Thomas

Thomas

Os dedos dela ainda estão nos meus cabelos quando tudo muda.

E eu nem percebo o instante exato em que deixo de pensar.

Só sinto.

Ela está aqui.

Perto demais para ser racional.

E, por algum motivo que eu não quero analisar, isso parece o único lugar do mundo onde tudo finalmente encaixa.

Como se o resto da minha vida tivesse sido só espera por esse segundo.

Minha mão sobe devagar, afastando uma mecha do rosto dela.

O gesto é pequeno.

Mas o que acontece dentro de mim não tem nada de pequeno.

Porque eu a olho.

De verdade.

E eu não sei exatamente em que momento isso virou esse tipo de olhar.

Não é só desejo.

Não é só atração.

É algo mais fundo.

Mais quieto.

Mais perigoso.

Adoração.

E isso me assusta e me acalma ao mesmo tempo.

Porque eu nunca senti isso por ninguém.

Nunca.

Nem perto.

E, pela primeira vez, isso não parece exagero na minha própria cabeça.

Parece verdade.

Ela está respirando diferente agora.

E eu sinto isso como se fosse meu próprio ar falhando.

— Você está bem? — pergunto baixo.

Não é pergunta comum.

É cuidado.

É quase medo de quebrar o que está na minha frente.

Ela pisca.

Como se eu tivesse puxado ela de um lugar onde eu não tenho acesso.

Assente.

Rápido demais.

E algo em mim aperta.

Porque eu conheço esse tipo de resposta.

É fuga.

Mesmo quando o corpo ainda está parado.

— Não precisa fugir agora — digo antes de pensar.

E no instante em que as palavras saem, eu sinto o erro.

Não porque estão erradas.

Mas porque atingem algo nela que eu não sei nomear.

O corpo dela endurece.

E então tudo acontece rápido demais.

Ela me empurra.

Forte.

Direto no meu peito.

Um gesto seco.

Instintivo.

De afastamento absoluto.

E eu recuo um passo — não pelo impacto físico, mas pelo impacto interno.

Porque aquilo não combina com ela.

Não combina com os minutos anteriores.

Não combina com nada do que eu achei que estava acontecendo entre nós.

— Maya…

Minha voz sai mais baixa do que eu queria.

Mais quebrada.

Ela tenta se afastar.

Mas antes que consiga, eu seguro seus pulsos.

Não com força.

Com desespero contido.

Como se soltar fosse aceitar que ela vai desaparecer de novo.

— Ei… — minha voz falha um pouco agora. — Maya… está tudo bem.

E eu odeio o quanto isso soa insuficiente.

Porque não está tudo bem.

Nem perto disso.

Mas eu não sei o que mais dizer.

Não sei como alcançar ela dentro desse estado.

— Olha pra mim… por favor.

A última parte sai mais baixa.

Quase um pedido.

Ela não olha.

E isso me atravessa de um jeito físico.

Como se alguém tivesse arrancado alguma coisa de dentro do meu peito sem aviso.

As mãos dela tremem contra as minhas.

Não tentando me machucar.

Tentando escapar de algo que está acontecendo dentro dela.

E isso é pior.

Muito pior.

Porque não sou eu contra ela.

É eu contra algo que eu nem consigo ver.

— Maya… — minha voz desce ainda mais, agora sem qualquer controle de firmeza. — Não faz isso comigo… não assim.

Eu nem sei o que “isso” significa.

Só sei que ela está indo.

Mesmo estando aqui.

E isso me desmonta por dentro.

Porque há poucos minutos ela estava nos meus braços.

E eu senti…

De verdade.

Uma coisa que não era só desejo.

Era permanência.

Era quase certeza.

E agora ela está se desfazendo na minha frente como se nunca tivesse conseguido ficar.

Eu ainda seguro os pulsos dela.

Mas agora menos como contenção.

Mais como medo.

Medo de soltar.

Medo de perder.

Medo de que, se eu soltar, ela simplesmente desapareça de mim de vez.

E isso me assusta mais do que qualquer coisa que eu já senti.

Porque eu entendo, com um atraso cruel, que não é só intensidade.

É algo mais fundo.

Mais perigoso.

Mais irreversível.

Eu estou preso nela.

De um jeito que eu não escolhi.

E talvez…

ela não esteja.

Ela se mexe de novo.

Mais forte.

E eu solto.

Imediatamente.

Como se o toque tivesse sido o único erro possível.

Ela recua.

Trêmula.

Respiração quebrada.

Tentando se vestir como se isso pudesse apagar o que aconteceu aqui dentro.

E eu fico parado.

Sem conseguir ir atrás.

Sem conseguir deixá-la ir.

Os dois ao mesmo tempo.

— Maya… — chamo de novo.

Mas agora não há autoridade na minha voz.

Só vazio.

Ela não responde.

Não olha.

Não fica.

E quando a porta se abre e ela desaparece pelo corredor, eu sinto como se algo dentro de mim saísse junto.

Sem permissão.

Sem aviso.

Sem volta.

Fico parado no meio do escritório.

O silêncio é grande demais.

O ar é errado demais.

E o cheiro dela ainda está aqui — como se o mundo tivesse decidido me lembrar, cruelmente, que ela existiu há segundos.

Passo a mão pelo rosto.

Devagar.

Mas não adianta.

Porque o que ficou não é pensamento.

É confusão.

É falta.

É uma coisa pior do que saudade.

É a sensação clara de que eu acabei de tocar em algo que eu não sei proteger… e mesmo assim já amo demais para fingir que não aconteceu.

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