Mundo ficciónIniciar sesiónEntão ela voltou, bateu no vidro e eu baixei.
— Quer subir? — ela perguntou, como se fosse algo simples. Eu hesitei. Mas não disse não. — Vem, entra — Nathalia falou, abrindo espaço na porta. Eu dei aquela analisada rápida no corredor chique demais pro meu padrão. — Ih, arquiteta… condomínio de novela, hein. — Para de graça e entra logo. Entrei. O apartamento dela tinha cheiro de limpeza e perfume suave. Tudo organizado. Sofá cinza, quadros modernos na parede, luz amarela criando um clima quase íntimo demais pra duas pessoas que ainda estavam fingindo que era só conversa. Ela fechou a porta e soltou o ar. — Droga de bota… — murmurou, tentando tirar o salto com dificuldade. Eu observei. Eu encostei na parede, cruzando os braços, olhando de cima a baixo. — Aí, com todo respeito mesmo… deixa eu dar uma força. Ela me olhou por cima do ombro. — Você sabe tirar isso? — Sei desenrolar coisa mais difícil que isso aí. Ela riu baixo e sentou no sofá. Eu me agachei na frente dela. O vestido branco justo agora parecia ainda mais curto com ela inclinada, o cabelo caindo pra frente. Eu me aproximei. Segurei a bota devagar, meus dedos roçando na perna dela sem querer — ou talvez querendo. Puxei com calma. A bota saiu. Depois a outra. Ela soltou um suspiro de alívio. — Até que você é útil, Dressinha. — Só até que? Ela sorriu. — É até bom ter alguém pra ajudar numa hora dessas. Eu levantei uma sobrancelha. — Cuidado com o que você confessa. — Ela riu. — — Alguém, né? Gostei. Melhor que “um homem”. Ela percebeu o que tinha dito antes. Ficou meio sem graça. Eu aproveitei a brecha. Ela sentou no sofá, e eu ainda estava ali, perto demais. — Chega aí. — O quê? — ela franziu a testa. — Chega aí, pô. Sem pensar muito, antes que ela entendesse, segurei o pé dela com cuidado. — Dressinha… — Relaxa — eu disse, começando uma massagem leve. Comecei a fazer uma massagem leve. Ela travou no primeiro toque. Depois relaxou. — Posso saber onde aprendeu a fazer massagem assim? — perguntou, a voz já mais baixa. Eu sorri de lado. A pele dela era macia. Sensível. Ela fechou os olhos por um segundo. E quando abriu… estavam diferentes. Mais vulneráveis. — Aí, sacumé… vi num filme. — Que filme? — Nem lembro o nome. Só sei que a mina era esposa de um chefão lá, toda poderosa… e a outra personagem faz massagem no pé dela. Ela me olhou diferente. — E depois? Eu sorri de lado. — Depois a coisa ficou interessante. — Interessante como? — ela inclinou o rosto. — Chuta. — Hum… jogaram alguém pela janela? Eu ri alto. — Cê tá me tirando, Nath? — Tô não. Você que tá fazendo suspense. Continuei a massagem, subindo o polegar devagar pelo arco do pé dela. Ela respirou fundo. — Mas responde — ela insistiu. — Não lembro direito não… mas sei que a tensão era tipo essa aqui. Eu olhei pra ela. Ela não desviou. Ficamos assim uns segundos. Ela puxou o pé devagar. — Tá de caô comigo. — Tô nada. Soltei o pé dela e fui até a cozinha. Peguei uma maçã da fruteira. — Aí, mano… vocês que estudam fora sabem nome de filme, data, tudo. Eu não lembro nem que dia é hoje. Mordi a maçã. O barulho crocante ecoou na sala. Ela ficou me observando. Mais leve agora. Sem aquele receio do começo. — E você já? — perguntou. — Já o quê? — Já jogou alguém pela janela? Eu ri, jogando a cabeça pra trás. — Cê é louca, cachorreira. Não jogo ninguém não. Mas também não tenho ninguém pra pagar de doidão comigo. Ela inclinou a cabeça. — Ninguém? — Ninguém. O silêncio ficou diferente. Menos brincadeira. Mais verdade. Ela se ajeitou no sofá. — Fala mais de você. — O que quer saber? — Você já saiu do Capão? Eu gargalhei. — Cê é louca, tia. Nunca nem vi um avião de perto . Ela riu. — Eu morei nos EUA anos. — Tô ligada. Arquitetona internacional. — Nem tanto. Fomos conversando. Ela contando das viagens, do noivado, dos planos. Eu falando das tretas da infância, das responsabilidades cedo demais. A distância foi diminuindo. Até que eu falei, mais sério: — Aí… e esse lance da gravidez? Ela ficou quieta. — Como você sabe dessas coisas? — perguntou, alerta. — Eu sei de tudo que acontece na minha quebra, Nathalia, respeita a minha história. Ela suspirou. — No começo eu odiei. Eu tinha tudo planejado… e de repente eu não tinha controle de nada. Eu me aproximei. — E agora? — Agora eu tô tentando aceitar. — Aceitar… ou sobreviver? Ela me olhou fundo. Ali não tinha personagem. Era ela. — Talvez os dois. Eu sorri de leve. — Na moral? Cê tá grávida, mas tá nos conformes. Ela corou. — Você é muito sem filtro. — Eu sou sincera. Ela cruzou os braços. — Engraçado… lembro de você dizendo que gostava de mina com mais carne. — E gosto. — Então? Eu dei um passo pra frente. Fiquei perto. — Mas gosto mais ainda de mina que sustenta olhar. Ela não desviou. A respiração dela ficou mais lenta. — E eu sustento? — Sustenta. Silêncio. Ela quebrou primeiro. — Vou ter que admitir… você faz uma ótima massagem. Eu sorri. — Posso melhorar. — Ah é? A voz dela ficou mais baixa. Mais real. Eu parei a massagem. — Posso. A tensão voltou. Mas agora não houve provocação. Era escolha. Levantei o olhar. — E agora? Ela me encarou. Demoradamente. — Agora vamos descobrir o que eu quero de verdade. O ar mudou. Eu me levantei devagar. Ela ainda sentada. Ficamos frente a frente. Perto demais. Meu coração estava acelerado, mas meu corpo estava firme. — E o que você quer, Nathalia? Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Ela engoliu seco. Os olhos desceram pra minha boca. Subiram de novo. A respiração dela mudou. Eu senti. Ela também sentiu. Eu levei a mão devagar até o rosto dela. Não toquei de imediato. Esperei. Ela não recuou. Meu dedo encostou na lateral do rosto dela. Deslizou até o queixo. Ela fechou os olhos. Eu inclinei o corpo. Devagar. O espaço entre nossas bocas diminuindo. O perfume dela misturado ao meu. A respiração quente batendo na minha pele. O mundo ficou silencioso. Só o som do nosso ar. Eu podia sentir. Ela queria. Eu queria. Mais um centímetro… E então— A campainha tocou. O som atravessou o momento como um estalo. Nathalia abriu os olhos rápido demais. Se afastou como se tivesse acordado de um sonho. Ela levantou. Passou a mão no cabelo, tentando reorganizar a própria respiração. — Pode entrar, tá aberta! — gritou, já caminhando até a porta. Eu fiquei parada no meio da sala. Com o gosto do quase ainda na boca. A porta abriu. — Aí amiga, te liguei a tarde toda porque não atendeu — Yasmin entrou falando… mas travou quando me viu. O olhar dela mudou na hora. Reconhecimento. Tensão. — Dressinha… — ela murmurou. Nathalia respondeu rápido demais: — Ela me trouxe em casa. Eu encostei no sofá, postura relaxada. — E aí. Mas Yasmin não relaxou. O clima que estava quente ficou pesado. Eu senti. Não era medo. Era outra coisa. História. Passado. Ou julgamento. — Eu já tô indo — falei, pegando minha jaqueta. Não porque eu queria. Mas porque aquele quase-beijo ainda estava pulsando entre mim e Nathalia. E agora tinha plateia. Ela me acompanhou até a porta. O corredor estava silencioso. Antes de sair, eu me inclinei um pouco. Perto do ouvido dela. — A gente ainda não terminou aquela conversa. Ela não respondeu. Mas a respiração dela entregou. Eu sorri. — Boa noite, Nathalia. — Boa noite, Dressinha. A porta fechou. E eu desci sabendo uma coisa: Aquilo não tinha sido um erro. Tinha sido aviso. E da próxima vez… Eu não ia parar.






