Capítulo 4

A fisioterapeuta chegou no meio da manhã.

A casa, sempre tão silenciosa e obediente, parecia diferente naquele dia. Havia um peso no ar. Não era medo — era expectativa. Alessandro estava sentado na poltrona da sala principal, a perna estendida, o rosto duro como se estivesse prestes a enfrentar um inimigo, não uma profissional de saúde.

Eu fiquei alguns passos atrás no início. Por hábito. Por anos aprendi a observar de longe.

A fisioterapeuta se apresentou com um sorriso educado, explicou cada passo, cada movimento que faria. Alessandro apenas assentia, impaciente. Ele queria soluções rápidas. Sempre quis.

Quando ela tocou na perna dele pela primeira vez, vi o maxilar dele travar.

O primeiro movimento arrancou um suspiro curto, preso. O segundo, um xingamento baixo, em italiano. No terceiro, ele fechou os olhos.

Nunca o tinha visto assim.

Não o homem que entra em salas e todos se levantam.

Não o mafioso que dita ordens.

Mas um homem preso ao próprio corpo, limitado, ferido.

— Precisa relaxar — disse a fisioterapeuta, firme, mas respeitosa. — Se resistir, vai doer mais.

Ele soltou uma risada sem humor.

— Relaxar nunca foi uma opção pra mim.

Eu me aproximei sem perceber. Quando notei, já estava ao lado dele.

O exercício seguinte exigia apoio. A fisioterapeuta pediu que ele tentasse se levantar parcialmente, sustentando o peso no andador. As mãos dele tremiam. Não de fraqueza — de raiva.

Quando ele vacilou, fui eu quem segurou seu braço.

O toque foi automático. Instintivo.

Senti o corpo dele reagir. Não de desejo. De surpresa.

Ele me olhou por um segundo — rápido, intenso — como se não estivesse acostumado a ser amparado por mim. Ou por ninguém.

O exercício terminou mal. Dor demais. Frustração demais.

— Chega — ele rosnou. — Hoje já deu.

A fisioterapeuta explicou que aquilo fazia parte, que ele precisaria passar por isso todos os dias. Anotou recomendações, prometeu voltar.

Quando ela saiu, o silêncio caiu pesado.

Alessandro estava suado, respirando fundo, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça baixa. A postura de um homem que perdeu o controle — nem que fosse por alguns minutos.

— Você pode sair — ele disse, sem me olhar.

Mas não me movi.

— Vai piorar se você não fizer direito — respondi, com a voz mais calma do que eu me sentia.

Ele ergueu o olhar devagar.

— Você não entende — disse. — Eu não posso ficar assim. Parado. Dependente.

— Mas está — retruquei, sem dureza. — E isso não te torna menos do que você é.

Ele desviou o olhar. O silêncio voltou, mas era outro agora. Mais exposto.

— Quando você se machuca — continuei — não precisa lutar sozinho.

Ele respirou fundo, longo, pesado.

— Eu sempre lutei sozinho.

A frase não foi um orgulho. Foi uma constatação.

Me sentei na poltrona à frente dele, pela primeira vez ocupando aquele espaço que sempre fora dele.

— Talvez seja por isso que você nunca ficou.

Ele fechou os olhos.

Não respondeu.

Mas também não me mandou sair.

...

A casa mudou depois que Alessandro voltou ferido.

Não era mais apenas grande, luxuosa e silenciosa. Agora havia passos mais lentos, respirações controladas, remédios sobre a mesa de mármore. Havia pausas.

As noites eram as mais difíceis.

Eu escutava o ranger contido dos dentes quando a dor acordava antes dele admitir. Alessandro nunca chamava. Nunca pedia. Mas eu aprendia os sinais: o modo como ele ficava rígido demais, o olhar fixo no nada, a respiração curta.

Numa dessas noites, saí do meu quarto sem pensar muito.

Ele estava sentado na beira da cama, a perna estendida, o tronco inclinado para frente, os cotovelos apoiados nas coxas. A luz do abajur desenhava sombras duras no rosto dele.

— A dor voltou? — perguntei, baixo.

Ele ergueu o olhar devagar.

— Vai passar.

Nunca passava sozinha.

Peguei a caixa de remédios, sentei ao lado dele. Quando toquei sua perna com cuidado, senti o corpo dele enrijecer — não de rejeição, mas de alerta. Como se estivesse desacostumado a ser tocado sem ameaça.

— Você não precisa fingir comigo — eu disse.

Ele soltou um riso curto, sem humor.

— Não estou fingindo, Caro! — Ele diz.

Passei o creme indicado pelo médico, movimentos lentos, firmes, respeitando os limites dele. A pele quente, os músculos tensos sob meus dedos. Alessandro fechou os olhos por um instante.

Foi ali que percebi:

ele confiava em mim mais do que dizia.

— Você sempre foi assim? — perguntei. — Lidando com tudo sozinho?

Ele demorou a responder.

— Desde que aprendi que depender é perigoso.

Continuei massageando, sentindo aos poucos a tensão ceder.

— E dormir? — perguntei depois de um tempo. — Consegue?

Ele negou com a cabeça.

— Quando deito, a dor lembra que ainda está aqui.

Fechei a caixa de remédios.

— Então fique acordado comigo.

Ele me olhou, surpreso.

— Não precisa.

— Eu sei. Mas eu quero.

Deitei ao lado dele, sem invadir, sem pressionar. Apenas próxima. Próxima o suficiente para que ele sentisse que não estava sozinho.

O braço dele hesitou antes de me envolver pela cintura. Um gesto inseguro para um homem que sempre teve controle absoluto de tudo.

— Você não é obrigada a isso — ele murmurou.

— Eu sei — respondi. — Mas ainda assim estou aqui.

O silêncio que veio depois não era vazio. Era denso. Cheio de coisas não ditas.

A respiração dele foi se acalmando aos poucos. O corpo pesado relaxando contra o meu. E pela primeira vez em três anos, eu senti que não era apenas a esposa de um nome poderoso.

Eu era alguém que ficava.

Naquela noite, Alessandro dormiu.

E eu fiquei acordada por um tempo, observando o homem que o mundo temia —

e que, ali, só precisava ser cuidado.

---

Eu não achei que sair de casa fosse causar aquilo.

Era apenas um compromisso simples: um almoço beneficente, presença obrigatória. Um vestido discreto, elegante. Nada que eu já não tivesse usado dezenas de vezes antes, sozinha, enquanto meu marido estava ausente — sempre ausente.

Mas agora ele estava ali.

Quando desci as escadas, senti o peso do olhar antes mesmo de vê-lo. Alessandro estava sentado na poltrona da sala principal, a perna ainda apoiada com cuidado, uma bengala ao alcance da mão. Conversava com um dos homens, mas a voz dele cessou no instante em que me viu.

O silêncio que se formou foi pesado.

Eu parei no último degrau.

Ele não piscou.

O olhar percorreu cada detalhe: o corte do vestido, o tecido que marcava minha cintura, a forma como meus cabelos caíam soltos sobre os ombros. Não havia desejo explícito ali — havia algo mais profundo.

Territorial.

— Você vai sair? — ele perguntou, a voz calma demais para quem claramente não estava.

— Sim — respondi. — O evento no museu. É importante.

Ele assentiu devagar, mas os dedos apertaram o apoio da poltrona.

— Sozinha?

— Como sempre — respondi, sem perceber o peso daquelas palavras até vê-lo reagir.

O maxilar dele se contraiu.

— Quem vai estar lá?

— Pessoas importantes. Doadores. Esposas. — fiz um gesto vago. — O mesmo de sempre.

Ele respirou fundo, como se estivesse medindo cada palavra antes de soltá-la.

— Você não precisa mais ir sozinha.

Aquilo me pegou desprevenida.

— Alessandro… isso sempre foi minha função.

— Eu sei. — ele respondeu rápido demais. — Mas agora eu estou aqui.

A frase não soou como cuidado. Soou como aviso.

Caminhei até ele, parando a uma distância segura.

— Você não pode me trancar dentro de casa.

Ele levantou o rosto devagar, os olhos escuros fixos nos meus.

— Eu não estou tentando te prender. Estou tentando te proteger.

— De quem? — perguntei, firme.

Ele se levantou com dificuldade, apoiando-se na bengala. Ficou diante de mim, mais alto, mais próximo do que eu esperava.

— Do mundo — respondeu. — E do mundo… de mim.

Engoli em seco.

— As pessoas me respeitam.

— Respeitam o nome que você carrega — ele corrigiu. — E nomes despertam interesse. Olhares. Desejos.

Havia algo bruto naquela confissão.

— Você sempre soube disso — eu disse. — Sempre fui vista.

— Sim. — ele murmurou. — Mas agora eu vejo.

O silêncio caiu entre nós.

Ele estendeu a mão, ajustou uma mecha solta do meu cabelo atrás da orelha. O toque foi contido, mas carregado de intenção.

— Volte cedo — disse, baixo. — E não deixe ninguém se aproximar demais.

— Você está com ciúmes — provoquei, quase sem pensar.

Os olhos dele escureceram.

— Estou — ele admitiu, sem hesitar. — E isso me irrita mais do que deveria.

Aquilo fez meu coração bater mais forte do que eu queria admitir.

Peguei minha bolsa, caminhei até a porta. Antes de sair, me virei.

Ele ainda estava ali, imóvel, me observando como se cada passo meu fosse uma ameaça invisível.

E pela primeira vez em três anos, eu entendi:

não era a ausência dele que sempre definiu nosso casamento.

Era o que aconteceria agora que ele não pretendia mais ficar longe.

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