lobos famintos

MEL RODRIGUES

O silêncio da madrugada era o meu pior inimigo. Eu estava deitada, encarando o teto escuro do quarto de hóspedes, tentando inutilmente fazer minha mente parar de repetir a cena do incêndio. Mas, às quatro da manhã, o som que me despertou do quase-sono foi muito mais real e doloroso do que qualquer lembrança traumática.

O som da porta da frente abrindo. Risadas abafadas. Passos pesados que eu reconheceria em qualquer lugar, acompanhados pelo estalar rítmico de saltos altos no corredor.

Prendi a respiração, meu coração martelando contra as costelas. Eu não precisava abrir a porta para saber o que estava acontecendo. O som de corpos se chocando contra a parede do corredor, logo do lado de fora do meu quarto, foi seguido por um gemido feminino que cortou o silêncio como uma faca.

— Koen... aqui não...

A voz desconhecida sussurrou, seguida por um riso rouco dele.

Ouvi a porta do quarto dele bater com força. E então, o som da cama rangendo. Gemidos mais altos. Uma intimidade que eu, por um momento tolo, ousei sonhar que poderia ser minha.

A tristeza me atingiu em cheio, mas não veio acompanhada de choque. Eu sabia quem Koen era. Eu sabia que ele era o rei do sexo sem compromisso, o homem que colecionava momentos e descartava nomes. Mas saber não diminuía a dor. As lágrimas começaram a escorrer, quentes e silenciosas, molhando o travesseiro de Koen que eu abraçava.

Senti uma sensação de sufocamento, como se a fumaça do incêndio tivesse voltado para terminar o serviço. Era humilhante estar ali, no quarto ao lado, ouvindo o homem que eu amava em segredo se entregar a uma estranha enquanto eu tentava juntar os cacos da minha vida.

KOEN FIORE

Acordei com a luz do sol invadindo o quarto e uma ressaca moral pior que a da cerveja. Bianca ainda dormia ao meu lado, mas a única coisa que eu queria era que ela desaparecesse. A noite tinha sido apenas... mecânica. Um esforço estúpido para tirar Melissa da minha cabeça.

Levantei em silêncio, tomei um banho rápido e saí do quarto. Deixei um bilhete em cima da mesa de cabeceira para a loira:

"Saí cedo e não volto logo. Pode encostar a porta ao sair. K."

Saí para correr no calçadão, precisando que o ar do mar limpasse aquela sensação de sujeira. Quando voltei, uma hora depois, Bianca já tinha ido embora. Suspirei aliviado, mas o sossego durou pouco. Assim que entrei no apartamento, ouvi vozes altas vindo da cozinha.

— Mas que porra...?

Murmurei.

Lá estavam eles: Lucas, Bruno e Thiago, sentados na minha bancada como se fossem donos da casa.

— Que susto, cara! Onde você estava?

Lucas perguntou, já abrindo meu armário em busca de canecas.

— Eu moro aqui, lembra?

Respondi, guardando as chaves.

— O que vocês estão fazendo aqui às nove da manhã de um domingo?

— Batemos na porta e a loira de ontem abriu para sair. Ela disse que você tinha dado um perdido nela.

Bruno riu, sentando-se no banco alto.

— Decidimos que você precisava de companhia para o café. Anda, Koen, coa esse café que a gente está com fome.

Revirei os olhos, mas comecei a preparar o filtro. Eu ainda estava de folga, então não tinha desculpa para expulsá-los. Enquanto a água fervia e o aroma de café começava a preencher a cozinha, o clima era de pura descontração. Eles falavam sobre o jogo da noite anterior e faziam piadas sujas, até que o som de uma porta se abrindo no corredor fez todos os quatro pares de olhos se virarem na mesma direção.

Mel apareceu na cozinha.

Meu coração deu um solavanco que quase me fez derrubar o bule. Ela não estava com o meu moletom enorme hoje. Ela usava um top preto curtinho e um short de ginástica de lycra que... bom, que não deixava absolutamente nada para a imaginação. O tecido modelava cada curva da sua bunda e as pernas torneadas pareciam infinitas.

O silêncio na cozinha foi instantâneo e ensurdecedor.

— Bom dia.

Ela disse, a voz ainda rouca de sono, parecendo não notar que tinha uma plateia de lobos a encarando.

— Bom dia, Melissa

Bruno foi o primeiro a falar, com um sorriso que eu tive vontade de apagar com um soco. Ele a mediu de cima a baixo sem o menor pudor.

— Caramba... o Cadu nunca me disse que a irmã dele tinha crescido tanto.

— Pois é

Lucas completou, inclinando o corpo para frente na bancada, os olhos fixos na cintura dela.

— Acho que eu também estou precisando que meu apartamento pegue fogo se o resgate for morar com o Koen.

Senti o sangue ferver. Uma onda de possessividade que eu não tinha o direito de sentir me atingiu como um soco no estômago. Dei um passo à frente, bloqueando parcialmente a visão dos meus amigos.

— Mel, você não devia.

Comecei, mas a voz saiu mais ríspida do que eu queria.

— O café está quase pronto.

MEL RODRIGUES

O clima na cozinha estava carregado. Eu sabia que estava usando roupas curtas, mas era o que eu tinha conseguido comprar de emergência, e estava calor demais para moletons. Mas o jeito que os amigos de Koen me olhavam me deixou desconfortável e o jeito que o próprio Koen me olhava era ainda pior. Ele parecia furioso.

— Oi, meninos .

Eu disse, ignorando o tom de Koen e tentando ser educada. Fui até a geladeira buscar água, sentindo os olhos de todos nas minhas costas.

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