Mundo ficciónIniciar sesión
Ruby
Para o mundo, sou apenas Ruby, uma mãe solteira exausta, mas a verdade é que escondo segredos e uma angústia profunda. Dividida entre o balcão da cafeteria e o barulho do bar, vivo uma corrida desesperada contra o tempo, em que cada centavo é a promessa de que Esmeralda não perderá sua guerra pela vida.
O despertador do celular vibrou na mesa de cabeceira às cinco e meia da manhã, soando como uma britadeira dentro do meu crânio. Eu sentia cada músculo do meu corpo protestar. Ontem, o turno no bar da Madison havia avançado pela madrugada. Durante a semana, consegui chegar por volta da meia-noite, mas durante o fim de semana.. Nunca tinha hora para sair; o cheiro de cerveja barata e fumaça ainda parecia impregnado nos meus poros, apesar do banho rápido que tentei tomar ao chegar.
Joguei o corpo para o lado, sentindo o colchão velho ranger, e foquei na pequena figura que dormia ao meu lado. Esmeralda era um emaranhado de cachos escuros e cílios longos, a única coisa que me restava de um passado que parecia cada dia mais distante. Ela estava mais rosada que o normal. Encostei as costas da mão em sua testa e meu coração falhou uma batida. Ela estava quente. Não era uma febre alta ainda, mas era aquele calor seco e preocupante que sempre precedia as crises. Dei um analgésico. Ela mal acordou para tomar.
— Durma bem, meu anjo. Dona Rosa vai cuidar de você — sussurrei, depositando um beijo suave em sua têmpora.
Sai da cama com o peso do mundo sobre os ombros. Enquanto vestia o uniforme da cafeteria, uma calça preta, e camisa branca, depois dobrei o avental rosa com cuidado. Ele até tentava ser fofo, mas em mim parecia mais uma armadura de guerra contra o cansaço.
Preparei o café da manhã de Esmeralda e deixei tudo organizado para Dona Rosa, a babá que me ajudava com a pequena. Em seguida, tomei uma xícara de café preto, amargo e escaldante, tentando encontrar ali a energia que minhas poucas horas de sono não me deram.
Antes de sair, avisei a Rosa sobre a temperatura de Esmeralda e pedi que me ligasse caso a febre aumentasse.
Rosa me lançou um olhar de pena, que eu detestava; revirei os olhos, enquanto vestia meu casaco grosso e saia para enfrentar o vento cortante da manhã.
O movimento no café estava caótico. O sino da porta não parava de tocar, um tilintar agudo que parecia chicotear minha paciência, perfurando meu cérebro cada vez que alguém abria aquela maldita porta. Eu estava no balcão, limpando uma mancha de leite e anotando pedidos simultâneos, quando o ar da cafeteria pareceu mudar de densidade. Senti um arrepio na nuca antes mesmo de levantar os olhos.
Ele não caminhava apenas; ele dominava o espaço como se tivesse comprado o prédio inteiro com um estalar de dedos. Terno azul-marinho sob medida, um relógio de platina que brilhava sob as luzes amareladas e um rosto que parecia esculpido em mármore por um artista que odiava a humanidade. Era Trevor Black. Eu já o tinha visto em colunas financeiras, o tubarão, diretor do maior complexo hospitalar da cidade, e que parecia ter o gelo correndo nas veias.
— Um café longo. Puro. Sem açúcar — a voz dele era grave e profunda, uma vibração que atingiu meu peito de um jeito desconfortável.
— Bom dia para você também — respondi, forçando o sorriso de “serviço ao cliente” que eu treinava no espelho. — Gostaria de acrescentar nosso creme especial de baunilha por cinco dólares? É o que nos mantém famosos no bairro.
Ele sequer se deu ao trabalho de me olhar de imediato; manteve os olhos fixos no celular e, em tom de desagrado, inquiriu:
— Eu pedi creme? Não. Menos conversa e mais agilidade. Tenho uma reunião em dez minutos e não pretendo me atrasar por causa de um simples café barato.
Senti o sangue ferver. A preocupação com a saúde de Esmeralda e a falta de sono se transformaram em uma audácia perigosa. Eu não era apenas uma atendente cansada; eu era uma mulher desesperada, e pessoas desesperadas perdem o filtro muito rápido.
— São quinze dólares — eu disse, cruzando os braços e encarando-o.
Desta vez, ele bloqueou a tela do celular e me encarou. Seus olhos eram de um cinza gélido, como o Atlântico no inverno. Ele arqueou uma sobrancelha perfeitamente aparada, medindo-me de cima a baixo com um desdém que me fez querer atirar o bule de café nele.
— O cardápio ali atrás diz nove dólares, se minha visão não estiver me enganando.
— Sim, nove dólares é o preço para clientes que possuem educação básica — retruquei, mantendo o tom de voz baixo, mas firme. — Os seis dólares extras são a “taxa de arrogância”. Considere uma contribuição para a minha paciência.







