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CAPÍTULO 5 Memórias Que Não São Minhas

Lívia não dormiu naquela noite.

Não de verdade.

O corpo até tentou descansar, afundando contra o colchão macio, buscando algum tipo de trégua física depois de um dia que parecia ter durado muito mais do que deveria, mas a mente… a mente não desligava, não desacelerava, não permitia silêncio suficiente para que o sono viesse, porque sempre que fechava os olhos, a imagem da foto voltava, insistente, perturbadora, impossível de ignorar.

Ela.

Arthur.

Juntos.

E aquilo não era apenas uma coincidência visual.

Era mais profundo.

Mais incômodo.

Porque não era só o rosto.

Era a sensação.

Uma familiaridade que ela não conseguia explicar.

E era isso que mais a assustava.

Não a possibilidade de ele estar mentindo.

Mas a possibilidade de ele não estar.

Quando finalmente desistiu de tentar dormir, levantou-se ainda antes do amanhecer, caminhando pelo quarto em silêncio, como se qualquer som pudesse quebrar algo frágil dentro dela, algo que ainda estava tentando se organizar.

Precisava de respostas.

E precisava rápido.

Desceu as escadas com cuidado, encontrando a casa ainda silenciosa, vazia, quase irreconhecível sem a presença dominante de Arthur, e por um momento, aquilo lhe deu uma falsa sensação de controle, como se tivesse um pequeno espaço para pensar sem ser observada, sem ser pressionada, sem ser conduzida.

Mas essa sensação durou pouco.

Porque ao chegar à sala principal, encontrou algo que não deveria estar ali.

Um envelope.

Sobre a mesa.

Com o nome dela.

O coração acelerou imediatamente.

Ela se aproximou devagar, como se aquele objeto simples pudesse explodir ao menor toque, e por um instante, hesitou.

Mas então…

pegou.

Abriu.

E o mundo inclinou.

Dentro havia documentos.

Antigos.

Desgastados.

E uma ficha.

Com uma foto.

Dela.

Mas não era recente.

Muito mais jovem.

E no topo, um nome que fez o sangue gelar:

Lívia Albuquerque — Paciente nº 417

As mãos começaram a tremer.

Paciente?

Ela folheou os papéis rapidamente, o coração batendo forte demais, rápido demais, enquanto palavras desconexas começavam a formar algo muito pior do que qualquer hipótese anterior.

Tratamento.

Internação.

Memória.

Bloqueio.

Ela parou.

Respirou.

Tentou negar.

Mas não conseguiu.

Porque, no fundo…

algo dentro dela já sabia.

Já sentia.

— Você encontrou rápido — a voz de Arthur veio atrás dela, quebrando o silêncio como um corte limpo.

Lívia virou-se lentamente.

Os papéis ainda nas mãos.

O olhar dele fixo nela.

Intenso.

Esperando.

— O que é isso? — ela perguntou, a voz falhando pela primeira vez.

Ele não respondeu de imediato.

Apenas caminhou até ela.

Parou perto.

Perto demais.

— A verdade — disse.

Simples.

Cru.

Irreversível.

— Eu nunca estive com você — ela insistiu, mesmo sem ter mais certeza disso.

Arthur inclinou levemente a cabeça.

Observando.

Como sempre.

— Você não lembra — disse — mas esteve.

O chão pareceu desaparecer por um segundo.

— Isso é impossível.

— Não para você.

Silêncio.

Pesado.

Brutal.

— O que eu fiz? — a pergunta saiu mais baixa agora.

Mais real.

Mais perigosa.

E dessa vez…

Arthur não desviou.

Não adiou.

Não suavizou.

— Você destruiu a única pessoa que eu amei.

O ar sumiu.

Completamente.

E naquele instante…

Lívia soube.

Aquilo não era apenas um casamento.

Não era apenas vingança.

Era algo muito mais profundo.

Muito mais antigo.

Muito mais devastador.


Arthur deu mais um passo, os olhos fixos nos dela, e completou, sem hesitar:

— E o pior?

Uma pausa.

E então:

— Você implorou para esquecer.

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