Mundo de ficçãoIniciar sessãoA Herdeira do Rei do Gado Manuela Rossi sempre acreditou que seu maior desafio era conciliar as noites cantando em bares de Goiânia com os estudos de Administração. Criada apenas pela mãe, ela aprendeu desde cedo que tudo o que conquistasse seria fruto do próprio esforço. Sua vida muda completamente quando recebe uma convocação inesperada para a leitura do testamento de Augusto Montenegro, o homem conhecido em todo o país como o Rei do Gado. Diante de uma sala lotada de familiares, advogados e empresários, Manuela descobre uma verdade capaz de abalar seu mundo: Augusto era seu pai biológico. Além do sobrenome Montenegro, ele lhe deixou parte de um dos maiores impérios agropecuários do país. A notícia cai como uma bomba sobre Marcos Goulart, o enteado que Augusto criou como filho e preparou durante anos para assumir os negócios da família. Convencido de que Manuela é apenas uma oportunista interessada em fortuna, Marcos promete fazer de tudo para tirá-la de seu caminho. Mas Manuela não está ali pelo dinheiro. Ela quer respostas. Quer entender por que passou a vida inteira sem conhecer o pai e por que ele só a reconheceu depois da morte. Enquanto a disputa pela herança transforma aliados em inimigos e expõe segredos enterrados há décadas, uma atração inesperada surge entre os dois lados dessa guerra. O que nenhum deles imagina é que Augusto Montenegro guardava muito mais do que um segredo de paternidade. Sua morte pode não ter sido um acidente. E alguém dentro da própria família está disposto a fazer qualquer coisa para impedir que a verdade venha à tona. Entre paixões proibidas, traições, ambição e perigos ocultos, Manuela e Marcos precisarão decidir se estão lutando um contra o outro... ou contra um inimigo muito mais próximo do que imaginam.
Ler maisPRÓLOGO
Augusto Montenegro "Ouvir a voz dela fez o meu mundo parar" Augusto permaneceu imóvel próximo à arena principal da exposição agropecuária, enquanto observava a jovem no palco que terminava uma canção sertaneja sob aplausos de todos ali. Não era pela música, muito menos pela multidão. Era ela, cada detalhe dela, o levava ao passado que por muito tempo ele só quis esquecer. Ela tinha cabelos longos e castanhos, com leves ondas que destacavam seu rosto delicado. E aquele par de olhos cor de mel... Por um instante, ele sentiu o coração falhar dentro do peito. Porque estava literalmente olhando para o passado. Estava olhando para Helena, o grande amor da sua vida. Ou pelo menos para uma parte dela, ou melhor deles... As informações do investigador ainda estavam frescas em sua memória. Manuela Rossi, vinte e quatro anos. Era universitária, e cantora nas noites de Goiânia. Filha de Helena Rossi. Pai desconhecido... A mesma Helena que desapareceu da sua vida sem deixar explicações. A mesma mulher que ele procurou durante anos, a mesma que ele nunca teve a capacidade de esquecer. Quando a apresentação terminou, Augusto esperou. Suas mãos tremiam, ele suava frio, era medo, medo de não ser aceito, medo de não conseguir falar com ela, medo do passado ser ainda mais doloroso. A multidão começou a dispersar. Então a jovem desceu do palco carregando um violão nas costas. Foi nesse momento que ele tomou coragem, e caminhou em sua direção. — Manuela? Ela virou o rosto, sorrindo. Os olhos se encontraram. E Augusto sentiu um misto de sentimentos, tão forte, que fez seu peito acelerar. — Sim, sou eu? Eu conheço o senhor? Ele sorriu. Um sorriso triste. — Ainda não, sou Augusto Monte Negro, um prazer enfim te conhecer. Manuela observou o homem elegante à sua frente por alguns instantes. Mas ela tinha certeza de nunca tê-lo visto, e nem ter ouvido seu nome. — Desculpe, mas eu preciso ir, com licença. — Espere. Ela parou. — Seu nome é Manuela Rossi, certo? — É. — Sua mãe se chama Helena? O coração dela acelerou. — Sim. — Como o senhor sabe? Ela parecia assustada, e ele não sabia como agir. Augusto demorou alguns segundos para responder. Segundos que pareciam uma vida inteira. — Porque eu conheci sua mãe há muitos anos. Manuela sorriu. — Então o senhor é um amigo dela? Amigo. A palavra atingiu Augusto como um golpe doloroso. Não. Ele não era amigo. Ele foi muito mais que isso. Mas ao mesmo tempo, agora, não era nada. Porque aquela jovem visivelmente, não fazia ideia de quem ele era, e tudo que ele mais queria no mundo era que ela soubesse. — Digamos que...fomos muito importantes um para o outro. Ela assentiu. — Quando eu encontrar minha mãe, vou dizer que o senhor perguntou por ela. Augusto observou cada detalhe daquele rosto. Cada traço. Cada expressão. Cada pedaço da filha que nunca teve a chance de conhecer. Filha. Pela primeira vez ele permitiu que a palavra existisse dentro dele. Sua filha. Mesmo que fosse Vinte e quatro anos tarde demais. — Faça isso, diga meu nome a ela. Manuela sorriu. — Foi um prazer conhecê-lo. — O prazer foi todo meu, espero te ver novamente em breve... Ela se afastou. Augusto permaneceu parado observando até que desaparecesse entre as pessoas. Então levou a mão ao bolso. Retirou uma fotografia antiga. A única que ele tinha... Helena. Grávida. Sorrindo para a câmera. Pela primeira vez em vinte e quatro anos, as peças finalmente se encaixavam. Mas agora ele tinha uma nova missão. Contar a verdade. Reconhecer a filha. E recuperar o tempo que lhes foi roubado. O que Augusto Montenegro não sabia... Era que alguém observava a cena à distância. E que aquela conversa mudaria o destino de todos. Capítulo 1 Manuela Rossi — Essa foi para os corações apaixonados! Quarta feira que vem, eu Manuela Rossi estarei aqui com vocês novamente, gratidão! Os aplausos fizeram eco, pelo pequeno restaurante enquanto eu terminava a última música da noite. Sorri para o público como sempre faço e agradeci mais uma vez antes de deixar o pequeno palco improvisado. Minhas costas doíam. Meus pés estavam me matando. E eu ainda tinha uma prova de Gestão Financeira dali a dois dias, e precisava estudar urgentemente. A glamourosa vida de uma cantora universitária. Parecia até uma piada mal contada, mas era isso, ou desistir da faculdade, o que com certeza, não é uma opção. Sorri pelo sarcasmo glamouroso, ao imaginar essa frase. Peguei meu violão e caminhei entre as mesas. Alguns clientes me cumprimentaram. Outros pediram fotos. Nada exagerado. Eu estava muito longe de ser famosa. Cantava porque gostava. E claro, porque o dinheiro dos cachês ajudava a pagar a faculdade, nunca me imaginei sendo famosa nem nada além da noite de Goiânia. Quando saí do restaurante, a noite estava agradável. Entrei no meu carro velho, que inclusive foi prêmio de um show de calouros que participei há uns quatro anos. Um modelo antigo que sobrevivia mais por teimosia do que por qualidade mecânica. O tanque estava quase vazio. Meu saldo bancário também. Mas eu estava feliz, tudo tem corrido bem. Estou cansada. Porém feliz por tudo que vem acontecendo na minha vida. Liguei o rádio e segui para casa. Durante o caminho, minha mente voltou para um encontro estranho que havia acontecido alguns dias antes na exposição agropecuária. O homem elegante. Os olhos verdes. O jeito como ele tinha me observado. E principalmente a pergunta sobre minha mãe. Balancei a cabeça. Afastando da mente. Provavelmente era algum conhecido antigo, dela. Quando cheguei em casa, encontrei todas as luzes apagadas, e mais uma vez não perguntei nada pra ela, a vida está corrida demais... Mas uma correria boa. Sorri. Minha mãe certamente já estava dormindo. Então entrei em silêncio. Mas parei imediatamente ao encontrar Dona Helena sentada no sofá. No escuro. Apenas observando a janela. Meu coração apertou. — Mãe? Ela virou o rosto. Sorriu ao me ver. Mas seus olhos estavam vermelhos. — Você chegou, minha filha. — Está tudo bem mãezinha? — Claro que sim. Era mentira. Eu a conhecia bem demais. — Você chorou, o que houve? — Foi só cansaço. Suspirei. Ela sempre fazia isso. Guardava tudo para si. Desde pequena eu sabia que minha mãe carregava tristezas que nunca compartilhava. Mas também sabia que insistir era perda de tempo, ela era turrona demais. Quando Dona Helena decidia não falar, ninguém conseguia fazê-la mudar de ideia. — Vou tomar banho então... — Boa noite, filha. — Boa noite mãe. Beijei sua testa. E subi para meu quarto. Alguns minutos depois, já deitada, fiquei olhando para o teto. Pensando. Pensando na minha mãe, e todos os seus traumas, que ela nunca conta mas se vê através dos seus olhos. Pensando na vida. E sem perceber o sono me venceu. O som insistente do celular me arrancou dos sonhos. Resmunguei. Procurei o aparelho na mesa de cabeceira ainda com os olhos fechados. Com dificuldade olhei para a tela. Número desconhecido. Quase desliguei. Mas algo me fez atender. — Alô? — Estou falando com Manuela Rossi? A voz masculina era séria, parecia formal. — Sim. — Meu nome é Vicente Albuquerque. Sentei imediatamente na cama, despertando de vez. — Certo, e o que precisa de mim? — Sou advogado. Ótimo. Advogados nunca ligam trazendo boas notícias. — Aconteceu alguma coisa? Houve alguns segundos de silêncio. Então ele respondeu: — Senhorita Rossi, preciso falar pessoalmente com você. Meu estômago revirou. — Sobre o quê? — Sobre Augusto Montenegro. Franzi a testa. O nome parecia familiar. Mas não consegui identificar de onde. — Desculpe, acho que o senhor ligou para a pessoa errada. — Não. A resposta veio rápida. — Tenho certeza de que estou falando com a pessoa certa. Levantei da cama. Começando a ficar nervosa. — Eu não conheço nenhum Augusto Montenegro. Do outro lado da linha, o homem respirou fundo. Como se estivesse preparando uma notícia difícil. — Augusto Montenegro, ele... faleceu há três dias. Meu coração acelerou. Mas não era de tristeza, eu estava confusa. Porque aquele nome não significava nada para mim, porque estou sendo comunicada da morte dele. — Meus sentimentos, mas continuo sem entender. — Entendo sua reação. — Então, me diz, por que está me ligando? Silêncio. Um silêncio longo demais. Até que ele finalmente disse: — Porque seu nome está no testamento dele. Fiquei imóvel. — Está... o quê? — Augusto Montenegro, te colocou no testamento, e solicitou sua presença na leitura oficial, quando ele partisse... Meu cérebro simplesmente travou. — Isso é algum tipo de golpe, trote? — Não senhorita, é a verdade... — Eu nunca vi esse homem na vida, como eu estaria no testamento dele, isso é loucura. — Viu, talvez não lembre, mas viu, mesmo assim, o que importa de imediato é que ele a incluiu como herdeira. Herdeira. A palavra ecoou dentro da minha cabeça. Herdeira? De quem? Por quê? Como? — Senhor Albuquerque... — Vicente. — Vicente, ok, deve haver algum erro. — Não houve erro algum. Minhas pernas enfraqueceram. Sentei novamente na cama. — Eu não conheço esse homem, droga. Meu coração disparou. Outra pausa. Outra daquelas pausas que pareciam esconder uma bomba dentro da gente. Quando ele voltou a falar, sua voz estava ainda mais séria. — Senhorita Rossi, preciso que venha à Fazenda Montenegro, amanhã. — Para quê? Ele respirou fundo. — Porque existem verdades que não podem ser contadas por telefone, precisamos estar frente a frente. Olhei para a porta do quarto. Sentindo um frio estranho percorrer minha espinha. — Que verdades? A resposta veio como um trovão, ele já estava impaciente. Uma frase simples. Mas capaz de mudar minha vida para sempre. — Só saiba que não houve engano, senhorita Rossi. Prendi a respiração. — Augusto Montenegro a reconheceu oficialmente como herdeira, porque ele é... seu pai. O mundo pareceu parar. E eu tive a horrível sensação de que tudo o que acreditava saber sobre mim era uma grande mentira...Capítulo 15Manuela RossiO dia estava quase amanhecendo quando despertei.Uma correria no corredor.Barulho lá fora.Vozes altas.Olhei pela janela e avistei Marcos correndo na direção do estábulo.Meu coração acelerou.Lembrei imediatamente do sonho.Do Fantasma.Do meu pai.Sem pensar duas vezes, calcei a primeira botina que encontrei ao lado da cama, joguei uma jaqueta por cima do moletom dele e abri a porta.Assim que saí para o corredor, dei de cara com Dona Santa.Ela caminhava apressada, carregando um balde com toalhas limpas.— Dona Santa! O que aconteceu?Ela nem diminuiu o passo.— A Estrela entrou em trabalho de parto, minha menina.Me aproximei rapidamente.— Ela vai ficar bem?Ela respirou fundo.— Se Deus quiser, vai. Mas parto de égua é uma caixinha de surpresa. Quando resolve complicar, é tudo muito rápido.Descemos praticamente correndo as escadas.O cheiro de café recém-passado se misturava ao da terra molhada pela neblina da madrugada.Alguns peões atravessavam o p
Capítulo 14Manuela RossiA porta se abriu devagar.Era Dona Santa.Ela entrou em silêncio, como se tivesse medo de aumentar ainda mais a minha dor.Nas mãos carregava uma bandeja com uma caneca de chá de camomila e alguns pedaços de bolo de fubá ainda mornos.Sorriu de um jeito triste.— Posso entrar, minha menina?Assenti com a cabeça.Ela fechou a porta atrás de si e colocou a bandeja sobre a cômoda.— Ouvi seu choro lá do corredor.Sentei na cama, limpando rapidamente as lágrimas.— Desculpa...Ela balançou a cabeça.— Nunca peça desculpas por sentir demais.Aquela frase desmontou o pouco que ainda restava da minha coragem.Dona Santa sentou ao meu lado e segurou minha mão entre as dela.As mãos eram quentes.Tinham cheiro de café e de comida feita no fogão a lenha.Um cheiro que, estranhamente, trazia conforto.— Eu queria tanto ter conhecido o meu pai...Minha voz saiu embargada.Ela apertou delicadamente meus dedos.— Ele também queria.Olhei para ela imediatamente.— A senhora
Capítulo 13Marcos GoulartParei com a mão na madeira do batente da porta.A pergunta do Gael ficou suspensa no ar.Ele me conhecia desde que eu usava botas maiores que as pernas. Sabia quando eu estava mentindo, quando estava bravo e, principalmente, quando nem eu mesmo entendia o que estava sentindo.Respirei fundo antes de responder.— Nada.Ele deu uma risada sem humor.— Você sabe que mente mal pra caramba né?Virei devagar.Gael continuava parado no mesmo lugar, os braços cruzados, me encarando.— Você brigou com a Olívia. Beleza. Seu pai morreu. Isso explica metade desse seu humor de cão. Mas essa outra metade...Ele apontou discretamente para a porta por onde Manuela tinha acabado de sair.—tem nome...Franzi a testa.— Para de falar besteira.— Besteira?Ele deu dois passos na minha direção.— Você chegou aqui parecendo um touro bravo porque me viu abraçado com ela.— Ela estava chorando.— Sim.— E você estava abraçado com ela.— Sim.— Então...— Então nada.Passei a mão na
Capítulo 12Marcos GoulartMe tranquei no quarto, impedindo que Olívia entrasse. Não demorou para o helicóptero levantar voo e desaparecer no horizonte.Fiquei na sacada do meu quarto, que é o mais afastado da mansão. Sempre fui o rabugento da família, revoltado desde pequeno. Por isso, preferia me manter distante de todos.Quem conseguiu mudar isso foi Augusto.Com paciência.Com muito amor.E eu simplesmente não consigo acreditar que ele se foi. Que, se eu tiver qualquer problema, qualquer dúvida ou simplesmente precisar de um conselho, não poderei mais correr até ele.Peguei o celular e comecei a olhar nossas fotos. Deixei a dor me invadir. Eu precisava senti-la.Foi então que ouvi uma voz doce e melodiosa.A mesma voz que, um ano atrás, embalou minhas noites de insônia depois de tantas bebedeiras.Não...Não pode ser.Caminhei até a beirada da sacada e a avistei embaixo da mangueira, sentada com um violão nas mãos. Bastaram os primeiros acordes para meu peito rodopiar exatamente c










Último capítulo