Mundo ficciónIniciar sesiónAntes que ele pudesse aniquilar o resto da distância entre nós, um ruído abafado soou no saguão, seguido pelo inconfundível tom grave do meu pai, rindo de algo no corredor.
Daniel não saltou para trás como um garoto assustado. Ele recuou com uma fluidez controlada, soltando minha mão um segundo antes que a figura imponente de Roberto Moretti cruzasse a porta dupla, seguido por minha mãe. A presença do meu pai em qualquer ambiente era como um ímã. Não importava o quão discreto fosse o lugar, sempre havia homens que apareciam como se tivessem sido convocados por gravidade. Quase imediatamente, um grupo de senhores mais velhos que estava na área do bar se aproximou, rostos conhecidos demais para serem apenas frequentadores comuns. — Moretti — um deles disse, num cumprimento que parecia cordial até você ouvir o aço por baixo. — Faz tempo. Meu pai não sorriu com os lábios. Sorriu com os olhos. Um gesto calculado. — Senhores. — Ele inclinou a cabeça. — Como estão as coisas? A conversa começou ali mesmo, em tom baixo. Eu me mantive perto da parede, tentando fazer meu coração voltar ao ritmo normal e me recompor. Fiquei como uma extensão do silêncio dele, educada e absolutamente fora de lugar naquele mundo masculino. Minha mãe, percebendo que a conversa demoraria, fez um pequeno sinal e escapuliu sutilmente de volta para o corredor. Foi então que Daniel se moveu, aparecendo ao meu lado tão naturalmente que não ouvi o passo. Só senti o calor do corpo dele. Ele fez um aceno breve para Roberto, respeitoso o suficiente para não interromper, mas presente o bastante para que os outros homens notassem quem ele era. — Roberto — Daniel disse, a voz calma. — Vou levar a Serena até Caterina. Meu pai lançou um olhar rápido na nossa direção. Não havia permissão explícita, mas havia aquela coisa perigosa que ele fazia: avaliar um risco em meio segundo e decidir se valia a pena. O herdeiro da máfia me oferecendo escolta era um recado claro de prestígio. — Vá — ele disse, com os olhos pesados. Daniel não respondeu com palavras. Apenas inclinou a cabeça. Eu devia ter ficado incomodada por ser movida pelo salão. Mas, naquele instante, a alternativa era ficar ali, decorativa e vulnerável. Daniel estendeu o braço, e a mão dele pousou de leve logo abaixo do meu ombro, só o suficiente para orientar, uma pressão mínima, quase cortês. Mesmo assim, meu corpo reagiu lembrando do toque quente que havia acontecido a portas fechadas. Caminhamos pelo corredor com a mesma naturalidade de quem pertence ao lugar. Passamos por uma porta meio aberta, e vi a copa do clube: uma bancada de mármore, máquina de café, louças alinhadas. Duas mulheres trabalhavam ali com eficiência silenciosa e minha mãe, estava com elas, inclinada num diálogo baixo, o rosto gentil e atento. Ela parecia em casa, lidando com os próprios bastidores políticos, já que informação é algo valioso em nosso meio, e aquelas senhoras provavelmente escutavam todo tipo de coisa no clube. Uma das funcionárias segurava uma prancheta, mexendo os dedos nervosamente como quem pede um favor sem ter coragem de dizer a palavra, provavelmente buscando uma intercessão com meu pai. Caterina notou minha aproximação e sorriu, mas os olhos dela deslizaram para Daniel com uma leitura completa em um segundo. — Serena — ela disse. E então: — Daniel. — Senhora Moretti — ele cumprimentou, impecável. A mão dele deixou meu ombro no instante certo, como se nunca tivesse estado ali. Eu respirei um pouco melhor. E então percebi a ironia de tudo aquilo. Não resisti. O nervosismo havia dado lugar a uma adrenalina imprudente. — Engraçado — eu disse, num tom leve demais para a minha própria segurança. — Meu pai me achou primeiro. Os olhos de Daniel pousaram em mim com aquela atenção escura, divertida sem ser gentil. — Roberto acha tudo que é dele - ele respondeu, como se fosse uma frase banal. O rubor veio como uma traição. Eu segurei o olhar dele, me recusando a baixar a cabeça, e inclinei o rosto de um jeito quase brincalhão, lembrando da nossa conversa na mesa de bilhar. — E você? — perguntei, com uma coragem que eu não tinha certeza de onde havia surgido. — Você também tinha me achado... ou foi só coincidência? Por um instante, o ar pareceu mais quente dentro da copa. Daniel se aproximou meio passo, não o suficiente para ser indecente, só o suficiente para ser impossível de ignorar. A voz dele baixou um tom, o tipo de som que não atravessa paredes. — Se eu não tivesse achado você, Serena... — ele disse, pausando como se escolhesse a palavra com cuidado. — eu não teria tocado no assunto com o seu pai. Minha mãe pigarreou. Um som delicado, mas que cortava o ar como vidro. Era um aviso. — Serena — Caterina disse, e havia doçura ali... e comando também. — Me acompanhe, vamos beber algo. — Então ela se voltou para Daniel. — Gostaria de nos acompanhar, Sr. Barone? — Nada me deixaria mais feliz, senhora, mas o dever me chama. Eu assenti, obediente, mas meus olhos voltaram para Daniel uma última vez,e ele sustentou meu olhar por tempo demais para ser apenas cordialidade. Quando me virei, ouvi a voz da mulher com a prancheta, baixa, quase suplicante, pedindo a minha mãe para interceder com Roberto sobre alguma coisa. Caterina respondeu com calma, como quem já sabia que favores, naquele mundo, sempre vinham com juros. E eu segui pelo corredor de volta para a entrada com a sensação incômoda de que, em poucos minutos, Daniel Barone tinha feito duas coisas ao mesmo tempo: me proteger do olhar dos outros homens... e me lembrar de que ele podia chegar até mim quando quisesse.






