Mundo de ficçãoIniciar sessãoRuby
Ele não ouviu. Corri. Meus pés atingiram o asfalto com uma força que eu não sabia que possuía. Joguei meu corpo contra o dele com toda a carga do meu desespero.
O impacto foi seco e violento. Fomos lançados para o chão, o som dos pneus fritando e a buzina estridente ecoando nos meus ouvidos como um trovão. O cheiro de borracha queimada inundou minhas narinas. Caímos pesadamente, com ele por baixo de mim, servindo como um amortecedor rígido e caro.
Por um segundo, o tempo parou. Eu conseguia sentir o batimento acelerado do coração dele contra o meu peito, a respiração pesada soprando contra o meu pescoço. Ergui a cabeça, as mãos trêmulas apoiadas no seu peito, no seu terno impecável, agora arruinado, e dei de cara com aqueles olhos cinzentos. Ele estava atordoado, a máscara de frieza trincada pelo susto.
— Você ficou louco? — Eu disparei, a adrenalina transformando meu medo em uma fúria cega. — Quer morrer na frente do seu próprio hospital? Olhe para os lados antes de atravessar a rua, seu idiota!
Ele piscou, recobrando os sentidos, e sua expressão mudou da surpresa para uma irritação defensiva em questão de segundos. Ele se sentou, empurrando-me gentilmente para o lado para se levantar, e olhou para o rasgo no joelho de sua calça de grife.
— Você de novo? — ele rosnou, a voz mais rouca que o normal. — Você vai ter o hábito de me atacar fisicamente em todos os lugares, ou isso é uma nova tática de atendimento ao cliente?
— Acabei de salvar a sua vida, seu ingrato idiota! — gritei, levantando-me e limpando a poeira da minha calça. Ainda estava de uniforme.
Meus joelhos estavam ralados e sangrando, “Merda, Dália vai comer meu fígado por isso!", mas a dor física era pequena perto do caos na minha mente.
— Aquela caminhonete teria te esmagado, como um tomate podre! — resmungou enquanto dou dois passos em direção ao hospital.
Trevor se levanta, limpando os ombros com as mãos, ignorando os seguranças que agora estavam ao nosso lado com expressões de pânico. Ele me olhou de cima a baixo, os olhos parando nos meus ferimentos e, depois, no meu rosto suado e marcado pelas lágrimas que eu tentava segurar.
— Eu não pedi para ser salvo por uma mulher histérica que cobra “taxas de arrogância” por um café mal passado — ele disse. Ainda havia ironia, mas o tom já não cortava como antes.
Eu parei, olhei para ele e estava tão atordoada e cansada que fiquei em dúvida do que vi ali. Algo diferente piscou no olhar dele, rápido, quase imperceptível. Curiosidade, talvez. Ou só o esforço de entender como uma desconhecida tinha se jogado na frente de um carro por ele.
Afastei o pensamento antes que criasse raízes. Não. Ele nunca perderia tempo pensando nisso. Então disse:
— Pois da próxima vez, eu deixo o caminhão passar por cima — rebati, sentindo minha voz falhar. — Tenho problemas reais para resolver lá dentro. Não tenho tempo para lidar com o seu ego gigante e sua falta de modos.
Virei as costas, sentindo o peso da exaustão me atingir como uma maré. Eu só queria voltar para o quarto da Esmeralda e rezar para que o médico não me expulsasse quando visse que eu não tinha como pagar o depósito inicial.
Não vi, mas senti o olhar dele queimando as minhas costas enquanto eu caminhava mancando de volta para a recepção. Trevor Black não sabia quem eu era, mas agora ele tinha uma dívida de vida comigo. E eu ia cobrar, só não sei como, mas ia.
Entrei no quarto com o coração ainda descompassado e encontrei Esmeralda dormindo. O corpinho parecia, enfim, mais tranquilo, pelos cuidados, já estava sendo medicada. O som ritmado dos aparelhos preenchia o silêncio, como uma garantia frágil de que ela estava ali, respirando.
Sentei-me na poltrona ao lado, o corpo cedendo de uma vez só, e permiti-me chorar. Os soluços eram silenciados pela minha mão que estava na boca, mas as lágrimas desciam livremente como duas cachoeiras após uma tempestade.
“Deus… como eu vou pagar essa conta?” pensei, enquanto tentava controlar o choro. Mas os ombros tremendo indicavam que estava longe de parar.







