Mundo ficciónIniciar sesiónAndressa narrando
— Eu vou tomar um banho — disse Yasmin, séria. — E quando eu terminar, nós vamos ter uma conversa. O tom dela não deixava espaço para ironia. Eu estava no sofá, tentando aproveitar um raro momento de silêncio, mas Yasmin estava parada no meio da sala, braços cruzados, expressão rígida. Eu tinha evitado ela ontem, mas hoje não vai ser possível. A luz da tarde que atravessava a janela marcava ainda mais o desenho do rosto dela — decidido, tenso. Ela não estava apenas preocupada. Estava afetada. — Você perdeu completamente a noção do perigo — começou, com uma calma controlada que me preocupava mais do que se ela estivesse gritando. — Se envolver com a Andressa já é complicado. Mas trazer isso para dentro da sua casa? Suspirei, ajeitando a almofada nas costas. — Não estou “me envolvendo”. Estavamos conversando. — Não é o que parece. Eu sustentei o olhar dela. — E o que parece? Yasmin caminhou lentamente pela sala antes de responder. — Parece que você está procurando algo que vai te machucar. Fiquei em silêncio por um instante. — Você está exagerando. Ela riu baixo, mas não havia humor ali. — Estou? Você sabe que está grávida né!? Que está vulnerável. Que está emocionalmente confusa. E você… — ela hesitou — você não faz nada pela metade. Aquilo me atingiu mais do que eu gostaria de admitir. — Eu não estou usando ninguém, Yasmin. — Eu sei. — Ela respirou fundo. — Esse é justamente o problema. Houve um silêncio desconfortável entre nós. Ela desviou o olhar. — Você sempre se j**a. Sempre sente demais. E depois é você quem paga o preço. A forma como disse aquilo não soava como julgamento. Soava como medo. Eu me levantei. — Você acha que eu não sei me cuidar? — Não quando envolve alguém que mexe com você. O nome não foi dito. Mas estava ali. Andressa. Decidi mudar o foco. — Para sua informação, ela foi extremamente gentil comigo. E involuntariamente, um sorriso escapou quando me lembrei da noite anterior. Yasmin percebeu. Claro que percebeu. — Gentileza não significa segurança, Nath. — Segurança nunca foi critério para nada na minha vida. Ela fechou os olhos por um segundo. — E é isso que me assusta. A conversa se dissolveu ali. Subi para o banho, e ela permaneceu parada na sala, com a sensação de que havia algo muito maior por trás daquela discussão. No quarto, depois, deixei a água quente escorrer sobre mim, tentando organizar os pensamentos. A lembrança do toque de Andressa, do olhar sustentado, da tensão silenciosa… tudo ainda estava muito presente. Quando desci, Yasmin estava na cozinha, organizando pratos, como se aquele gesto doméstico fosse uma forma de recuperar o controle. Comemos em silêncio. Depois fomos para o sofá assistir a um filme, numa tentativa quase infantil de normalidade. Mas o clima continuava diferente. No meio de uma cena qualquer, meu celular vibrou. O som cortou o ambiente. — É o seu? — perguntei. — Não — Yasmin respondeu, mostrando o aparelho apagado. Peguei meu celular na bolsa. Uma mensagem. Meu coração reconheceu antes mesmo de eu abrir. — É meu — falei, destravando a tela. — É da Dressinha. Yasmin virou o rosto imediatamente. — Você deu seu número para ela? — Dei. Não vejo problema. Abri a mensagem e li em voz alta: — “Bora no Paiol? Tá tendo xow. Queria te ver.” Yasmin ficou imóvel. — Você vai? Eu sorri, talvez um pouco demais. — Estou pensando seriamente. Ela se levantou devagar. — Nath, você está grávida. — Eu sei. Não estou doente. — Não é isso que eu quis dizer. — Então o que você quis dizer? Ela demorou alguns segundos para responder. — Que você está sensível. E que ela também está. E quando duas pessoas sensíveis se encontram… alguém se machuca. Eu me levantei também. — Talvez nem todo encontro precise ser uma tragédia anunciada. — E talvez você esteja indo porque quer sentir alguma coisa que não está sentindo em outro lugar. O nome de Breno não foi mencionado. Mas estava ali. Eu subi para me arrumar. Enquanto escolhia a roupa, percebi algo desconfortável: a simples ideia de reencontrar Andressa acelerava meu coração de um jeito juvenil, quase imprudente. Quando desci, Yasmin já estava pronta. — Eu vou com você. — Por quê? Está preocupada comigo… ou com o que pode acontecer? Ela sustentou meu olhar. — Estou preocupada com você. A resposta veio rápida demais. E sincera demais. No carro, enquanto seguíamos para o Paiol, observei Yasmin pelo reflexo do vidro. Ela estava quieta, olhando para fora, mas havia algo diferente ali. Não era apenas preocupação. Era medo de perder espaço. Medo de perder controle. Ou talvez… Medo de perder a mim. E pela primeira vez, me perguntei se o conflito dela não era apenas sobre Andressa. Talvez fosse sobre nós.






