Mundo ficciónIniciar sesiónNathalia Sapatin Narrando
Um mês já havia se passado desde que começamos o projeto no Capão. O trabalho fluía com surpreendente rapidez e eficiência. Os moradores eram receptivos, participativos — orgulhosos, até. Tudo estava indo de vento em popa. A tal Dressinha, que nos deixou uma primeira impressão forte no dia do táxi, não apareceu mais. Ela havia enviado uma representante legal que fez toda a negociação com a equipe. Mas o destino tem um senso de humor peculiar. E eu estava prestes a cruzar com ela novamente. Era fim de expediente. O sol já descia no horizonte, pintando o céu com tons alaranjados e rosados. A poeira suspensa no ar refletia a luz como ouro fino. Yasmin tinha ido me visitar para ver o andamento do projeto. Estávamos rindo, falando sobre prazos e moradores participativos, quando chegamos ao estacionamento improvisado. O carro dela não estava lá. O sorriso dela morreu primeiro. — Meu carro… Nathalia, meu carro! — ela disse, girando em círculos, como se o veículo fosse surgir do nada. Senti meu estômago contrair. — Calma, Yasmim. Vamos chamar a polícia, fazer um boletim — falei, já puxando o celular da bolsa. — Não façam isso! — uma voz feminina interrompeu. Uma garota saiu de uma casa próxima. Morena, cabelos cacheados presos em um coque despretensioso, short jeans e camiseta larga. O olhar dela era firme. — Como assim não podemos chamar a polícia? — Yasmin rebateu, incrédula. — Meu carro foi roubado! A garota cruzou os braços e olhou ao redor antes de responder: — Aqui no Capão as coisas são diferentes. Vocês não querem arranjar problema, querem? Eu conheço a Dressinha desde pequena. Posso falar com ela pra vocês. Ela resolve isso rápido. Meu coração deu um pequeno salto ao ouvir aquele nome. Dressinha. Olhei para Yasmin. — Não temos nada a perder. Ela hesitou… mas assentiu. A garota nos guiou por ruas estreitas. Casas de tijolos aparentes. Cheiro de churrasco no ar. Crianças correndo. Olhares curiosos acompanhando nossos passos. O céu escurecia lentamente. Chegamos a uma construção simples, porém mais estruturada. Uma placa desgastada dizia: Escritório Comunitário. — Esperem aqui — disse a garota, entrando sem bater. Eu e Yasmin trocamos um olhar tenso. Segundos depois, ela reapareceu na porta. — Andressa! Uma voz feminina ecoou lá dentro. — Ei! Já falei pra você não me chamar assim! Ela surgiu no corredor. Andressa. Ou melhor… Dressinha. E meu corpo reagiu antes da minha mente. Dressinha surgiu da porta do tal “Escritório Comunitário” com uma postura relaxada, mas o olhar atento de quem enxerga tudo ao redor. Ela usava um top preto justo que destacava os ombros e a postura firme. A calça jeans clara estava larga nas pernas, dobrada de qualquer jeito, quase caindo sobre um par de tênis coloridos já um pouco gastos — como se conforto sempre viesse antes de aparência. Os braços eram marcados por tatuagens que subiam do antebraço até o ombro, desenhos escuros que contrastavam com a pele levemente dourada pelo sol. O cabelo preto, longo e liso, caía solto pelas costas, meio desalinhado, como se ela tivesse prendido e soltado várias vezes ao longo do dia. Havia algo de despreocupado nela, mas não era descuido — era atitude. Os olhos eram intensos, levemente semicerrados, como se estivesse sempre avaliando o ambiente antes de decidir em quem confiar. Quando cruzaram com os meus, senti que ela não estava apenas olhando… estava medindo. Ela se apoiou no batente da porta com uma das mãos, a outra dobrada sobre o joelho, postura casual demais para quem estava no meio de uma situação tensa. Mas havia firmeza ali. Segurança. Dressinha não precisava levantar a voz para ser notada. A presença dela ocupava o espaço antes mesmo que qualquer palavra fosse dita. — Vai se adianta — ela disse, encostando no batente da porta. — Roubaram o carro dela — falou Nanda, apontando para Yasmin. Dressinha me olhou. Direto. — Então roubaram o carro da sua amiguinha — disse ela, a voz baixa, quase divertida. — É — respondi, firme. — E isso não é certo, Andressa — Nanda insistiu. Dressinha fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. — Nanda… — a voz dela ficou mais grave — já falei pra não me chamar assim. — Mas esse é seu nome. Ela abriu um sorriso torto. — E o que eu tenho a ver com isso? Yasmin segurava minha mão agora. — Dressinha, ela é trabalhadora — Nanda continuou. — Ralou pra conseguir esse carro. Silêncio. O bar ao lado tocava música alta. Risadas ecoavam. Mas ali, o ar estava pesado. — Eu tenho seguro — Yasmin falou, tentando recuperar a dignidade. — É só dar queixa na delegacia. Dressinha riu. — Delegacia? Que mané delegacia? Aqui na quebrada quem resolve as paradas sou eu. Ela deu um passo à frente. — Por isso eu falei pra não envolver polícia — Nanda murmurou. — Aqui polícia não é bem-vinda. Se é que me entendem — completou Dressinha. Eu ergui o queixo. — Então você vai nos ajudar? Ela arqueou a sobrancelha. — E você é quem? Sustentei o olhar. — Nathalia Sapatin. Ela repetiu devagar. — Nathalia… O jeito que meu nome saiu da boca dela fez algo vibrar dentro de mim. — Acho que te conheço — ela inclinou a cabeça. — Você que tava com aquele engomadinho no táxi, né? O que cê tá fazendo na quebrada? — Sou arquiteta. Projeto do shopping da Known. — Ahhh — ela sorriu de lado. — A dos engomadinhos. Ela olhou para Yasmin. — E você? — Ela tem nome — eu cortei. — Yasmim. Dressinha voltou os olhos para mim. — Fica brava não, Nathalia. Ela deu mais um passo. Agora estava perto demais. — Até que você é bonitinha — disse, me analisando sem pudor. — Esse jeito toda certinha… mas com esse olhar aí. Senti o calor subir pelo meu rosto. — Andressa, olha o respeito — Nanda repreendeu. Dressinha mandou um beijo no ar. — Relaxa. Eu sorri de canto. — Deixa ela falar, Nanda. É a única coisa que ela parece fazer bem. Ela soltou uma risada baixa. — Tá me tirando? — Se você não tem capacidade de recuperar o carro da minha amiga — respondi, firme — deixa que a gente resolve. Ela se aproximou ainda mais. Eu podia sentir o perfume dela. Forte. Marcante. — Nathalia — ela disse meu nome como se testasse o sabor. — Uma hora dessas esse carro já deve estar desmontado. Yasmin perdeu a paciência. — EU NÃO VOU ESQUECER NADA! — Baixa o tom — Dressinha falou, calma. Ela voltou os olhos para mim. — Vamos fazer assim… eu resolvo isso. Mas vocês vão ficar me devendo um favor. — Ninguém aqui vai te dever nada — Nanda rebateu. Ela ignorou. — E aí, Nathalia? O desafio estava no olhar. E algo em mim… gostou. — Tudo bem — respondi. Um sorriso lento surgiu nos lábios dela. Vitória. Mas também curiosidade. Ela se inclinou e, antes que eu pudesse reagir, roçou os lábios no meu rosto. Não foi exatamente um beijo. Foi um aviso. Ela se afastou e saiu andando pela rua iluminada pelos postes amarelados. E enquanto a noite finalmente tomava o céu do Capão… Eu soube. Aquilo não tinha sido apenas um acordo. Tinha sido o início de algo muito mais perigoso. 🔥






