Início / Lobisomem / Cativeiro Sob a Pele / Capítulo 4: O Silêncio Insuportável
Capítulo 4: O Silêncio Insuportável

POV: Killian

O silêncio no quarto era um peso físico, mais pesado que a prata que acabara de queimar minha pele. Fiquei parado junto ao pedestal de mármore estilhaçado, minhas mãos pendendo ao lado do corpo, o sangue pingando dos meus nós dos dedos no tapete caro. Eu não rugi. Eu não cacei. Apenas observei o vão vazio da porta onde ela desaparecera, escolhendo a mão que a machucava em vez dos braços que queriam protegê-la.

— Killian... — a voz de Cassian estava estranhamente suave ao entrar nos destroços. Ele não se aproximou; até ele sabia que um predador ferido era mais perigoso que um faminto. — Os batedores estão esperando. Se agirmos agora, podemos interceptar o comboio de Alaric antes que cheguem às fronteiras Thorne.

— Não. — A palavra parecia vidro moído na minha garganta.

Virei-me lentamente, olhando para a cama — os tecidos ainda guardavam a marca do corpo dela, o cheiro de seu medo e de sua excitação ainda colidindo no ar. Pela primeira vez na vida, meu lobo não uivava por sangue. Ele estava ganindo, encolhido no canto mais escuro da minha mente, cuidando de uma ferida que eu não sabia como curar.

Eu tinha exposto minha alma a ela. Deixei que ela visse o homem sob o Alfa, e ela olhou para mim com o mesmo terror que reservava para Alaric.

— Ela foi embora, Cassian — sussurrei, minha voz desprovida de seu trovão habitual. Olhei para a palma da minha mão, a pele enegrecida pela prata sendo um mapa perfeito do meu fracasso. — Ela olhou para mim — para tudo o que eu ofereci — e viu um pesadelo. Ela escolheu a gaiola.

Uma risada amarga e áspera escapou de mim, soando mais como um soluço. Sentei-me na beira da cama, enterrando o rosto nas mãos manchadas de sangue. Eu era o Alfa do Norte, o lobo mais poderoso do território, e acabara de ser posto de joelhos por uma Ômega que nem precisou usar uma lâmina.

— Não vou perseguir alguém que não quer ser encontrado — rosnei, embora a mentira tivesse gosto de cinzas. — Deixe-a voltar. Deixe-a ver que a "casa" que ela escolheu é um túmulo. Não serei o salvador dela se ela apenas me vir como mais um monstro.

Cassian ficou em silêncio, seu olhar a um milhão de milhas de distância. — Os Anciãos sabem sobre isso, Killian. Foi um ataque não provocado. Eles sabem que ele trouxe prata para sua casa, que feriu o Alfa em solo sagrado... eles vão exigir uma compensação.

O fogo de sempre subiu em minhas entranhas, mas eu o abafei.

— Não — decidi. — Saia — rosnei, o comando vibrando com uma aresta afiada.

Cassian recuou, fechando as portas pesadas atrás de si. Finalmente, eu estava sozinho com os destroços. Não lavei o sangue da minha pele. Em vez disso, arrastei-me de volta para a cama, puxando os tecidos em minha direção até estar cercado pelo cheiro dela. Pressionei meu rosto no travesseiro onde o cabelo dela se espalhara momentos antes e inalei profundamente.

O cheiro de pinho e lírios selvagens já estava desaparecendo. Estava se esvaindo. Ela estava se esvaindo. Fechei os olhos e uma única lágrima quente escapou. Eu não era mais apenas um Alfa; eu era um parceiro considerado insuficiente.

— Você vai voltar — sussurrei. — Quando ele te quebrar, você perceberá que o monstro que você temia era o único que teria queimado o mundo por você.

Mas, por enquanto, a única coisa que me respondia era o silêncio insuportável de minha própria casa.

POV: Maya

A transição do calor do quarto de Killian para a traseira do SUV blindado do meu pai pareceu um mergulho em um lago congelado. O cheiro de cedro e tempestade desaparecera, substituído pelo aroma estéril de couro e óleo de arma.

Alaric não falou comigo. Limpava o sangue da mão com um lenço branco, seu perfil implacável como a lâmina que carregava. Cada vez que o carro sacudia, minha pele protestava, ainda formigando onde os lábios de Killian me roçaram.

Quando os portões de ferro da propriedade Thorne rangeram, meu estômago revirou. Aquilo não era um lar; era uma fortaleza construída sobre os ossos de Ômegas fracas demais para revidar.

— Saia — Alaric ordenou no mesmo pátio onde sangrei aos doze anos.

Saí cambaleando, apertando os tecidos rasgados do vestido. Alaric olhou-me como uma propriedade manchada por um rival.

— Ficará no seu quarto até que o cheiro daquela imundície Blackwood seja esfregado de sua pele. Se eu sentir sequer um rastro dele em você pela manhã, eu lhe mostrarei o que acontece com traidores.

Uma vez no meu quarto, não acendi as luzes. Atirei-me no pequeno e duro catre. Os lençóis cheiravam a lavanda e alvejante — não a ele. Nunca a ele. Encolhi-me em posição fetal, meus dedos traçando as manchas arroxeadas que o aperto de Killian deixara em minha cintura. Eu escolhera isso para salvar a vida dele. Mas, enquanto encarava as barras na janela, percebi: Killian podia ser um monstro, mas ele me dera uma escolha. Meu pai me dera apenas uma sentença.

Não havia escolha aqui; apenas o gosto de prata no ar. Eu precisava fugir.

Não, algo sussurrou. Você precisa viver.

— Você quer jogar um jogo, garota? Vamos jogar.

A velha mulher dissera aquelas palavras no primeiro dia do meu exílio, ao me entregar os diários com os segredos das lobas Thorne. Ela sabia o papel das Ômegas: éramos as flores que davam vida, a luz guia para lobos enlouquecidos pelo poder que se despedaçariam sem a nossa doçura. Éramos curandeiras e protetoras, mas isso nem sempre significava poder dentro dessas paredes.

Não éramos apenas guardiãs da próxima geração — éramos guardiãs de segredos que enlouqueciam homens. Quando uma Ômega se vinculava a um lobo, era o fim de todo o medo. Com ela vinha o aroma de pinheiros que lavava a ferrugem e acalmava o formigamento metálico que assombra os Alfas à noite. O toque de uma Ômega era sagrado, uma pedra angular de estabilidade — e, como uma Thorne, eu ocupava um lugar cobiçado que me daria a proteção de muitos lobos poderosos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App