Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ser esposa de um homem poderoso é, acima de tudo, aprender a conviver com a ausência.
A casa em que moro não é apenas grande — ela é imponente. Um daqueles lugares que não existem para serem apenas habitados, mas para impor respeito. O portão de ferro trabalhado se abre todos os dias no mesmo horário, silencioso como um ritual antigo, revelando o jardim perfeitamente aparado, as fontes de mármore sempre em funcionamento, e a fachada em pedra clara que reflete o sol da manhã como se tivesse sido polida à mão, uma a uma, por alguém que sabia exatamente o valor daquele lugar. Por dentro, tudo é luxo calculado. Nada é exagerado demais — porque o verdadeiro poder não precisa gritar. O piso de mármore frio sob meus pés descalços, os tapetes persas que abafam o som dos passos, os lustres de cristal que capturam a luz e a espalham pelo ambiente como se a casa respirasse elegância. Cada móvel foi escolhido para durar décadas, talvez séculos. Assim como o nome que carrego agora. Os empregados me tratam com uma reverência que nunca pedem permissão para demonstrar. — Buongiorno, senhora — dizem, em uníssono, quando entro na sala principal. Não levantam demais os olhos. Não por medo. Por respeito. Sou a esposa dele. E isso basta. Há regras não ditas aqui. Eu não preciso levantar a voz. Não preciso exigir nada. Um simples olhar, um gesto discreto com a mão, e tudo acontece. O chá aparece quente, servido na porcelana correta. As flores são trocadas diariamente. As cortinas estão sempre abertas no horário exato em que a luz deixa o ambiente mais bonito. É uma coreografia silenciosa — e eu aprendi a dançá-la com perfeição. Ainda assim, às vezes, quando caminho pelos corredores longos demais, ecoando vazios demais, a sensação é de que essa casa… me pertence. Mas não me abraça. O horário do chá é sagrado. Todas as quartas-feiras, às quatro da tarde, sentamos no jardim de inverno — um espaço cercado por paredes de vidro, com vista para um lago artificial onde carpas coloridas nadam preguiçosamente. A mesa é posta com rigor absoluto: toalha clara, talheres alinhados, doces delicados, pequenas tortas, frutas cortadas com precisão quase cirúrgica. Somos três. Eu. Alessandra, esposa de um homem que controla portos inteiros. E Vittoria, casada com alguém cujo nome ninguém ousa pronunciar em voz alta. Falamos baixo. Sempre baixo. Conversamos sobre eventos beneficentes, sobre vestidos encomendados em Paris, sobre a importância de manter uma imagem irrepreensível. Rimos nos momentos certos. Concordamos quando é esperado. Nunca perguntamos demais. — Ele anda viajando muito? — Alessandra pergunta, mexendo o chá com delicadeza ensaiada. — Sempre — respondo, com um sorriso calmo. — O trabalho exige. E exige mesmo. Não apenas negócios. Poder. Entre nós há um acordo silencioso: todas sabemos que nossos maridos vivem em um mundo do qual não fazemos parte. Não diretamente. Nosso papel é outro. Somos o rosto sereno, a presença impecável, a prova viva de que eles são homens de família. Estáveis. Respeitáveis. Depois do chá, há compromissos. Visitas estratégicas. Doações que precisam ser vistas. Aparições públicas calculadas. Eu escolho minhas roupas com cuidado quase matemático: elegantes, discretas, caras o suficiente para serem notadas — nunca para serem questionadas. Meu nome aparece em colunas sociais. Sempre acompanhado do sobrenome dele. E eu faço questão de honrá-lo. Sorrio para as câmeras. Cumprimento as pessoas certas. Nunca fico sozinha demais em eventos — mas nunca íntima demais com ninguém. Tudo é equilíbrio. Tudo é imagem. À noite, quando a casa silencia e os empregados se recolhem, caminho até o quarto enorme que dividimos… mesmo quando ele não está. A cama é grande demais para uma pessoa só. Às vezes me sento na beirada, tiro os sapatos, respiro fundo e permito que o silêncio pese um pouco mais. Não choro. Não reclamo. Esposas como eu não fazem isso. Mas penso. Penso em como posso ser tão respeitada… e ainda assim tão sozinha. Em como todos me veem como uma mulher poderosa… quando, na verdade, vivo à espera de alguém que quase nunca está. Sou esposa. Sou símbolo. Sou intocável. Mas, quando as luzes se apagam e a casa dorme, sou apenas uma mulher tentando lembrar como é ser vista — e não apenas representada. E amanhã, quando o sol nascer, colocarei meu vestido perfeito, meu sorriso treinado… E continuarei sustentando um império que não é meu. Sozinha. A galeria estava silenciosa de um jeito calculado, quase reverente. O tipo de silêncio que não nasce da ausência de pessoas, mas do peso do dinheiro, dos nomes importantes e das histórias que ninguém ousa contar em voz alta. Entro acompanhada por dois seguranças, não tão próximos a ponto de parecerem uma ameaça, nem tão distantes a ponto de parecerem descuido. Eles não precisam anunciar quem sou. O simples fato de eu estar ali já faz cabeças se virarem, conversas diminuírem de tom, olhares avaliarem cada detalhe do meu vestido, do meu porte, da maneira como caminho. Sou reconhecida não pelo meu primeiro nome, mas pelo sobrenome que carrego. As paredes da galeria são brancas, altas, quase clínicas, fazendo com que cada obra exposta pareça ainda mais importante. Quadros abstratos, esculturas em metal, instalações modernas que provocam mais perguntas do que respostas. O chão de madeira clara ecoa meus passos firmes, e o som parece proposital, como se a própria galeria quisesse lembrar a todos que alguém relevante está passando por ali. Um curador se aproxima, sorriso contido, postura impecável. — Senhora, é uma honra tê-la aqui. Esta exposição é inteiramente beneficente. Parte da renda será destinada a instituições de apoio a mulheres e crianças. Assinto com a cabeça, sem responder de imediato. Não estou ali apenas para comprar arte. Estou ali para escolher o que será visto, o que será comentado, o que associará meu nome — e o dele — a uma causa específica. Paro diante de uma escultura em bronze. Uma mulher de formas fortes, o corpo ligeiramente inclinado para frente, como se estivesse avançando apesar do peso que carrega. Há algo nela que me prende. Não é a técnica apenas — é a expressão. Resistência. Silêncio. Força contida. — Esta peça foi criada por uma artista que sobreviveu à violência doméstica — explica o curador, com cuidado. — Ela diz que representa o momento em que decidiu não cair mais. Aproximo-me um pouco mais. Meus dedos quase tocam o metal frio, mas paro a poucos centímetros. Não preciso tocar para sentir. — Quanto? — pergunto, com a voz firme. Ele me diz o valor. Alto. Muito alto. Não hesito. — Fico com ela. O curador pisca, surpreso apenas por um instante, e logo sorri mais largo. — Excelente escolha, senhora. Será comentada. E é exatamente esse o ponto. Caminho até outro espaço da galeria, observando mais obras, avaliando não só o impacto artístico, mas o que cada uma representa publicamente. Uma pintura em tons escuros chama minha atenção: uma cidade à noite, prédios altos, janelas apagadas, exceto por uma única luz acesa no centro da tela. Solidão. Poder. Vigília. Sinto algo apertar no peito, rápido demais para ser confortável. Desvio o olhar antes que alguém perceba. — Essa também — digo, indicando o quadro. — Inclua na doação. Enquanto os papéis são organizados e meu nome é discretamente anotado, percebo os olhares ao redor. Admiração. Curiosidade. Um pouco de temor. Eles veem uma mulher elegante, segura, generosa. Nenhum deles vê a distância que existe entre o que pareço ser… E o que realmente sou. Ao sair da galeria, flashes discretos surgem. Não muitos. Apenas o suficiente para registrar minha presença, minha contribuição, meu papel. Entro no carro com a postura intacta, a cabeça erguida, a imagem perfeita. Mas, por dentro, enquanto observo a cidade passando pela janela escura, penso que talvez eu tenha comprado aquelas obras não apenas por caridade. Talvez eu as tenha escolhido porque, de alguma forma silenciosa, elas falavam comigo.






