Mundo ficciónIniciar sesiónAndressa narrando
A semana se arrastou. Eu já tinha dado o salve geral, cobrado contato, apertado quem precisava apertar. O carro da Yasmim tava localizado — só faltava organizar a entrega. Mas não era só isso que tava me deixando inquieta. Não era só resolver o B.O. Era Nathalia. Passei o rádio pra Nanda e mandei avisar que eu tinha notícias. Pedi pra ela vir sozinha. Eu tava sentada na mesa do fundo do restaurante da Nanda, boné virado pra trás, braço apoiado na madeira riscada de tempo. O lugar tinha aquele cheiro bom de tempero fresco, alho refogado, pimenta no ponto. A luz do fim de tarde entrava pelas janelas e deixava tudo dourado. Quando a porta abriu, a conversa do salão diminuiu um pouco. Eu levantei os olhos. E aí ela entrou. Nathalia não andava — ela deslizava. Vestia um vestido branco justo, curto, marcando as curvas com uma segurança que não era vulgar, era consciente. Por cima, uma jaqueta branca oversized caía pelos ombros, deixando a pele à mostra de propósito. Não era descuido. Era escolha. As botas jeans, acima do joelho, davam um contraste ousado, quase provocativo. O salto marcava o ritmo no chão de madeira. O cabelo preto, longo e liso, descia impecável pelas costas. A maquiagem era precisa — olhos marcados, delineado firme, boca desenhada como se cada detalhe tivesse sido pensado. Ela segurava o celular na mão, mas quando me viu, guardou. E sustentou o olhar. Sem pressa. Sem abaixar. — Olha ela — eu falei, inclinando o corpo na cadeira. — Pontual. — Dressinha — ela respondeu, a voz calma, mas firme. — Disseram que você tinha notícias. O jeito que ela falou meu apelido não foi desrespeito. Foi intimidade forçada. Eu gostei. — Senta — eu indiquei a cadeira. — Prefiro ficar em pé por enquanto — ela rebateu. Claro que prefere, pensei. Nathalia se aproximou da mesa devagar. O perfume dela chegou antes do toque. Doce, mas com fundo amadeirado. Forte. Ela apoiou as mãos na madeira e se inclinou levemente. — Então fala. Encontraram ou não? Sem enrolação. Eu tirei o boné e joguei na mesa. — Calma, arquiteta. Eu resolvo as coisas no meu tempo. Ela ergueu uma sobrancelha. Desafiando. — Meu tempo é caro, Dressinha. Eu ri de lado. — E o meu não? O silêncio que ficou ali não era hostil. Era tensão. Daquelas que fazem o ar ficar mais pesado. Nathalia finalmente puxou a cadeira e sentou. Cruzou as pernas devagar, a bota deslizando uma na outra. Eu acompanhei o movimento sem disfarçar. Ela percebeu. E não desviou. Um garçom trouxe uma taça de morangos com leite condensado. Nanda sabia que era o doce favorito dela. — Ainda lembram do que eu gosto por aqui? — Nathalia comentou, pegando um morango. — Aqui ninguém esquece quem marca presença — respondi. Ela levou o morango aos lábios sem quebrar o contato visual comigo. Provocação silenciosa. Eu respirei fundo. — O carro da sua amiga tá guardado. Inteiro. Amanhã pode buscar. Por um segundo, toda a postura firme dela vacilou. Os olhos brilharam. Ela levantou rápido demais e veio até mim. Me abraçou. E não foi abraço formal. Foi apertado. O corpo dela colado no meu. Eu senti o calor da pele, o perfume, a respiração no meu pescoço. Meu coração deu uma batida errada. Ela se afastou rápido, percebendo. — Desculpa… eu me empolguei. Mas o sorriso dela… aquele sorriso era diferente de qualquer coisa que eu já tinha visto na quebrada. Eu me levantei. Fiquei perto demais. — Relaxa. Eu gosto quando você esquece o controle. Ela travou por meio segundo. E então recuperou a postura. — Cuidado com o que você gosta, Dressinha. Eu sorri. — Cuidado você. Pagamos a conta e eu insisti em levar ela. — Não precisa — ela disse. — Precisa sim. A quebrada está tranquila, mas sabe come é né, cuidado nunca é demais. No carro, o funk tocava baixo. As luzes da cidade passavam pelo rosto dela, alternando sombra e brilho. Ela parecia mais suave ali. Mais humana. — E esse lance do Breno? — perguntei, olhando rápido pra ela. — Tá grávida dele e ele já vai casar com outra? Ela soltou um riso leve, mas não tinha graça ali. — A vida é irônica. Fez uma pausa. — Eu achava que sabia exatamente o que queria. Plano, noivado, carreira. Aí tudo virou de cabeça pra baixo. — E agora? Ela olhou pra frente, depois pra mim. Mais demorado. — Agora eu tô tentando entender o que faz sentido. O jeito que ela disse isso não era sobre o Breno. Era sobre ela. Sobre nós. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era cheio de coisa não dita. Quando parei o carro na frente do prédio dela, Nathalia demorou a abrir a porta. Como eu imaginava, Nathalia morava em um daqueles condomínios arrumadinhos que cercavam o Capão. Portaria com segurança, jardim bem cuidado, luz branca demais pra quem vem de rua escura. Contraste puro. Eu parei o carro e fiquei observando enquanto ela tirava o cinto. A luz do hall iluminou o rosto dela quando desceu. O salto marcando o piso liso. Cansada… mas leve. — Obrigada, Dressinha. Eu inclinei a cabeça. — Pelo carro? Ela segurou a maçaneta. — Não. E saiu. Eu fiquei ali parada por alguns segundos. Com a sensação estranha de que, pela primeira vez, não era eu que estava no controle da situação. E isso… Era perigoso.






