Mundo ficciónIniciar sesiónO escritório de Marco Barone era o oposto do que se esperava do consigliere de um dos maiores sindicatos criminosos do país. Não havia fumaça de charuto, iluminação baixa, ou qualquer coisa que pudesse remeter à máfia. O andar inteiro no centro financeiro de Los Angeles era feito de vidro, aço e luz natural. Marco operava à vista de todos, escondendo nossos demônios atrás de planilhas e fundos de investimento.
Eu estava sentado na poltrona de couro à frente da mesa dele, terminando de revisar os relatórios de segurança cibernética dos nossos portos. — O problema com os nova-iorquinos está contido por enquanto — eu disse, fechando o tablet e o empurrando sobre a mesa. - Eles testaram nossas defesas, nós quebramos os dentes deles na fronteira sul. O silêncio deles agora é recuo, não planejamento. Marco assentiu, servindo-se de um expresso duplo. Meu tio era um homem metódico, cujos cabelos levemente grisalhos nas têmporas só lhe conferiam mais autoridade. — Excelente. Isso nos dá espaço para arrumar a nossa própria casa — ele sentou-se novamente, cruzando as mãos sobre a mesa. — Precisamos falar sobre Enzo. Travei o maxilar imperceptivelmente. Meu irmão era brilhante e letal, mas tinha a paciência de um cão de briga solto na rua. — O que ele fez dessa vez? — perguntei. — Nada. E é exatamente esse o ponto. Ele está pronto, Daniel. Quero elevá-lo a capitão até o fim do ano. — Marco fez uma pausa, deixando o peso da patente assentar na sala. — Vou entregar a ele toda a operação de apostas esportivas da Costa Oeste. Os cassinos subterrâneos, os aplicativos criptografados, tudo. É uma máquina de fazer dinheiro que precisa da energia e da agressividade dele. — Enzo vai adorar a ideia de ter o próprio império — comentei, avaliando o movimento de Marco. — Mas apostas atraem o caos. E o Enzo não é conhecido por ser um pacificador. — Exato. Por isso ele precisa de uma coleira de ouro antes de assumir o posto. — Os olhos de Marco encontraram os meus com a frieza típica de quem j**a xadrez com vidas humanas. — Um capitão precisa de estabilidade. É hora do seu irmão escolher uma boa moça para se casar. Uma união que nos garanta uma aliança importante. Eu concordei com um aceno lento. Fazia todo o sentido tático. — E quanto a você - Marco mudou o foco, dispensando o assunto do Enzo. — A Inteligência continua sob o seu comando absoluto, mas preciso que o seu rosto apareça mais no lado claro do balcão. Quero que supervisione a Vanguard Holdings. Nossos empreendimentos imobiliários de luxo precisam da sua assinatura na presidência. — Considere feito. Levantei-me, abotoando o paletó do meu terno. Despedi-me de Marco com um aperto de mão firme e saí do escritório. Quando pisei no saguão da recepção, Beatrice, a secretária executiva do meu tio, levantou-se da mesa. — Senhor Barone — ela me chamou, estendendo um pequeno envelope de papel creme. — A senhora sua mãe pediu que eu lhe entregasse isso. Peguei o papel. A caligrafia cursiva e elegante da viúva do antigo executor da máfia continha apenas uma linha: "Jantar. Às oito. Não se atrase." Guardei o papel no bolso, suprimindo um suspiro. Ninguém recusava uma convocação de Eleonora Barone.A Mansão Barone, escondida atrás de portões de ferro forjado em Bel Air, era um monumento ao silêncio e à discrição, sempre apreciada por minha mãe.
Quando entrei na sala de jantar às oito em ponto, minha mãe já estava sentada à cabeceira da longa mesa de carvalho. Ela usava um vestido escuro e pérolas, a postura tão rígida quanto a de um monarca. À esquerda dela, minha irmã mais nova, Tiziana, estava recostada na cadeira, rolando uma azeitona pelo prato com o garfo. Aos dezenove anos, Tiziana tinha a língua afiada do nosso pai e a rebeldia contida de quem odeia as regras do nosso mundo, mas gosta do dinheiro que ele traz. O lugar à direita, que seria de Enzo, estava vazio. — Enzo não vem? — perguntei, beijando o rosto da minha mãe antes de beijar o topo da cabeça de Tiziana e me sentar. — Seu irmão tem a péssima mania de achar que o mundo gira em torno dele — minha mãe respondeu, a voz perfeitamente polida, mas afiada nas bordas. — Mas o assunto principal me diz respeito, e a vocês dois. Marco me ligou hoje à tarde. Chegou a hora do Enzo casar-se. Tiziana soltou uma risada curta e sem humor. — Boa sorte tentando colocar uma coleira nele. Quem é a vítima que você escolheu, mamma? Eleonora ignorou o tom da filha. — O chá para as jovens famílias será depois de amanhã. A lista está finalizada. Quero que observem Valentina DeSantis. Ela é a minha escolha principal. É calma, vem de uma família com controle sólido nos portos do norte e, acima de tudo, sabe o lugar dela. Não vai causar problemas para o Enzo. — Valentina é um vaso de porcelana — Tiziana rebateu, girando o garfo. — Enzo vai quebrá-la na primeira semana. Por que não a filha do Roberto? Ouvi as meninas comentando que Serena Moretti voltou da Itália. Ela é uma Moretti, pelo menos tem sangue quente. Minha mão parou a milímetros de alcançar a taça de vinho. Imediatamente, minha mente me traiu, puxando a memória de horas atrás no The Continental. O susto nos olhos verdes-claros dela. A forma como a mão dela tremia sob a minha. O cheiro doce e inebriante da pele dela quando a encurralei contra a mesa, e a coragem petulante com que ela me desafiou no corredor, na frente da própria mãe. A expressão da minha mãe, no entanto, azedou instantaneamente com a sugestão de Tiziana. — Nem brincando, Tiziana. Serena não tem o perfil para se sentar à mesa principal da nossa família — Eleonora disse com um desdém refinado, o tipo de veneno que a alta sociedade destila melhor que ninguém. — Caterina sempre se achou da realeza só porque Roberto late alto nos negócios. Uma mulher arrogante que acha que pode me olhar de igual para igual. A filha deve ser a mesma coisa. Decorativa e pretensiosa. — Então por que a convidou para o chá? — Tiziana provocou. — Porque Anna me obrigou — minha mãe suspirou, referindo-se à esposa de Giovani, o Don. — Ela disse que seria um insulto direto ao Roberto se não chamássemos a garota assim que ela colocou os pés no país. Então, ela virá beber meu chá e comer meus biscoitos. Mas garanto a vocês, a filha de Caterina Moretti não será uma Barone. Enzo vai se casar com a Valentina. Forcei minha respiração a continuar no mesmo ritmo compassado. Tomei um gole do vinho tinto, sentindo o gosto metálico e áspero descer pela garganta. Minha mãe era uma estrategista implacável quando se tratava de uniões que deveriam servir aos interesses da família, mas a arrogância a deixava cega. Ela não fazia ideia de que Serena não era apenas decorativa; eu duvidava muito que fosse. E ela conhecia Enzo menos ainda. Se o meu irmão desconfiasse que Valentina era uma imposição materna, ele faria o oposto apenas para desafiá-la. Mas o que realmente fez meu sangue gelar não foi a cegueira da minha mãe ou a imprevisibilidade de Enzo. Foi a possessividade instintiva e violenta que escureceu o fundo da minha mente ao ouvir a matriarca dizer que Serena não seria uma Barone. Roberto achava que controlava a filha. Minha mãe achava que controlava o jogo. Mas, lembrando da respiração de Serena batendo contra meu rosto poucas horas atrás, eu soube de uma coisa com clareza absoluta. Se Serena Moretti entrasse para esta família, não seria como a esposa domada do meu irmão caçula.






