O sorriso de Valéria Herrera não alcançava seus olhos. Era um acessório perfeito, como os brincos de pérolas e o colar discreto de diamantes — necessários para a composição, mas sem vida própria.
— De onde você vem, querida? — a pergunta soou leve, quase desinteressada, enquanto seus olhos azul-gelo me escaneavam do cabelo, preso em um rabo de cavalo simples, até os sapatos flats, um pouco gastos nas pontas.
— Da cidade, senhora — respondi, mantendo a voz neutra. — Cresci aqui.
— Ah, uma nativa — ela comentou, como se falasse de uma espécie exótica. — E estudou? Fez algum curso de puericultura? Primeiros socorros?
— Primeiros socorros, sim. E... experiência prática, senhora. — Era verdade. A vida tinha me dado um doutorado em cuidado. Cuidar da avó, cuidar de mim mesma, sobreviver. Mas eu não ia detalhar isso.
Ela fez um pequeno aceno, como se anotasse mentalmente a falta de um certificado formal.
— Família? Tem parentes por perto?
A facada foi precisa, atingindo o lugar mais vulneráv