A intensidade das minhas palavras pareceu flutuar no ar entre nós por longos segundos. Aurora continuava me encarando, mas agora havia um brilho sutil em seus olhos castanho-avelã, como se ela estivesse assimilando o peso exato da minha reação. A serenidade no rosto dela não se abalou, mas notei a respiração subir e descer um pouco mais rápida sob o decote justo do vestido de cetim rosa.
— Entendido, Dom Matteo — disse ela, a voz saindo quase em um sussurro, mas mantendo a mesma melodia suave de antes.
Aproximei-me só mais um pouco, o suficiente para que o calor da minha pele quase encostasse na dela, sem contudo quebrar a distância necessária que a sala cheia exigia.
— Você não tem noção do mundo em que está entrando, Aurora — continuei, mantendo o tom baixo e firme, com o olhar fixo no contraste entre as sardas do seu nariz e o tom vívido dos seus lábios. — Aqui fora as coisas não funcionam como no convento ou nas salas de aula de Londres. Quando você passar pelos portões da minha casa como minha esposa, a sua vida muda por completo.
— Eu fui criada sabendo exatamente qual seria o meu papel, Dom — respondeu ela com uma maturidade surpreendente para a idade. — Meu pai me preparou para o fato de que um dia eu me casaria por aliança. Não sou ingênua a ponto de achar que isso é um conto de fadas.
Um canto da minha boca se ergueu num esboço seco de sorriso. A clareza dela era algo raro naquele meio, onde a maioria das pessoas tentava fantasiar ou fingir que o nosso estilo de vida era algo normal.
Do outro lado do cômodo, o som da voz de Lorenzo chamou nossa atenção:
— Matteo, meu jovem! Estamos alinhando os detalhes da data da cerimônia antes que a imprensa comece a especular sobre a movimentação na cidade.
Ajustei a postura no sofá e me levantei devagar, sem tirar os olhos de Aurora por um segundo antes de me voltar para o velho patriarca. O tecido cinza do meu paletó se ajustou ao corpo enquanto eu dava dois passos em direção à lareira.
— A cerimônia será no próximo mês, Lorenzo — afirmei, a voz ecoando firme pela sala de estar, fazendo até mesmo Paolo e Giovanni se calarem. — Sem grandes festas públicas. Uma celebração privada na capela da minha propriedade, apenas com a família direta e os homens de confiança. Quanto menos holofotes em cima de Aurora, melhor para a segurança de todos.
Lorenzo assentiu lentamente com a cabeça, visivelmente aliviado com a determinação da minha resposta.
— Concordo inteiramente. Segurança em primeiro lugar.
Olhei de relance para Bianca, que encarava o chão com os braços cruzados e a cara fechada, nitidamente incomodada com a atenção total voltada para a prima. Voltei meu olhar para Aurora, que continuava sentada no sofá de veludo, com as mãos postadas no colo e uma expressão indecifrável.
— Estaremos prontos — declarei, caminhando até Lorenzo para selar a decisão com um aperto de mão final. — Marco cuidará de toda a logística e dos protocolos dos seus homens durante este mês de transição.
A reunião estava encerrada, mas eu sabia que, a partir daquela noite, nada na minha rotina continuaria o mesmo.