Mundo ficciónIniciar sesiónO atraso do Enzo nunca era apenas atraso, ele gostava de ter a atenção de todos assim que chegava.
Eu ouvi antes de vê-lo, passos firmes no corredor, uma voz masculina se despedindo em tom respeitoso demais, e então a porta da sala de jantar se abriu como se a casa toda tivesse esperado por ele desde o início da noite. Meu irmão entrou com aquele tipo de presença que irritava e impressionava na mesma medida. Enzo nunca parecia apressado, mesmo quando estava atrasado, nunca parecia desalinhado, mesmo quando evidentemente vinha de algum outro compromisso. O terno escuro estava impecável, mas a gravata já tinha sido afrouxada meio centímetro além do aceitável. O cabelo continuava no lugar. O sorriso também. Sempre o maldito sorriso. — Mamma — ele disse, como se a insatisfação dela ainda não estivesse evidente, inclinando-se para beijar o rosto da nossa mãe com demora calculada demais para ser inocente. — A senhora está cada dia mais linda! Chega a ser cruel convocar um homem faminto e ainda esperar pontualidade. Minha mãe não sorriu. O que, para qualquer outra pessoa, seria suficiente para freá-lo. Para Enzo, era só o começo do entretenimento. — Sente-se — Eleonora respondeu, seca. — E poupe seu teatro para mulheres menos inteligentes. Enzo levou a mão ao peito, ofendido de mentira, e então se virou para Tiziana, que já o observava com aquela mistura de carinho e ironia que ela só reservava a nós dois. — Tesoro, você está horrível — ele disse, beijando o topo da cabeça dela. — Isso é tristeza pela minha ausência ou só mau gosto mesmo? Tiziana sorriu com veneno. — É luto antecipado pela infeliz que a mamma escolher para você. A risada dele veio fácil, baixa e insolente. Então seus olhos pousaram em mim. Havia algo quase infantil no jeito como Enzo me olhava às vezes, como se ainda tivesse quinze anos e precisasse confirmar se eu continuava ali, e tinha minha atenção. Só que ele já não tinha quinze anos havia muito tempo, e nada nele era inocente. Mesmo assim, ele se aproximou da minha cadeira e apoiou a mão no meu ombro por um segundo, apertando com força suficiente para dizer tudo sem abrir a boca. Lealdade. Provocação. Sangue. Eu mataria por você, seu desgraçado, pensei, com a familiar exasperação de quem passou a vida inteira limpando os rastros dele e, ainda assim, pisaria sobre cadáveres antes de deixarem que encostassem um dedo naquele idiota. — Daniel — ele murmurou. — Enzo. Era o bastante. Com a gente, sempre foi. Ele finalmente se sentou à direita da nossa mãe, e uma criada apareceu no mesmo instante para servi-lo, como se a casa inteira já soubesse o ritmo dele e tivesse aprendido a obedecer. Enzo pegou a taça de vinho, levou-a aos lábios, e mal havia provado o primeiro gole quando o celular vibrou sobre a mesa ao lado do prato. Minha mãe lançou um olhar afiado para o aparelho. Enzo nem fingiu constrangimento. Pegou o telefone, olhou a tela e atendeu antes que o segundo toque soasse. — Estou em casa, jantando com mia famiglia — disse, sem sequer se dar ao trabalho de abaixar muito a voz. Fez uma pausa, escutando. O canto da boca ergueu-se. — Não, você escuta com atenção: se ele quiser mudar a porcentagem agora, então ele espera até amanhã e negocia comigo pessoalmente. Se não quiser esperar, a porta da rua continua aberta. Ele desligou e pousou o celular ao lado do prato como se nada tivesse acontecido. Minha mãe o observou por dois segundos inteiros. — Isso é exatamente o tipo de coisa que eu odeio. — E, ainda assim, você me ama profundamente — Enzo respondeu, cortando a carne com calma. — Eu amo o sobrenome que você carrega. O resto ainda está em análise. Tiziana abafou uma risada. Eu levei a taça à boca para esconder a minha. Enzo sorriu de novo, aquele sorriso de príncipe mimado que fazia homens baixarem a guarda e mulheres confundirem perigo com fascínio. Era por isso que ele era tão eficaz. Daniel intimidava. Enzo atraía. Eu fazia homens dizerem a verdade por medo; Enzo fazia os mesmos homens oferecerem demais por prazer. Onde eu erguia muros, ele jogava cordas para quem fosse digno de escalar. E era exatamente por isso que Marco queria transformá-lo em capitão. — Seu tio me ligou — minha mãe disse, retomando a conversa sem qualquer transição. — Ele está satisfeito com seu progresso. Enzo arqueou a sobrancelha, mas continuou comendo. — Isso costuma significar que vem exigência depois do elogio. — Naturalmente. O celular vibrou outra vez. Desta vez, Enzo soltou um suspiro curto, como quem considera ignorar, mas não ignora. Atendeu com um toque rápido. — Fale. — O olhar dele endureceu por um instante. - Então manda retirar o nome da lista. Se ele não consegue sustentar a aposta, não volta a entrar. Sim. Quero isso resolvido antes da meia-noite. Desligou. Silêncio. Minha mãe apoiou os talheres com delicadeza absoluta, o tipo de gesto que, nela, equivalia a um aviso formal. — Você vai começar a ser mais seletivo. Enzo ergueu os olhos. — Em relação a quê? Aos negócios ou às pessoas? — Aos dois — ela respondeu. — Mas, no momento, às pessoas. Seu problema nunca foi falta de charme, Enzo. Foi excesso de indulgência. Você sorri demais, concede demais, prolonga demais. — Eu não sabia que simpatia tinha virado defeito nesta casa. — Não virou. Mas banalidade, sim. Tiziana apoiou o cotovelo na mesa. — Lá vem. Minha mãe ignorou a interrupção. — Um homem na sua posição não pode distribuir atenção como se ela não tivesse valor. Nem para parceiros de negócio, nem para mulheres. Principalmente para mulheres. Enzo recostou-se na cadeira, agora verdadeiramente atento. — Ah. Então é sobre isso. — É claro que é sobre isso — Eleonora disse. — Está na hora de você entender que certos hábitos deixam de ser encantadores quando um homem precisa ser levado a sério. Enzo girou a taça entre os dedos, pensativo, mas sem perder a insolência natural. — E eu não sou levado a sério? Minha mãe lhe lançou um olhar frio. — Você é levado a sério demais por homens que têm medo do seu sobrenome. Isso não é a mesma coisa que respeito duradouro. Respeito duradouro exige disciplina. Exige constância. Exige que você pare de se deixar distrair por rostos bonitos e risadas fáceis. Enzo sorriu, lento. — Isso parece pessoal. — Isso parece experiência — minha mãe rebateu. Eu observei em silêncio, porque aquela era uma dança antiga entre os dois. Ele testava os limites dela; ela o pressionava até parecer que ele tinha escolhido obedecer sozinho. Foi Tiziana quem decidiu piorar tudo. — A mamma já escolheu até o seu tipo ideal — disse ela, inocente de mentira. — Calma, bonita, bem-criada, de família sólida, pouco barulho. Quase uma santa com sobrenome útil. — Uma santa? — Enzo repetiu, horrorizado. — Que perspectiva sombria, mamma! — Valentina DeSantis — minha mãe corrigiu, ignorando o deboche. — E sim, você faria bem em observá-la com atenção no chá. Enzo soltou uma pequena risada nasal. — Então é isso. Eu chego atrasado para jantar e descubro que meu futuro já está sendo servido junto com o prato principal. — Seu futuro está sendo organizado por pessoas que pensam melhor do que você quando o assunto é permanência — Eleonora respondeu. — Agradeça. Por um segundo, algo mais duro passou pelo rosto dele. Quase nada. Quase invisível. Mas eu conhecia meu irmão bem demais. Enzo odiava sentir-se conduzido. E odiava ainda mais quando percebia que alguém supunha conhecer seus gostos melhor do que ele próprio. — Vou ao chá — ele disse, por fim, calmo demais. — Prometo olhar com bastante atenção. Tiziana desviou os olhos para o prato, escondendo o sorriso. Eu também não disse nada. Porque conhecia aquele tom. Conhecia o brilho exato que apareceu nos olhos dele depois de ouvir um nome imposto, uma escolha organizada, um caminho pavimentado demais. Enzo jamais seguia a trilha que deixavam pronta para ele. Se nossa mãe queria Valentina, ele encontraria defeito nela antes da sobremesa. Se ela queria discrição, ele faria questão de ser visto. Se queria docilidade, ele pisaria fora da linha só para provar que podia. Minha mãe pensava estar empurrando o filho na direção correta. Mal percebia que, com Enzo, pressão nunca produzia obediência. Produzia curiosidade. E curiosidade, no meu irmão, quase sempre acabava em desastre.






