Capítulo 2

A casa estava diferente naquela noite.

Não no que se via — tudo permanecia impecável, silencioso, obediente —, mas no ar. Havia algo suspenso, uma inquietação que não se explicava. Eu estava sentada na poltrona próxima à janela do quarto, usando apenas um baby doll de seda clara, o tecido leve contrastando com o peso dos meus pensamentos. Meus pés descalços tocavam o tapete macio enquanto eu aguardava, como fazia todas as noites, o chá antes de dormir.

A governanta havia saído há poucos minutos. O som distante da água sendo aquecida vinha da cozinha. Tudo seguia a rotina perfeita que sustenta a minha vida.

Até deixar de seguir.

O primeiro ruído foi a porta principal se abrindo com força demais.

Depois, passos. Muitos passos.

Meu corpo enrijeceu no mesmo instante. Endireitei a postura, o coração acelerando sem pedir permissão. Aquela casa nunca era invadida por vozes, por pressa, por desordem. Levantei-me da poltrona ainda antes de entender, caminhando até a porta do quarto quando ouvi murmúrios tensos, ordens baixas, respirações pesadas.

— O que está acontecendo? — minha voz saiu firme, mesmo quando o medo já se espalhava pelo peito.

Foi então que eles surgiram no corredor.

Homens que eu não reconhecia de imediato. Roupas escuras. Olhares atentos. Postura de alerta. O tipo de presença que não pede licença, apenas ocupa o espaço. Meu primeiro impulso foi recuar, mas algo me manteve ali, imóvel, como se o meu corpo soubesse antes da minha mente.

E então eu o vi.

Meu marido.

Entre dois homens que o sustentavam pelos braços, como se ele já não conseguisse fazê-lo sozinho. A camisa — que um dia fora clara — estava encharcada de sangue. O vermelho escuro se espalhava pelo tecido, marcava sua pele, escorria pelo antebraço, pingava no chão de mármore sem qualquer cerimônia.

Por um segundo eterno, o mundo perdeu o som.

— Não… — o ar fugiu dos meus pulmões.

Ele estava pálido. O rosto duro, sempre tão controlado, agora carregava tensão e dor cruas, sem máscara. Os dentes cerrados, a mandíbula rígida, os olhos semicerrados lutando para se manterem abertos.

Meu corpo reagiu antes do choque me alcançar por completo.

— Chamem um médico. Agora. — Minha voz ecoou pelo corredor, cortante, inquestionável. — Não é para ligar para amanhã, não é para esperar. Quero um médico aqui agora.

Os homens se moveram imediatamente. Telefones foram tirados dos bolsos. Ordens foram repetidas em sussurros rápidos. A casa, antes silenciosa, entrou em estado de alerta.

Corri até ele sem pensar na roupa, no cabelo solto, em nada além do que via. Minhas mãos tocaram seu rosto com cuidado desesperado, sentindo o calor da pele, o sangue seco misturado ao fresco.

— Olha pra mim — pedi, a voz finalmente traindo o que eu sentia. — Fica comigo. Você está em casa.

Por um breve instante, os olhos dele encontraram os meus.

E naquele olhar havia algo que nunca tinha estado ali antes.

Não poder.

Não controle.

Mas vulnerabilidade.

— Eu… cheguei — murmurou, a voz rouca, quase perdida.

E foi ali, no meio daquele corredor luxuoso, com sangue manchando o chão impecável e meu coração ameaçando sair do peito, que percebi que aquela casa — tão perfeita, tão fria — nunca mais seria a mesma.

Porque, pela primeira vez, ele estava ali.

E precisava de mim.

O médico chega rápido demais para alguém que foi chamado no meio da noite. Isso por si só já diz muito sobre quem é meu marido.

Ele entra com a maleta firme na mão, expressão séria, profissional, mas seus olhos denunciam o reconhecimento imediato quando vê quem está sendo amparado no sofá da sala. Não faz perguntas desnecessárias. Apenas se aproxima.

— Vamos examinar — diz, abrindo a maleta.

— Veja logo a perna — ordena meu marido, com a voz rouca, impaciente, como se estivesse falando de um simples incômodo e não de sangue seco colando a camisa ao corpo. — O resto está bem.

Engulo em seco.

E o tom que ele usa não admite contestação. Nem do médico.

Antes que eu perceba, a governanta surge ao meu lado. Com delicadeza, mas também com urgência, ela coloca um roupão sobre meus ombros, cobrindo o baby doll de seda. Seus dedos tremem levemente quando ajeitam o tecido, como se ela também estivesse tentando se proteger da cena, dos homens, do sangue, da tensão que domina cada canto da casa.

O médico se ajoelha com cuidado, corta o tecido da calça de Alessandro e examina o ferimento com atenção. Seu semblante endurece.

— O senhor teve sorte de não atingir o osso — explica. — Mas, se insistir em se movimentar, em viajar, em “resolver coisas”, pode infeccionar, pode perder mobilidade… ou pior.

Alessandro estreita os olhos.

— Eu não posso parar — diz, firme. — Tem gente esperando respostas minhas.

O médico se levanta lentamente, encarando-o nos olhos, sem medo — algo raro.

— Então o senhor corre o risco de não andar direito de novo — sentencia. — Se não respeitar o tempo do corpo, ele cobra.

O silêncio que se segue é pesado.

E, pela primeira vez desde que Alessandro De Santis entrou naquela casa ensanguentado, eu percebo algo diferente nele.

Não medo.

Mas a consciência amarga de que, desta vez, ele não pode simplesmente ir embora.

O médico trabalha em silêncio, concentrado. Limpa o ferimento com cuidado, aplica os medicamentos, faz pontos firmes. Alessandro não solta um gemido sequer. Apenas mantém o maxilar travado, os olhos escuros fixos em algum ponto distante, como se a dor fosse apenas mais um detalhe incômodo em meio a coisas maiores.

Quando tudo termina, o médico se levanta.

— A perna precisa de repouso absoluto — reforça. — Fisioterapia diária. Nada de viagens, nada de esforços.

Alessandro apenas acena com a cabeça, impaciente.

— Faça o que tem que fazer — ele diz, seco. — Agora saiam.

O tom não admite discussão.

Um a um, todos deixam a sala. O médico. Os homens armados. A governanta, que antes me entrega um roupão para esconder o baby doll que eu ainda usava. Seguro o tecido contra o corpo, sentindo um frio que não tem nada a ver com a temperatura.

Quando vou sair também, como sempre faço, a voz dele me alcança.

— Valentina.

Meu corpo reage antes da minha mente. Paro. Viro devagar.

Ele está sentado no sofá, recostado, a perna estendida à frente. O rosto está pálido, a barba por fazer o deixa ainda mais rude. Mesmo machucado, mesmo ensanguentado, Alessandro De Santis continua… imponente.

— Sim? — respondo, mantendo a voz controlada.

— Você fica.

Não é um pedido. É uma afirmação dita em tom baixo.

Por um segundo, fico sem saber o que fazer. Em três anos de casamento, nunca fiquei. Nunca fui chamada para ficar. Eu sempre fui a esposa que espera, que administra a casa, que mantém a reputação intacta enquanto ele resolve o mundo lá fora.

— Os outros já foram — ele continua. — Não preciso de mais ninguém aqui.

Fecho a porta atrás de mim. O som ecoa pela sala grande demais, silenciosa demais. Dou alguns passos em sua direção, ainda sem saber onde colocar as mãos, o olhar, o próprio corpo.

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