Júlia acordou com o som da própria respiração. Não foi um despertar brusco, nem confuso. Foi como emergir lentamente de um lago calmo, sentindo o corpo inteiro presente. Daniel ainda dormia ao lado dela, o rosto tranquilo, como se o mundo tivesse finalmente parado de exigir dele também.
Ela ficou alguns minutos imóvel, observando o teto, deixando os pensamentos se organizarem sozinhos. Não havia lembranças novas invadindo sua mente. Não havia flashes. Havia algo melhor: continuidade.
Levantou-se devagar, vestiu um casaco leve e foi até a varanda. O dia estava claro, mas sem exageros. Um céu limpo, discreto, quase cúmplice. Júlia apoiou as mãos no parapeito e respirou fundo, sentindo o ar preencher os pulmões com uma facilidade que antes não existia.
Ela se reconheceu ali.
Não como a mulher do acidente.
Não como a mulher que esqueceu.
Mas como a mulher que escolheu ficar.
O celular vibrou no bolso do casaco. Uma mensagem da mãe:
“Passei a noite pensando em você. E só queria dizer: esto