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CAPÍTULO 3: A Casa Dele, As Regras Dele

O carro parou com suavidade, mas o impacto dentro de Lívia foi tudo, menos suave. Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel no banco traseiro, olhando pela janela como se estivesse tentando confirmar que aquilo era real, como se o cenário diante dela pudesse se dissolver se encarasse tempo suficiente, mas não — a mansão continuava ali, imponente, silenciosa, quase ameaçadora na forma como se erguia isolada do resto do mundo, cercada por muros altos e um jardim perfeitamente cuidado que parecia mais uma vitrine do que um espaço vivo.

Aquilo não era uma casa.

Era território.

E, instintivamente, ela soube que estava entrando como intrusa.

A porta do carro se abriu antes que ela pudesse reagir, e o motorista apenas fez um gesto discreto, indicando que ela deveria descer. Lívia respirou fundo, ajustou a postura e saiu, sentindo imediatamente o peso daquele lugar se instalar sobre ela, como se o próprio ar fosse mais denso ali, mais controlado, mais… dele.

E então ela o viu.

Arthur Valença estava parado no topo da escadaria, exatamente como alguém que não precisava descer para receber ninguém, como alguém que esperava que o mundo inteiro subisse até ele. A postura relaxada contrastava com a intensidade do olhar, e aquele sorriso — aquele mesmo sorriso que não alcançava os olhos — fez algo dentro dela se contrair.

Ele não estava feliz em vê-la.

Ele estava satisfeito.

Como quem finalmente recebe algo que esperou por muito tempo.

Lívia começou a subir os degraus lentamente, mantendo o olhar firme, recusando-se a demonstrar qualquer tipo de hesitação, mesmo que por dentro cada passo fosse acompanhado por uma sensação crescente de que estava avançando para dentro de algo irreversível.

Quando parou diante dele, a diferença de altura entre os dois se tornou ainda mais evidente, e a proximidade trouxe de volta aquela percepção incômoda que ela já tinha sentido antes — a de que Arthur não apenas a observava, mas a analisava, como se estivesse avaliando cada reação, cada respiração, cada pequeno sinal de fraqueza.

— Pontual — ele comentou, a voz baixa, quase casual, mas carregada de uma intenção que não era nada casual.

— Você deixou claro que não havia opção — ela respondeu, sustentando o olhar.

Um breve silêncio se instalou entre os dois, e por um instante pareceu que ele iria dizer algo mais, algo que ultrapassasse aquele jogo superficial de provocações, mas em vez disso, Arthur apenas virou-se e começou a subir os últimos degraus, esperando que ela o seguisse.

E ela seguiu.

Não porque queria.

Mas porque agora… fazia parte das regras.

O interior da casa era ainda mais impressionante do que o exterior, mas não de uma forma acolhedora — era sofisticado, impecável, quase frio demais, como se cada objeto tivesse sido escolhido para transmitir controle, poder, domínio absoluto sobre tudo ao redor. Não havia desordem, não havia calor, não havia traço de improviso.

Era o reflexo perfeito dele.

— A partir de hoje, você mora aqui — Arthur disse, sem olhar para trás, caminhando pelo amplo corredor como se já soubesse que ela não ousaria questionar.

Mas ela ousou.

— Nós não definimos isso.

Ele parou.

Lentamente.

Virou-se.

E dessa vez, o olhar foi mais direto.

Mais afiado.

— Nós não definimos muita coisa, Lívia — disse, aproximando-se alguns passos — e ainda assim, você assinou.

O silêncio que veio depois não foi vazio.

Foi pesado.

Carregado.

Porque ele tinha razão.

E ela odiava isso.

Arthur deu mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre eles, e por um segundo, Lívia sentiu o corpo reagir antes da mente, como se estivesse diante de algo imprevisível demais para ser ignorado.

— Eu não gosto de repetir regras — ele continuou, agora mais baixo — então preste atenção.

O tom não era alto.

Mas era definitivo.

— Você está aqui porque eu permiti — disse — e continua aqui enquanto eu quiser.

O coração dela acelerou, mas a expressão permaneceu firme.

— Isso não é um acordo, então — ela respondeu — é uma prisão.

Um leve arqueamento de sobrancelha.

Quase imperceptível.

— Depende de como você se comporta.

E aquilo…

aquilo foi o suficiente para acender algo dentro dela.

— Eu não sou sua propriedade.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Mais tenso.

Mais perigoso.

Arthur a observou por alguns segundos, e então, inesperadamente, sorriu de novo — mas dessa vez havia algo mais ali, algo mais próximo de interesse do que de simples provocação.

— Ainda não — disse.

E se afastou.

Como se aquilo encerrasse a conversa.


O quarto que lhe foi designado era grande, impecável, com uma vista que se estendia até onde os muros permitiam enxergar, mas nada ali parecia realmente dela, nada parecia ter sido pensado para acolher, apenas para impressionar, para manter uma aparência de perfeição que, naquele momento, parecia mais sufocante do que confortável.

Lívia caminhou lentamente pelo espaço, passando os dedos pela superfície fria dos móveis, tentando se ancorar em algo concreto, mas tudo ali parecia distante, como se estivesse ocupando um cenário que ainda não reconhecia como realidade.

Ela deixou a bolsa sobre a cama e se aproximou da janela, observando o jardim lá embaixo, tentando organizar os pensamentos, tentando encontrar algum tipo de lógica que explicasse tudo aquilo — o ódio dele, o casamento, a mensagem, o comportamento — mas quanto mais pensava, mais evidente ficava que havia algo faltando.

Uma peça.

Uma memória.

Algo que conectasse os pontos.

E então…

um detalhe.

A forma como ele disse: “Eu esperei muito por isso.”

Aquilo não era impulsivo.

Não era circunstancial.

Era planejado.

E isso mudava tudo.


Horas depois, já no início da noite, uma funcionária bateu à porta, informando que o jantar seria servido. Lívia quase recusou, mas algo dentro dela disse que evitar Arthur não era uma opção inteligente — não naquele momento, não naquele jogo.

Quando entrou na sala de jantar, ele já estava lá.

Sentado.

Esperando.

Como se soubesse exatamente quanto tempo ela levaria.

— Achei que não viria — ele comentou, sem levantar o olhar do copo de vinho.

— Eu pensei em não vir — ela respondeu, aproximando-se — mas imaginei que você não lidaria bem com isso.

Um leve sorriso.

— Você aprende rápido.

Ela se sentou à frente dele, mantendo a distância emocional tão cuidadosamente quanto a física, e por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada, apenas o som discreto dos talheres sendo organizados preenchia o espaço.

— Então — ela disse, quebrando o silêncio — quando pretende me explicar por que me odeia?

Direto.

Sem rodeios.

Arthur ergueu os olhos.

E dessa vez… não houve sorriso.

Apenas intensidade.

— Eu não odeio você — disse.

Uma pausa.

Curta.

Precisa.

— Eu odeio o que você fez.

O coração dela falhou uma batida.

— Eu não fiz nada.

Ele inclinou levemente a cabeça.

Observando.

Como se estivesse esperando exatamente aquela resposta.

— É isso que torna tudo mais interessante.

O ar pareceu mais pesado.

— Você está errado.

— Estou? — ele perguntou, apoiando-se levemente na mesa, aproximando-se o suficiente para que a tensão entre os dois se tornasse quase palpável — então me explica por que, sempre que eu olho para você… eu lembro de tudo.

Lívia sentiu o corpo inteiro travar.

— Eu não sei do que você está falando.

E pela primeira vez…

pela primeira vez desde que tudo começou…

Arthur pareceu considerar a possibilidade.

Não por muito tempo.

Mas o suficiente para que algo mudasse.

Um detalhe.

Uma fissura.

Mas então ele se recostou novamente, como se tivesse decidido não explorar aquilo ainda.

— Você vai descobrir — disse.

E aquilo não soou como promessa.

Soou como aviso.

_______________________________________________

Naquela noite, já no quarto, Lívia abriu uma das gavetas da cômoda — e congelou.

Dentro dela…

havia uma foto antiga.

Amassada.

Desgastada.

E nela…

Arthur.

Mais jovem.

Ao lado de uma mulher.

Uma mulher que Lívia reconheceu imediatamente.

Porque…

era ela.

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