Febre

Ruby

Atrás de mim, ouvi o suspiro de choque da Dália. Trevor Black deu um sorriso de lado. Não era um sorriso gentil; era o sorriso de um predador que acabou de encontrar uma presa que, em vez de correr, decidiu morder. Ele puxou a carteira de couro e depositou uma nota de dez dólares no balcão.

— Fique com o troco. Seu deboche vale ao menos um dólar de gorjeta — ele murmurou, pegando o copo de papel. Nossos dedos se roçaram por um milésimo de segundo. Foi como um choque elétrico, uma descarga de eletricidade estática que percorreu meu braço e me deixou paralisada por um instante.

Ele saiu sem olhar para trás, deixando o cheiro de um perfume caro e amadeirado no ar. Eu ainda estava tentando regular minha respiração quando meu celular começou a vibrar freneticamente no bolso. Era Rosa.

— Ruby? — A voz da mulher estava trêmula. — Você precisa vir para casa agora. A Esmeralda… ela acordou chorando, a febre subiu do nada, está 39,5° e ela está reclamando de uma dor insuportável nas pernas. Ela não consegue ficar de pé.

O mundo girou. O café, o homem de terno e o meu orgulho sumiram instantaneamente. Só sobrou o medo devorador que eu guardava no fundo da alma. 

— Estou indo, Rosa! Não saia do lado dela, por favor!

Arranquei o avental e corri para a porta. O destino estava me pregando uma peça cruel: eu havia acabado de insultar o homem que era dono do único lugar que poderia salvar a vida da minha pequena.

O trajeto da cafeteria até o meu apartamento foi um borrão de asfalto cinza e respiração ofegante. Cada segundo parecia uma hora de tortura. 

Quando finalmente entrei no quarto e me deparei com ela encolhida, parecendo uma bola de pelos envolta do cobertor… algo em mim cedeu… foi como se me atingisse com um soco. O quarto cheirava febre e dor, os cachos grudados na testa úmida, soluçando baixinho. Aquela visão estraçalhou o que restava do meu coração.

— Eu estou aqui, meu amor. Cheguei e não vou mais sair do seu lado. — Murmurei, envolvendo-a em uma manta.

Rosa me ajudou a carregá-la escada abaixo, com cuidado, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrá-la. O peso leve demais do corpo dela nos meus braços era o que mais assustava.

O táxi até o Hospital Geral de Boston consumiu o dinheiro que deveria garantir a comida da semana inteira, mas isso deixou de importar no instante em que fechei a porta do carro. Nada mais existia além dela.

Foi só no meio do trajeto, com a cidade passando borrada pela janela, que a realidade me atingiu como um choque frio: aquele era um dos hospitais da família Black. O império do homem arrogante que eu havia insultado horas antes.

Soltei uma respiração trêmula, sentindo o estômago revirar. O destino, além de cruel, parecia ter um senso de humor perverso, do tipo que não apenas testa seus limites, mas faz questão de esfregá-los na sua cara.

A triagem foi um pesadelo de burocracia. “Aguarde”, eles diziam. Mas como esperar quando o corpo da pequena, em meus braços, parecia estar em chamas?

Era um hospital particular, com uma ala minúscula que eles mantinham quase como um gesto de “caridade” para quem não podia pagar, como eu. E estávamos ali, agarradas a qualquer chance de atendimento.

Quando finalmente conseguiram estabilizá-la na ala pediátrica, o médico foi direto: ela precisava de uma bateria de exames, inclusive de imagem, e uma internação preventiva. O problema era o de sempre: o custo. A doença de Esmeralda era uma incógnita cara, e meu saldo bancário não cobria nem a primeira hora de oxigênio.

Assenti para o médico, olhei para ela adormecida, suspirei e saí da ala de internação para o pátio do hospital, sentindo as paredes se fecharem sobre mim. Eu precisava de ar. Precisava de um milagre. Caminhei até a área externa da diretoria, onde o asfalto brilhava sob o sol frio. Me encostei em uma área antes que meus pés se cessem, foi quando o vi novamente.

Trevor Black estava saindo pela entrada principal, cercado por assessores e seguranças que pareciam sombras tentando acompanhar seus passos largos. Ele estava imerso em uma conversa telefônica, gesticulando com irritação, os olhos fixos em alguns papéis que segurava. Ignorava o mundo ao redor, confiando que o mundo pararia para ele passar.

Ele começou a atravessar a rua interna do complexo hospitalar, deixando suas sombras de terno para trás, justamente quando uma caminhonete de entrega, em alta velocidade, dobrou a esquina. O veículo não ia parar. Trevor nem sequer levantou a cabeça.

— Cuidado! — O grito saiu da minha garganta antes que eu pudesse processar o risco.

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