Mundo ficciónIniciar sesiónMEL RODRIGUES
Três horas depois, eu estava sentada em uma cadeira de plástico frio na sala de espera do hospital. Meus pulmões ainda doíam, mas os médicos disseram que eu tive sorte. Sorte. Era uma palavra engraçada para alguém que acabara de perder tudo o que possuía, exceto um pijama de ursinhos e um chinelo de dedo. Eu não tinha para onde ir. Meus pais estavam viajando em um cruzeiro comemorativo e seriam incontactáveis pelas próximas 48 horas. Meu irmão, Cadu, estava em uma missão de treinamento em outra cidade e o celular caía direto na caixa postal. — Mel? Levantei a cabeça. Koen estava lá. Ele tinha trocado o uniforme de combate por uma camiseta da corporação que marcava seus ombros de forma quase ofensiva. Ele segurava dois copos de café e uma sacola de papel. — Cadu não atende . Eu disse, minha voz soando como se eu tivesse engolido areia. — Eu sei. Falei com o batalhão dele. Ele só volta na segunda. Koen sentou-se ao meu lado, entregando-me o café. — Tome. E eu trouxe isso aqui... imaginei que você não quisesse sair daqui vestida de... bom, de ursinhos. Ele me entregou a sacola. Tinha um moletom cinza enorme e uma calça de ginástica. — Obrigada, Koen. De verdade. Eu não sei o que faria se... — Não precisa agradecer. É o meu trabalho Ele cortou, mas o olhar que ele me deu foi longo demais para ser apenas profissional. — E você é irmã do meu melhor amigo. Eu não ia te deixar na mão. O silêncio caiu entre nós. A química que eu tentava ignorar desde os quinze anos ainda estava lá, vibrando no ar, tão teimosa quanto as brasas que se recusavam a apagar. Eu sabia quem Koen era. Eu tinha visto as fotos dele nas redes sociais, sempre rodeado de mulheres, sempre em festas, sempre evitando qualquer coisa que durasse mais de uma noite. Ele era o oposto de tudo o que eu queria para a minha vida planejada. — Para onde você vai agora, Mel? Ele perguntou, quebrando o silêncio. — O hospital vai te dar alta em uma hora. Senti as lágrimas voltarem. — Eu não sei. Hotéis estão lotados por causa do feriadão. Meus pais não atendem... eu... eu acho que vou para algum abrigo ou... — Nem pense nisso Koen interrompeu, a voz firme. — Você vai para a minha casa. Meu coração errou a batida. — O quê? Não, Koen. Eu não posso... — Mel, ouça. Meu apartamento tem um quarto de hóspedes. O seguro do seu prédio disse que o laudo da reforma vai demorar pelo menos cinco meses para o seu andar ser liberado. Você não tem roupas, não tem documentos, não tem nada. Eu sou a única pessoa que pode te ajudar agora sem que você precise preencher vinte formulários de emergência. — Cinco meses? foquei no número, sentindo o mundo girar. — No mínimo. Olhei para ele. Para o homem que eu amei em segredo, que me ignorou como mulher por anos e que agora era o meu único salva-vidas. Cinco meses morando com Koen Fiore. Cinco meses convivendo com o estilo de vida de um solteiro convicto enquanto eu tentava reconstruir minha vida do zero. Era a receita perfeita para um desastre. Ou para um novo tipo de incêndio que, dessa vez, eu não teria como apagar. — Tudo bem Sussurrei, derrotada pelo cansaço. — Mas são cinco meses, Koen. Ele deu um meio sorriso, aquele que sempre fazia covinhas aparecerem e que desarmava qualquer defesa minha. — Cinco meses, Mel. O que poderia dar errado?






