Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cheiro salgado do mar se misturava ao odor metálico do barco velho que balançava no escuro. Anna mantinha as mãos apertadas no próprio estômago, como se isso pudesse impedir a dor surda causada pelos pacotes de droga escondidos dentro dela. O enjoo vinha em ondas, tão fortes quanto as que batiam contra o casco enferrujado.
A viagem havia começado pior do que prometido. Pedro garantira que tudo seria “rápido e seguro”, mas as mentiras dele pareciam se acumular tão rápido quanto o desespero que tomava o peito de Anna. Depois de cruzar o deserto em uma caminhonete lotada, sem poder beber água o suficiente para aliviar a sede que cortava a garganta, agora ela enfrentava o mar turbulento rumo ao México — a primeira parte da rota para os Estados Unidos. As pessoas ao redor tremiam de frio e medo. Alguns rezavam. Outros choravam baixinho. Anna tentava manter o foco no único motivo que a fazia suportar aquilo: Beatriz. Se tudo desse certo, ela chegaria aos Estados Unidos, entregaria a carga, receberia o dinheiro e poderia pagar a transferência da mãe para São Paulo. Mas a incerteza pesava. Pedro havia atrasado sua saída, mentido para os coiotes e alterado a rota. Cada minuto extra longe do Brasil era um minuto em que ela temia não chegar a tempo. O barco balançou mais forte e Anna se apoiou na lateral, respirando fundo. Foi nesse momento que ouviu uma voz baixa ao seu lado. — Primeira vez atravessando? — perguntou uma garota de cabelos escuros presos em um coque bagunçado. Anna assentiu, quase sem forças. A outra sorriu com compreensão — um sorriso cansado, mas genuíno. — Sou Talia — disse ela. — Se você vomitar, mira pro lado certo. Ou a gente vai se afogar juntos. Anna soltou um pequeno riso, o primeiro em dias. — Anna. Talia estendeu a mão para apertar a dela, mas o barco balançou e ambas se seguraram na borda. — De onde você é? — perguntou Talia, tentando manter a voz leve apesar da situação. — Brasil. E você? — México… mais ou menos. — Ela desviou o olhar por um segundo, como se escondesse algo. — Longa história. Havia algo naquele olhar — um misto de ferida antiga e determinação — que fez Anna sentir segurança. Não confiança, ainda. Mas segurança. Como se, por algum motivo inexplicável, elas estivessem destinadas a se cruzar. A viagem seguiu em silêncio por alguns minutos, interrompido apenas por tosses, choros e o motor do barco falhando de tempos em tempos. De repente, um estampido ecoou no ar. Outro. E outro. Os coiotes gritaram ordens enquanto corria um boato entre os passageiros: tiros. Em alto-mar. Talvez piratas. Talvez policiais corruptos. O pânico tomou conta. Alguém empurrou Anna, que caiu de joelhos, protegendo o estômago com os braços. Sentiu o gosto amargo da bile subindo. Talia a puxou pelo braço e a encostou na parede do barco. — Não entra em pânico — sussurrou Talia no ouvido dela. — Eles não querem a gente, querem a carga do dono do barco. Anna fechou os olhos. O suor escorria pelas têmporas. A carga do barco… e a carga dentro dela, pensou, engolindo seco. O conflito durou poucos minutos — minutos longos como horas — até que o silêncio voltou, interrompido apenas pelo choro desesperado de algumas pessoas. — Passou — disse Talia, como quem tenta acreditar no próprio consolo. A viagem ainda durou horas até chegarem a uma praia isolada no México. Os coiotes ordenaram que todos corressem, sem olhar para trás. O céu começava a clarear quando Anna e Talia colocaram os pés na areia quente. A próxima etapa seria atravessar a fronteira terrestre até os Estados Unidos. A jornada parecia interminável. E, no fundo, Anna sentia que alguma coisa estava errada. Um pressentimento frio lhe percorria a espinha. Mas ela afastou o pensamento — precisava se manter forte. Em nenhum momento imaginou que, no Brasil, sua mãe já não respirava mais.






