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Onde o perigo mora

MEL RODRIGUES

O trajeto até o apartamento de Koen foi um borrão de luzes da cidade e o som rítmico dos limpadores de para-brisa, embora não estivesse chovendo era apenas o silêncio entre nós que parecia pesado demais para suportar. Eu estava vestida com o moletom dele, que tinha um cheiro profundo de sabão em pó e algo amadeirado, um contraste bizarro com o cheiro de fumaça que ainda parecia impregnado nos meus poros.

— Está entregue

Disse ele, estacionando a caminhonete em frente a um prédio de fachada moderna na Barra da Tijuca.

Eu olhei para o edifício e depois para as minhas próprias mãos, que ainda tremiam levemente. A ficha estava caindo. Eu não tinha mais chaves, não tinha minha coleção de livros, não tinha nem mesmo o par de brincos que minha avó me deu. Eu era uma hóspede forçada no território de um homem que representava tudo o que eu tentava evitar.

— Koen, se isso for um problema para você... as suas namoradas, ou quem quer que frequente sua casa... eu posso dar um jeito

Eu disse, tentando manter a voz firme enquanto subíamos pelo elevador espelhado.

Ele soltou uma risada curta, mas não era carregada de deboche. Era quase... cansada.

— Mel, eu acabei de tirar você de um prédio em chamas. A última coisa que me preocupa agora é a opinião de "namoradas". Além disso, não tem ninguém fixo o suficiente para reclamar de você ocupar o quarto de hóspedes.

"Claro que não tem", pensei comigo mesma. O quarto de hóspedes provavelmente era o lugar mais subutilizado daquela casa, já que Koen nunca parecia querer que ninguém ficasse tempo suficiente para tomar o café da manhã.

Quando a porta do apartamento se abriu, fui recebida por um ambiente que gritava masculinidade moderna: sofás de couro escuro, uma TV enorme, uma cozinha americana com balcão de granito e uma vista de tirar o fôlego para o mar. Estava impecavelmente limpo, o que me surpreendeu.

— O quarto é ali à direita.

Ele indicou com a cabeça, carregando a única sacola com os itens básicos de higiene que compramos na farmácia do hospital.

— Tem um banheiro privativo. Vou pegar algumas toalhas limpas para você.

Eu o segui, sentindo-me pequena naquele espaço. O quarto era simples, mas confortável. Koen entrou e colocou as coisas sobre a cama, depois se virou para mim. O corredor era estreito, e por um momento, ficamos perto demais. Pude ver as pequenas manchas de fuligem que ele ainda não tinha conseguido lavar perto da orelha. A química que eu mencionei na sinopse não era apenas uma ideia; era uma presença física, um magnetismo que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.

— Você precisa descansar, Mel. Amanhã a gente resolve a burocracia do seguro, as roupas e o novo celular.

— Por que você está fazendo isso?

A pergunta saiu antes que eu pudesse contê-la.

— Quero dizer, você poderia ter me deixado em um hotel, ligado para algum outro amigo do Cadu...

Koen suspirou, encostando-se no batente da porta. Ele cruzou os braços, e os músculos do seu antebraço, marcados por uma pequena cicatriz de queimadura antiga, saltaram.

— Porque é você, Melissa. E porque eu estava lá. Se eu te deixasse em um abrigo ou em um hotel qualquer sabendo que você acabou de perder tudo, seu irmão me mataria, e eu não conseguiria dormir.

Havia algo no olhar dele que não era o de um "galinha" inveterado. Era o olhar do homem que, horas antes, colocou a vida em risco para me tirar de um inferno. Mas assim que esse pensamento passou, ele deu aquele sorriso de lado, o sorriso que partiu corações em todo o colégio.

— Além disso, vai ser divertido ter alguém para reclamar da minha bagunça por cinco meses. Boa noite, vizinha.

Ele saiu, fechando a porta suavemente. Eu me deixei cair na cama, o silêncio do apartamento de Koen sendo quebrado apenas pelo som distante das ondas.

A primeira semana foi um exercício de sobrevivência emocional. Descobri que morar com Koen Fiore era como viver dentro de uma montanha-russa. Pela manhã, ele era o profissional focado. Ele acordava às cinco, fazia uma rotina de exercícios intensa na sala que me deixava paralisada na porta da cozinha, hipnotizada pela disciplina dele, e saía para o batalhão.

À noite, ele voltava com o cheiro do trabalho ou da academia, e era aí que o perigo morava.

— Mel? Está acordada?

Ele bateu na minha porta na noite da quarta-feira.

Eu estava sentada na cama, usando uma das camisetas dele que ele me emprestara "até eu comprar as minhas". O tecido chegava ao meio das minhas coxas.

— Oi. Pode entrar.

Ele abriu a porta, segurando dois copos de vinho.

— Achei que você precisasse disso. O perito do seguro ligou para mim hoje. Ele disse que o seu apartamento foi o foco inicial, provavelmente um curto-circuito no ar-condicionado da vizinha de cima que derreteu a fiação comum.

Senti um nó na garganta.

— Então não sobrou nada mesmo, né?

Koen sentou-se na beira da cama, entregando-me o copo. Pela primeira vez, ele não parecia estar tentando ser o herói ou o conquistador.

— Quase nada. Mas eles acharam uma caixa de metal no que era o seu closet. Algumas fotos e documentos sobreviveram. Eu vou buscar amanhã no batalhão para você.

As lágrimas, que eu vinha segurando com todas as forças para não parecer uma "donzela em perigo" na frente dele, finalmente transbordaram.

— Obrigada, Koen. De verdade.

— Ei...

Ele se aproximou, e antes que eu pudesse recuar, ele passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para um abraço de lado.

— Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

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