Dez anos depois.
O tempo, que um dia fora o inimigo, o prazo, a medida da servidão, tornara-se o meio no qual a vida deles era esculpida. E a casa na Vitória, antes uma promessa de vidro e espaços em branco, era agora um testemunho texturizado e vivo do amor que a preenchera. A madeira do chão já não era imaculada; trazia as marcas de triciclos e os arranhões de um cachorro entusiasmado chamado Barão. A moldura da porta da cozinha era um totem sagrado, com pequenas linhas a lápis e datas que marcavam a ascensão impossivelmente rápida de Léo, agora com doze anos, e de Lúcia, com dez.
As paredes eram uma galeria que contava a história deles. As paisagens sonhadoras de Lídia Alencar, resgatadas por Dante, dialogavam com os grandes e abstratos esboços a carvão de Helena. E, entre eles, em um caos feliz, a arte de seus filhos. O hiper-realismo fantástico dos monstros e naves espaciais de Léo e as explosões de cores e formas de Lúcia. A casa respirava. Tinha uma alma.
Naquela manhã de sábad