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Até Que o Sangue Nos Separe
Até Que o Sangue Nos Separe
Por: Karine Oliveira
## Capítulo 01: Sangue e Acordos

O som do granizo batendo contra os vidros blindados do meu escritório em Milão ritmava o silêncio pesado daquela sala. Meu nome é Dom Matteo Giordano e primeiro esqueça tudo que você sabe sobre a máfia a realidade é sempre mais complicada. O que Hollywood vende em telas de cinema não chega perto do peso real de carregar o sobrenome que carrego nas costas.

Este império foi o meu pai que construiu e eu só herdei. Tenho 26 anos tenho 1,96 sou alto musculoso e implacável todos dizem que eu sou pior que o meu pai mas é assim que a vida funciona é assim que eu fui criado para ser o melhor para botar medo e terror e só uma coisa no nosso mundo não tem preço a lealdade. Quem falha com a palavra dada não recebe uma segunda chance de pedir desculpas. A traição é o único erro que o solo da Lombardia não perdoa, enterrando corpos sob o concreto fresco das obras que financiam o nosso sustento.

Caminhei até o bar de nogueira maciça no canto da sala, sentindo o peso do paletó sob medida ajustar-se aos meus ombros largos. A silhueta refletida no vidro escuro da cristaleira mostrava o resultado de anos de treino militar e noites maldormidas coordenando carregamentos nas docas. O reflexo devolvia a imagem de um homem que não sorria há mais tempo do que conseguia lembrar. O maxilar travado e marcado por uma leve cicatriz perto da orelha direita, herança de uma emboscada na periferia de Nápoles quando eu tinha dezenove anos, denunciava que a diplomacia nunca foi o meu primeiro recurso.

Coloquei duas pedras de gelo no copo de cristal e cobri com o líquido acobreado do uísque mais caro que meu dinheiro podia comprar. A queimação na garganta serviu para dissipar o cansaço acumulado de uma semana inteira lidando com desvios de carga na fronteira suíça. O poder traz regalias, mas cobra o preço em vigília constante. Não dava para fechar os olhos por muito tempo quando se está no topo da cadeia alimentar.

Bati com o copo na mesa de mogno, fazendo os papéis de relatórios financeiros tremerem levemente. O cansaço era um luxo que eu não possuía. Meu pai, antes de deixar a liderança por conta de um derrame que o confinou a uma cadeira de rodas no interior da Sicília, me ensinou que a fraqueza de um líder é o convite para a rebelião dos subordinados. Por isso, cada passo meu precisava ser milimetricamente calculado, firme o suficiente para esmagar qualquer faísca de insubordinação antes mesmo que ela se transformasse em fogo.

A porta dupla de carvalho rangeu de leve quando meu homem de confiança, Marco, entrou com passos medidos. Ele trazia uma pasta de couro legítimo sob o braço, o rosto expressando a gravidade típica de quem trazia notícias que mudariam o rumo dos negócios nas próximas semanas. Marco trabalhava para a minha família desde a época em que eu mal alcançava a altura da mesa do escritório; era um dos poucos que sabiam quando manter a boca fechada e a arma destravada.

— Temos um posicionamento dos Marcone, Dom Matteo — disse ele, parando a dois metros da mesa, mantendo a postura ereta e o respeito exigido pela hierarquia. — O patriarca deles aceitou os termos iniciais da reunião, mas impôs uma condição que vai além das porcentagens das rotas de escoamento pelo porto de Gênova.

Balancei o uísque no copo, observando o turbilhão dourado bater nas paredes de cristal.

— Fale de uma vez, Marco. Não tenho a tarde toda para adivinhações.

— Eles querem selar o pacto de forma tradicional. A família Marcone quer uma aliança de casamento querem que eu me casei com a filha mais nova deles.

Um riso seco e sem humor escapou pelos meus lábios antes que eu pudesse conter. Um casamento. Em pleno século vinte e um, os velhos costumes da velha guarda ainda ditavam as regras de sobrevivência entre as grandes famílias da península. Para os de fora, parecia uma bizarrice medieval; para nós, era a garantia de que nenhum dos lados puxaria o gatilho enquanto houvesse o mesmo sangue correndo nas veias da geração seguinte.

Neste capítulo da minha vida, as cartas estavam sendo dadas sem que eu pudesse escolher o baralho. O fato é que a rotina da organização sempre exigiu um isolamento cirúrgico da nossa intimidade. Nós mantemos os negócios estritamente separados das relações domésticas. É exatamente por esse motivo que não conhecemos os filhos dos nossos sócios e eu entendo bem o porquê disso afinal nesse nosso mundo não é a gente que se machuca e sim a nossa família.

Proteger os herdeiros da exposição pública e dos olhares dos rivais não é preciosismo, é uma tática de sobrevivência básica. Se os inimigos descobrirem onde os filhos estudam, quais são seus rostos ou que locais frequentam, eles se tornam alvos instantâneos na primeira guerra por território que estourar nas ruas. Meu pai me manteve trancado em propriedades rurais fortificadas até que eu tivesse idade suficiente para segurar um fuzil e entender a gravidade de portar o sobrenome Giordano. Preservar a identidade das mulheres e dos mais novos é a única barreira que impede a barbárie total de invadir as nossas casas.

— A filha mais nova — repeti, a voz soando grave, ecoando pelas paredes revestidas de veludo escuro. — Eu mal sabia que os Marcone tinham mais de uma filha. O velho Lorenzo sempre foi muito cuidadoso em esconder a linhagem dele nos banquetes oficiais em Roma.

— Ela foi mantida em um convento na Suíça até completar a maioridade, Dom Matteo. Depois, passou um tempo em Londres estudando artes ou algo do tipo. Quase ninguém no circuito da alta sociedade de Milão conhece o rosto da garota. Lorenzo fez questão de blindar a menina de qualquer boato ou aproximação indesejada.

Caminhei até a grande janela que dava vista para o pátio interno fortificado da propriedade. Lá embaixo, três dos meus soldados inspecionavam os motores de dois SUVs pretos blindados. O mundo lá fora estava em constante ebulição, e a estabilidade da Sicília até as fronteiras do norte dependia diretamente da firmeza da minha mão. Se a aliança com os Marcone garantisse que o clã dos de Torino ficasse acuado e sem espaço para expandir o tráfico de armas falsificadas, o sacrifício de assinar um papel de matrimônio seria apenas mais um custo operacional da minha função.

— O que mais o relatório diz sobre ela? — perguntei, sem me virar para Marco.

— Quase nada de relevante para os negócios, senhor. Apenas que ela retornou para a mansão dos Marcone na semana passada e que o pai está apressando o acordo porque sabe que a saúde dele está cobrando a conta. Ele quer ver a jovem assegurada sob a proteção da nossa bandeira antes que os primos gananciosos tentem tomar o espólio da família.

Virei o resto do uísque de uma vez só, sentindo o calor se espalhar pelo peito. Casar-se com uma desconhecida, uma garota criada em redoma de vidro, longe da poeira e do cheiro de pólvora que alimentavam meus dias, parecia uma receita para o desastre cotidiano. Mas o dever não consultava meus gostos pessoais. A lealdade aos homens que sangravam por mim nas ruas exigia que eu colocasse os interesses da organização acima de qualquer vontade individual.

— Marque o jantar com Lorenzo Marcone para a próxima sexta-feira na propriedade deles em Como — ordenei, colocando o copo vazio sobre a mesa com firmeza. — Avise que aceito sentar à mesa para discutir os termos do contrato de casamento, mas que a palavra final sobre as datas e a segurança da cerimônia será estritamente minha. Se eles querem o peso do nome Giordano para proteger a pele deles, terão que dançar conforme a minha música.

— Entendido, Dom Matteo. Vou providenciar os batedores para limparem o trajeto até a villa dos Marcone antes da sua chegada. Não podemos correr riscos com a segurança em território limítrofe.

Marco assentiu com a cabeça, recolheu a pasta e retirou-se com a mesma discrição com que havia entrado, deixando-me sozinho novamente com os meus pensamentos e a imensidão cinzenta do inverno que começava a tomar conta das ruas de Milão.

Abri a gaveta central da escrivaninha e retirei um maço de cigarros artesanais, acendendo um com o isqueiro de ouro que pertencera ao meu avô. A fumaça densa subiu em direção ao teto decorado com afrescos antigos. Eu era o senhor daquela fortaleza de concreto e aço, o homem cujo nome fazia os joelhos dos negociantes mais duros tremerem nos mercados clandestinos da Europa. Nenhuma mulher mudaria a engrenagem do que eu fui moldado para ser. Se Lorenzo Marcone achava que estava me entregando uma moeda de troca, ele logo entenderia que eu não guardava peças decorativas na minha coleção.

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