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CAPÍTULO 4: A Mulher Da Foto

O mundo não fez barulho quando parou, mas Lívia sentiu como se tudo ao redor tivesse sido abruptamente silenciado, como se o ar tivesse sido sugado do ambiente no exato momento em que seus olhos reconheceram o rosto na fotografia, como se o tempo tivesse decidido congelar apenas para obrigá-la a encarar aquilo sem qualquer possibilidade de fuga, sem distrações, sem justificativas.

Ela não piscou.

Não respirou direito.

Apenas ficou ali, parada diante da gaveta aberta, segurando a foto entre os dedos que, pouco a pouco, começaram a perder a firmeza.

Aquilo não fazia sentido.

Não podia fazer.

Porque a mulher na imagem… era ela.

Ou alguém absurdamente parecida.

Mesma estrutura de rosto.

Mesmo olhar.

Mesmo sorriso.

Mas não era possível.

Não era.

O detalhe que mais a desestabilizou não foi a semelhança.

Foi a expressão.

Na foto, ela — ou aquela versão dela — parecia feliz.

Próxima.

Íntima.

E Arthur…

Arthur não estava frio.

Não estava distante.

Ele estava… envolvido.

Presente.

Como se aquele momento tivesse significado algo.

Como se aquela mulher tivesse significado algo.

Lívia engoliu em seco, tentando organizar os pensamentos, tentando encontrar uma explicação lógica, mas nada vinha, nada encaixava, nada fazia sentido o suficiente para afastar o desconforto crescente que se instalava dentro dela.

Ela virou a foto.

Nada escrito atrás.

Nenhuma data.

Nenhuma pista.

Apenas silêncio.

E perguntas.

Muitas perguntas.

O som da porta se abrindo atrás dela foi o suficiente para fazer o corpo reagir antes da mente, e quando se virou, já sabia quem encontraria ali.

Arthur.

Encostado no batente.

Observando.

Os olhos dele não estavam surpresos.

Nem curiosos.

Estavam atentos.

Como se já soubesse exatamente o que ela tinha encontrado.

— Interessante, não é? — ele disse, a voz baixa, quase tranquila demais para a situação.

Lívia apertou a foto entre os dedos, mas não a escondeu.

Não desviou.

— Quem é essa mulher?

O silêncio se alongou por alguns segundos, e então ele começou a se aproximar, devagar, sem pressa, como alguém que não precisa correr atrás de respostas porque já as possui.

— Eu estava esperando você perguntar isso — disse.

— Então responde.

Ele parou a poucos passos dela.

Olhou para a foto.

Depois para ela.

E algo mudou.

De novo.

Uma sombra.

Um peso.

— Você.

Simples assim.

Direto.

Sem espaço para interpretação.

O coração dela disparou.

— Não — ela respondeu imediatamente — não sou eu.

— Tem certeza?

A pergunta veio carregada de algo mais profundo, algo que ultrapassava provocação, algo que parecia tocar em um ponto que ela mesma não conseguia acessar completamente.

— Eu nunca estive com você antes.

— Não dessa forma — ele disse.

E aquilo…

aquilo foi pior.

— Então explica.

Arthur a observou por mais alguns segundos, como se estivesse avaliando até onde poderia ir, até onde queria ir, mas no fim, apenas estendeu a mão e pegou a foto, tirando-a dos dedos dela com uma calma que contrastava com o turbilhão que se formava dentro dela.

— Algumas verdades — ele disse — precisam ser descobertas no tempo certo.

Lívia sentiu a irritação subir.

— Para de falar como se isso fosse um jogo.

— Mas é.

A resposta veio rápida.

Fria.

E definitiva.

— Para mim não é.

— Vai ser.

O silêncio que se instalou foi pesado.

Quase sufocante.

E pela primeira vez…

Lívia sentiu algo além de confusão.

Sentiu medo.


Antes de sair do quarto, Arthur parou na porta e disse, sem olhar para trás:

— A única pergunta que você deveria estar fazendo não é “quem é ela”…

Uma pausa.

Curta.

Cortante.

— É “o que você fez comigo”.

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