A semana que se seguiu à conversa com Marco passou com a lentidão arrastada de um veneno fraco. Para quem está acostumado a resolver problemas no calor do momento, ter que esperar dias para olhar na cara dos Marcone era um teste incômodo.
A rotina na sede continuou pesada. Passei a terça-feira inteira trancado com os contadores revisando as planilhas das transportadoras em Turim. Havia uma divergência nos relatórios de combustível que cheirava a roubo interno, algo pequeno, mas que não podia passar batido. Mandei chamar o encarregado do galpão no final da tarde. O sujeito tremia tanto ao entrar na minha sala que mal conseguia segurar a caneta para assinar a própria demissão e a entrega das chaves da casa onde morava. Não precisei erguer a voz uma única vez; a presença e a reputação já faziam o trabalho pesado por mim.
Na quarta-feira, a chuva deu uma trégua e fui pessoalmente acompanhar o descarregamento de um lote de peças industriais vindo do porto de Gênova. Passei seis horas de pé no galpão frio, sentindo a umidade entrar pelos sapatos italianos enquanto verificava se a segurança do perímetro estava cobrindo todos os pontos cegos. O cheiro de maresia e óleo diesel impregnou minhas roupas. Voltei para casa tarde, com as costas travadas pelo esforço físico e pela falta de descanso.
O grande problema daquela semana não eram as cargas ou os números. O problema eram as madrugadas.
Eu nunca fui um homem de sono fácil. Durmo quatro ou cinco horas por noite, no máximo, e acordo com qualquer barulho fora do normal na propriedade. Mas, conforme a sexta-feira do jantar se aproximava, o sono simplesmente desapareceu. Deitar na cama king-size da minha suíte e encarar o teto escuro tornou-se um suplício cotidiano.
Não era ansiedade infantil, nem medo. Era uma curiosidade incômoda, um tipo de ruído de fundo que não me deixava desligar o cérebro. Quem era a garota que o velho Lorenzo escondera durante anos em um convento na Suíça? Como era o rosto de alguém criada longe de todo o lixo que respiramos diariamente? Imaginar como seria dividir a mesma casa, a mesma rotina e até a mesma cama com uma total desconhecida tirava a minha concentração no meio das reuniões mais importantes.
Na quinta-feira à noite, a insônia bateu forte. Levantei por volta das três da manhã, vesti um calção de treino e fui para a academia no subsolo da mansão. Passei duas horas espancando o saco de pancadas até os nós dos meus dedos ficarem em carne viva sob as faixas de proteção. O suor pingava no chão de borracha, a respiração saía curta e pesada, mas a imagem da tal reunião não saía da minha cabeça. Eu precisava saber com o que estava lidando antes de assinar qualquer documento.
Quando a sexta-feira finalmente chegou, o dia amanheceu sob uma névoa densa que cobria as estradas ao redor do lago de Como. Passei a manhã toda no escritório despachando documentos urgentes com Marco e ajustando os detalhes do comboio de segurança.
— Os homens já checaram a rota — Marco avisou por volta das três da tarde, entrando com um xícara de café quente na mão. — Nenhuma movimentação estranha no perímetro da mansão dos Marcone. Lorenzo reforçou a guarda própria, mas garantiu que o jantar será estritamente familiar.
— Sem convidados extras, sem surpresas — respondi, assinando a última folha de autorização de pagamentos. — Apenas o patriarca, os advogados se for o caso, e a garota.
— Exatamente.
Fui para o meu quarto às seis da tarde para me preparar. Tomei um banho demorado, deixando a água quente aliviar a tensão acumulada nos ombros. No closet, escolhi um terno sob medida cinza-escuro, camisa branca bem engomada e dispensei a gravata. Deixei o primeiro botão da gola aberto. Coloquei o relógio de aço no pulso esquerdo e verifiquei a arma no coldre sob o paletó.
Ao me olhar no espelho antes de descer as escadas, vi as marcas sutis de noites mal dormidas sob os olhos. O cansaço estava ali, mas a atenção continuava afiada.
Entrei no banco traseiro do SUV blindado às sete da noite. Marco ocupou o banco do passageiro da frente, enquanto dois carros com nossos homens nos seguiam a uma distância segura. O trajeto até a propriedade dos Marcone durou cerca de quarenta minutos. As estradas sinuosas que margeavam o lago estavam escuras, cortadas apenas pelos faróis fortes dos nossos veículos.
Conforme os portões de ferro trabalhado da mansão Marcone se abriram para a nossa entrada, senti o estômago dar um leve nó. A expectativa acumulada durante dias finalmente chegaria ao fim. O carro desacelerou no cascalho do pátio principal, parando logo em frente à entrada imponente da casa.
Um dos meus seguranças abriu a porta do veículo. Ajeitei o paletó, pisei firme no chão úmido da noite e caminhei em direção aos degraus de mármore da entrada. Era hora de ver quem estaria do outro lado daquela mesa.