A madrugada no hospital tinha uma qualidade diferente de escuridão.
Minhas costas doíam da cadeira de plástico duro. Minhas mãos, entrelaçadas há tanto tempo, estavam frias e dormentes. Cada minuto era um grão de areia caindo em uma ampulheta invisível, marcando o tempo que minha avó passava com o coração exposto sob as luzes cruas de uma sala de cirurgia.
A impotência era um peso físico, me prendendo à cadeira, me enchendo a boca com um gosto metálico de medo. Rezei. Para santos em quem não acreditava há anos. Para forças do universo que nunca tinham sido gentis comigo. Prometi tudo, qualquer coisa, se ela apenas sobrevivesse.
Quando a porta do corredor restrito finalmente se abriu e o Dr. Lemos apareceu, tirando a máscara cirúrgica, meu próprio coração parou. Levantei-me tão rápido que o mundo girou, minhas mãos se agarrando ao encosto da cadeira para não cair.
Seu rosto estava marcado pela fadiga, mas seus olhos não carregavam a sombra que eu tanto temia.
— Senhorita Moraes — disse