A dor não desapareceu.
Mas mudou de lugar.
Líria não sentiu o impacto seguinte como sentira os outros. O corpo estava no limite, os músculos tremendo, o sangue escorrendo pelo canto da boca e manchando a terra escura da arena. O mundo parecia distante, como se estivesse sendo observado através de uma lâmina de vidro trincada.
Ela respirou.
O ar entrou frio demais nos pulmões.
Levante, algo sussurrou.
Não foi uma voz.
Foi uma sensação antiga, profunda, que não vinha de fora — mas também não parecia ser dela.
Roz se movia.
Líria percebeu isso pelo som dos passos, pela sombra projetada sobre seu campo de visão. Não havia pressa nos movimentos da loba. Ela sabia que estava vencendo. Sabia que podia prolongar aquilo até o ponto exato em que a humilhação se tornaria memorável.
— Ainda está viva? — Roz perguntou, quase curiosa. — Pensei que já teria desistido.
A palavra ecoou.
Desistir.
Líria fechou os olhos por um instante.
E foi ali que tudo mudou.
Não houve luz repentina.