Mundo ficciónIniciar sesiónHugo Furquim
Paris nunca dorme.
Isso é o que os turistas dizem, o que os guias de viagem repetem, o que os poetas cansados escrevem em versos medíocres sobre a Cidade Luz.
Mas eles não sabem de nada.
Veem as luzes da Torre Eiffel brilhando contra o céu noturno, ouvem o burburinho dos cafés nas ruas de paralelepípedos, sentem o cheiro de croissant e café fresco que flutua nos becos de Montmartre. Mas não conhecem o submundo.
Não sabem que Paris, debaixo da sua fachada glamorosa, respira de um jeito completamente diferente quando o sol se põe. Uma respiração mais lenta, mais calculada e bem mais perigosa. Como a de um predador descansando antes do ataque.
Há perigos nas vielas escuras que os turistas evitam instintivamente sem saber por quê. Clubes nos porões de prédios antigos onde a música não é para dançar, mas para afogar os sons que não devem ser ouvidos. Encontros silenciosos em pontes onde envelopes mudam de mãos sem que uma única palavra seja trocada.
O submundo respira mais vivo à noite. Está mais presente e exala o perigoso. Porque o perigo, ao contrário do que os ingênuos acreditam, não se esconde, ele apenas espera o momento certo de se revelar.
E eu faço parte disso.
Não por escolha, mas pelo sangue, devido à minha herança, tenho um destino traçado antes mesmo do meu nascimento.
Sou Hugo Furquim, o segundo no comando do submundo de Paris. O braço direito de Jacques Leclerc, o homem que comanda cassinos, casas noturnas e negócios que ninguém vê, mas que todos sentem.
E mesmo com todo o poder que acumulei, com todas as mulheres que cruzaram meu caminho como oferendas em um altar que nunca pedi para construir, nenhuma delas me interessava. Eram bonitas demais, perfeitas demais e extremamente vazias. São como cascas de frutas apetitosas por fora, mas podres por dentro.
Nenhuma delas era ela.
O cassino estava cheio naquela noite, como todas as noites desde que Jacques assumiu o controle daquele território. As luzes douradas refletiam nos cristais dos lustres e se espalhavam pelo salão principal como pólen de ouro, criando uma atmosfera que prometia riqueza e perigo em doses iguais.
As risadas eram altas e forçadas demais, como se todos estivessem representando um papel em uma peça que ninguém ensaiou. Corpos se ofereciam em cada canto. Mulheres vestidas com tecidos que mal cobriam o necessário. Homens com ternos que custavam mais do que o salário anual de uma família comum. Todos pareciam parte do cardápio de itens em uma lista que podiam ser escolhidos, consumidos e descartados conforme o desejo do freguês da vez.
Era assim que o submundo funcionava. Uma grande vitrine de prazeres proibidos, onde tudo tinha preço e ninguém perguntava de onde vinha o dinheiro.
Uma mulher se sentou ao meu lado num movimento tão estudado que quase doía. Primeiro a mão apoiada no balcão, depois o quadril se inclinando na minha direção, em seguida as pernas cruzando devagar em um movimento que parecia casual, mas era absolutamente tudo, menos casual. Ela chamava a atenção como se tivesse nascido, sabendo exatamente quais ângulos funcionavam melhor sob aquelas luzes.
— Posso te fazer companhia, lindo? — perguntou, com uma voz suave e aveludada demais para ser real.
Olhei para ela por dois segundos. Suficientes para registrar que era bonita. Muito bonita, por sinal. Cabelos loiros em ondas perfeitas sobre os ombros nus. Olhos verdes brilhando com a expectativa de que teria uma noite bem-sucedida.
E completamente irrelevante.
— Não.
A palavra saiu seca e definitiva, como uma porta fechada na cara de um vendedor ambulante.
Ela tentou esconder a irritação, mas vi o músculo da mandíbula dela se contrair, seus olhos perderem um pouco do brilho, os lábios que se preparavam para um sorriso se contraírem em uma linha fina. Soltou um suspiro, levantou-se com um movimento mais brusco do que aquele com que havia se sentado e foi procurar alguém mais fácil para o seu jogo.
Voltei o olhar para o copo à minha frente. Whisky, forte e amargo. Escuro como as águas do Sena à meia-noite. Nada diferente do que estava acostumado a beber todas as noites desde que me lembrava por gente.
Levei o copo à boca e bebi. O líquido queimou minha garganta ao descer. Agradeci mentalmente pela dor. Qualquer dor era melhor do que o vazio que se instalava no meu peito sempre que ficava sozinho com meus pensamentos.
— Você anda recusando muita gente ultimamente… — A voz de Jacques surgiu atrás de mim.
Estava grave e macia como um piano tocado em uma sala vazia. Não precisei me virar para saber que ele estava sorrindo daquele jeito calculado que conhecia tão bem.
Jacques Leclerc é quatro anos mais velho. Eu, com meus trinta e cinco anos, tento me manter em forma, para manter a boa aparência. Esse francês idiota nasceu com o rabo para lua que nem precisa se esforçar para manter o porte físico.
Ele era meu chefe, sim. Mas também era algo próximo de um mentor. Alguém que via como irmão mais velho, ainda mais depois que perdi minha família. Meu pai foi morto com um tiro em um beco escuro de Amsterdã enquanto tentava comprar algumas garotas…
— Nenhuma delas me interessa. — Mantive os olhos fixos no copo, como se ele pudesse me dar respostas que o mundo dos vivos se recusava a oferecer.
— Nenhuma? — Ele soltou uma risada sem humor, cheia de significado. Sua mão pousou no meu ombro e apertou suavemente. — Isso é raro, Hugo. Muito raro. Você já recusou umas vinte mulheres nas últimas três semanas?
Dei de ombros num gesto que esperava parecer indiferente, mas escondia uma tensão que me percorria dos pés à cabeça.
— Estou entediado.
Jacques se aproximou mais. Senti o cheiro do seu perfume, era uma fragrância cara, notas de madeira e tabaco. Ele apoiou as mãos no balcão ao meu lado, seus dedos longos e cheios de anéis estavam batendo uma cadência irregular na superfície de mármore.
— Acredito que você está muito mais para obcecado — ele corrigiu.
A palavra caiu entre nós como uma pedra em um lago tranquilo.
Meu maxilar travou com tanta força que senti os dentes rangerem. Jacques percebeu, é claro. Essa era a marca de um verdadeiro líder do submundo: a capacidade de ler as pessoas como livros abertos.
— Vá atrás dela, Hugo. — Sua voz ficou mais baixa agora e era quase compassiva. — Vou cuidar da situação com a senhorita Petit. Não há necessidade de você estar aqui nos próximos dias.
Olhei para ele pela primeira vez e deixei que a raiva que eu sentia de mim mesmo transparecesse.
— Não sei do que está falando. — Virei o resto do whisky e bati o copo no balcão com mais força do que deveria.
Ele arqueou uma sobrancelha num movimento tão lento que deixou claro que não acreditou em mim.
— Você sabe exatamente, Hugo. Sabe há anos. Só se recusa a admitir.
O silêncio que se seguiu foi carregado de coisas que não queria dizer, de verdades que flutuavam no ar entre nós como fumaça.
— A garota. — Ele continuou, porque Jacques nunca foi do tipo que se cala quando tem algo a dizer. — A que você nunca esqueceu. A que apareceu na sua vida em uma noite que você tenta enterrar, mas não consegue. A mesma que você viu há algumas semanas e desde então não para de pensar e rejeitar as mulheres que chegam até você.
Engoli em seco. A saliva desceu pela minha garganta como areia grossa. Porque ele estava certo. Dolorosamente certo.







