MEL RODRIGUES O cheiro de queimado não foi a primeira coisa que me acordou. Foi o estalo. Um som seco, como o de galhos de árvore se partindo sob o peso da neve, mas não havia neve no Rio de Janeiro em pleno feriado de novembro.Abri os olhos, a visão turva pelo sono pesado de quem finalmente tinha decidido descansar. No segundo seguinte, o pânico substituiu o oxigênio nos meus pulmões. O teto do meu quarto, o lugar que eu levei três anos para decorar com cada detalhe que sempre sonhei, estava sendo devorado por uma fumaça cinza e espessa que serpenteava pelas frestas da porta. — Não, não, não... Murmurei, a voz saindo como um chiado.Tentei me levantar, mas a fumaça já estava baixando, tornando o ar insuportável. Minha garganta queimava. O calor era uma parede física, me empurrando de volta contra o colchão. Eu precisava sair dali. Instinto. Era tudo o que restava. Rolei para fora da cama, caindo de joelhos no chão frio, e comecei a tossir violentament
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