Meu corpo não me obedecia completamente, como se os músculos tivessem sido substituídos por gelatina. Mas minha mente, ah, essa gritava. Gritava com uma voz que só eu podia ouvir, que ecoava dentro do meu crânio como sinos de igreja em um funeral.

“Eu quero ir para casa. Eu quero minha mãe. Eu quero meu irmão. Eu quero voltar a ser quem eu era antes.”

Mas ninguém ouviu. Ninguém nunca ouve os gritos silenciosos das crianças que foram transformadas em mercadoria. Ninguém nunca escuta as preces daquelas que já foram dadas como perdidas.

Até que semanas depois, acredito que até o meu aniversário já havia passado. Estava tão presa naquela névoa depois das aplicações que me davam que mal me dava conta de que o tempo estava passando rápido.

Então, em uma noite antes que os homens que cuidavam de mim e das outras garotas que seriam servidas à nata da Yakuza, meu inferno explodiu ao meu redor como um vulcão que estava adormecido há séculos e finalmente decidiu acordar.

Primeiro, dois rapazes com a idade próxima do meu irmão entraram no quarto onde estava com outras meninas.

— Você é Faína? — Um deles perguntou.

— Claro que é idiota, não vê que ela não tem os olhos puxados…

Confirmei com a cabeça e me apresentei e quando eles estavam começando a me tirar dali, comecei a ouvir os tiros, que começaram a vir de todas as direções. Era um estouro atrás do outro que se misturava em uma sinfonia caótica e violenta.

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