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MEL RODRIGUES
O cheiro de queimado não foi a primeira coisa que me acordou. Foi o estalo. Um som seco, como o de galhos de árvore se partindo sob o peso da neve, mas não havia neve no Rio de Janeiro em pleno feriado de novembro. Abri os olhos, a visão turva pelo sono pesado de quem finalmente tinha decidido descansar. No segundo seguinte, o pânico substituiu o oxigênio nos meus pulmões. O teto do meu quarto, o lugar que eu levei três anos para decorar com cada detalhe que sempre sonhei, estava sendo devorado por uma fumaça cinza e espessa que serpenteava pelas frestas da porta. — Não, não, não... Murmurei, a voz saindo como um chiado. Tentei me levantar, mas a fumaça já estava baixando, tornando o ar insuportável. Minha garganta queimava. O calor era uma parede física, me empurrando de volta contra o colchão. Eu precisava sair dali. Instinto. Era tudo o que restava. Rolei para fora da cama, caindo de joelhos no chão frio, e comecei a tossir violentamente. Onde estava meu celular? Minha bolsa? Nada importava. O som das chamas agora era um rugido, uma fera faminta comendo as paredes do meu corredor. Arrastei-me em direção à janela, mas o apartamento era no quarto andar. Olhei para a porta de entrada. Eu teria que atravessar a sala. Cada respiração parecia que eu estava engolindo cacos de vidro em brasa. — Socorro! Tentei gritar, mas o som foi abafado por um estrondo vindo da cozinha. Algo havia explodido. Eu estava encurralada. Encolhi-me no canto mais distante da cama, cobrindo o rosto com o lençol, rezando para que alguém tivesse visto as chamas do lado de fora. O medo era um frio paralisante que contrastava com o calor infernal do quarto. Eu ia morrer ali. No dia em que finalmente decidi que minha vida estava começando a entrar nos eixos, tudo ia virar cinzas. E então, o som de metal se partindo. A porta do meu quarto não apenas abriu; ela pareceu voar das dobradiças. Através da névoa escura, uma silhueta imensa surgiu. Era como um titã emergindo do próprio inferno. O uniforme pesado, o capacete, o tanque de oxigênio. Ele se movia com uma calma que parecia impossível para alguém cercado por fogo. — Tem alguém aqui? A voz era abafada pela máscara, mas carregava uma autoridade que me fez esticar o braço instintivamente. — Aqui! Eu tossi, sentindo as lágrimas escorrerem, limpando sulcos no meu rosto sujo de fuligem. Em dois passos, ele estava ao meu lado. Senti mãos fortes, revestidas por luvas grossas, me segurarem com uma firmeza que me fez sentir, pela primeira vez em minutos, que meu coração não ia explodir de terror. — Calma. Eu te peguei. Não respira fundo, tenta manter o rosto baixo. Ele instruiu. Ele me levantou como se eu não pesasse nada, me aninhando contra o peito protegido pelo casaco de kevlar. O calor do fogo ao redor era aterrorizante, mas o calor que emanava dele parecia diferente. Era seguro. Ele me protegeu com seu próprio corpo enquanto atravessava o que restava da minha sala. Eu fechei os olhos, escondendo o rosto no pescoço dele, sentindo o cheiro de borracha queimada e... algo mais. Um perfume que eu conhecia. Um cheiro que estava enterrado nas minhas memórias de adolescente, entre jogos de futebol no quintal e risadas proibidas. Não podia ser. Só quando o ar fresco da noite atingiu meu rosto e o som das sirenes se tornou ensurdecedor é que ele me colocou no chão, ou melhor, em uma maca que os paramédicos empurraram rapidamente. — Ela inalou muita fumaça! Oxigênio, agora! Ele gritou, a voz ainda rouca, mas agora sem a máscara. Eu pisquei, tentando focar. Meus pulmões finalmente receberam o fluxo de oxigênio puro da máscara que colocaram em mim. O bombeiro estava de costas, retirando o capacete e o cilindro de oxigênio com movimentos cansados. O suor brilhava em seu pescoço, e os cabelos castanhos estavam grudados na testa. Quando ele se virou para falar com um colega, meu coração deu um solavanco que não teve nada a ver com o incêndio. Koen Fiore O melhor amigo do meu irmão. O homem que, dez anos atrás, era o protagonista de todos os meus diários e o motivo das minhas maiores frustrações. O cara que me via como a "irmãzinha chata do Cadu" enquanto desfilava com uma garota diferente a cada semana. Ele se aproximou da maca, limpando o rosto com o dorso da mão. Seus olhos, de um castanho intenso que sempre pareceu enxergar através de mim, pousaram no meu rosto. Houve um segundo de choque. A expressão profissional de Koen vacilou, e suas sobrancelhas se ergueram. — Mel? Ele perguntou, a voz descendo uma oitava. — Melissa? Eu tentei falar, mas a máscara de oxigênio embaçou e minha garganta protestou. Apenas assenti, sentindo uma mistura humilhante de gratidão e pavor. De todas as pessoas no mundo para me ver naquele estado de pijama de algodão velho, descabelada e cheirando a churrasco de apartamento,tinha que ser ele. — Meu Deus, Mel... Ele se ajoelhou ao lado da maca, ignorando os outros bombeiros. Sua mão, agora sem a luva, tocou meu ombro. — Você está bem? Consegue me ouvir? Assenti novamente, sentindo o toque quente dele queimar minha pele mais do que as chamas. — O apartamento... Eu consegui sussurrar por baixo da máscara, olhando para o prédio onde as chamas ainda lambiam as janelas do quarto andar. — Sinto muito, pequena. O fogo se espalhou rápido demais por causa do revestimento Ele disse, com uma sinceridade que doeu. — Mas você está viva. É isso que importa. Ele ficou ali até me colocarem dentro da ambulância. Eu queria que ele fosse junto, e ao mesmo tempo queria que ele desaparecesse da face da terra. Koen sempre teve esse efeito sobre mim: ele era o meu porto seguro e o meu maior desastre pessoal.






