Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara
Tudo aconteceu tão rápido que mal tive tempo de processar. Um instante eu estava perdida, cercada pelo caos da confusão, e no seguinte, um estranho de voz ríspida estava me guiando para fora.
Ele me pegou pelo braço sem nenhuma cerimônia, firme e direto, como se quisesse deixar claro que aquilo era uma obrigação, e não um ato de gentileza. Senti o quanto ele estava irritado — a tensão em seu toque, o tom abafado das palavras que ele murmurava entre dentes. Não entendi o que ele dizia, mas dava para perceber que ele estava tão contrariado quanto eu.
Quando finalmente saímos daquele lugar, ele soltou meu braço e praticamente cuspiu as palavras: "Nunca mais quero te ver." Fiquei sem reação, mas rapidamente a irritação tomou conta de mim. Ele não fazia ideia de quem eu era ou do que tinha acontecido para eu parar ali.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Perguntei em que rua estávamos para poder chamar meu motorista, e, mesmo contrariado, ele pegou meu telefone e resolveu a situação. Não sei o que teria feito sem ele naquele momento, mas seu tom, suas ações, tudo nele me dava a sensação de que eu era um incômodo.
Quando devolveu o celular, fez questão de enfatizar que estava me ajudando pela "segunda vez" e que esperava que fosse a última. Eu agradeci, apesar da grosseria, e até me apresentei, oferecendo meu cartão como forma de retribuição.
Ele hesitou, mas pegou. Seu nome, Miguel — ou Rage, como ele mencionou —, ainda ecoa na minha mente. Era como se ele quisesse deixar claro que nossas vidas não se cruzariam novamente.
Mas algo me diz que essa não será a última vez que nos veremos.
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Depois de alguns minutos, ouço o som de um carro se aproximando. Meu motorista finalmente chegou. Quando ele para perto de mim, desço os ombros, aliviada, mas ao mesmo tempo já imaginando as perguntas que viriam.
— Dona Clara, o que aconteceu? A senhorita está bem? — ele pergunta, claramente preocupado.
Entro no carro e suspiro, querendo apenas esquecer aquela noite.
— Estou bem, só quero ir para casa, Carlos. E, por favor, não diga nada ao meu pai. Não quero ninguém fazendo um escândalo por causa disso.
Ele hesitou por um instante, mas deu partida no carro. Durante todo o caminho, fiquei em silêncio, tentando processar tudo. O toque firme daquele estranho, a maneira como ele parecia tão irritado comigo, mesmo enquanto me ajudava... Era como se cada gesto dele carregasse uma mistura de desdém e obrigação.
Quando o carro desacelerou perto do portão de casa, ouvi Carlos comentar:
— Parece que sua prima está ali fora.
Reviro os olhos, já imaginando o que Isabela estaria aprontando agora. Baixo o vidro do carro e, com toda a ironia que consegui reunir, digo:
— Não tenho nenhum dinheiro para te dar de esmola, que tal dar o fora daqui?
Mas antes que eu pudesse terminar de fechar o vidro, ouço sua voz estridente e cheia de alegria:
— Clara! Você está viva! Eu sabia que você daria um jeito! — Isabela grita, rindo alto.
Suspiro, sem saber se fico irritada ou aliviada. Isabela, com sua energia exagerada, às vezes parece mais uma criança travessa do que a jovem adulta que deveria ser.
— Isabela, pelo amor de Deus... — começo, mas ela já está ao lado do carro, batendo na porta e me puxando para um abraço, completamente indiferente ao meu cansaço.
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Apesar da irritação borbulhando em mim, não posso simplesmente deixar Isabela do lado de fora da mansão. Não que a ideia de vê-la implorando para entrar não seja tentadora — seria uma vingança perfeita por tudo que ela aprontou essa noite.
— Entra logo, Isabela. Não vou te deixar aqui chamando atenção.
Abro a porta da frente e sigo em direção à sala, ouvindo o som de seus passos rápidos atrás de mim. Assim que escuto o barulho da porta se fechando, ela começa a falar sem parar, como sempre.
— Como você conseguiu sair de lá, hein? Me conta tudo! — Isabela pergunta, puxando-me para sentar ao seu lado no sofá, a voz cheia de curiosidade. — Foi tipo ... Sei lá, algum milagre? Ou você teve ajuda? Porque, vamos ser sinceras, você não podia ter olhado ao redor e encontrado a saída sozinha, né?
Eu respiro fundo, tentando manter a calma.
— Isabela, é sério isso?
— Ué, é claro que é sério! — Ela responde com uma risada, ignorando completamente o tom da minha voz. — Clara, eu estava surtando lá fora pensando que você podia ter sido presa! Ou pior, que eu teria que contar para o tio Hugo.
Eu não posso evitar um sorriso irônico, embora esteja cansada de tudo isso.
— Então, por que você não veio me ajudar em vez de ficar surtando?
Ela não responde a minha pergunta, e sim continua com suas perguntas, claramente mais interessada na parte mais "emocionante" da história.
— Ok, ok, mas me conta logo. Como foi? Alguém te ajudou? Foi um segurança? Ou tipo... um anjo? — Ela faz uma pausa dramática e então solta: — Ou foi um cara bonitão?
Eu respiro fundo mais uma vez, tentando não me irritar.
— Não foi nada disso. Um estranho me ajudou a sair, só isso. E, antes que você pergunte, não, não sei quem ele era, nem estou interessada em descobrir.
Ela solta uma risadinha nervosa, provavelmente tentando entender o que realmente aconteceu.
— Hm... Estranho como? Porque, pela sua cara, parece que ele era bem mais do que "só isso".
— Isabela, pelo amor de Deus! — Exclamo, quase sem paciência. — Você quer saber o quê? Que ele estava furioso? Que ele praticamente me arrastou para fora daquele lugar enquanto resmungava como se eu fosse o maior incômodo da vida dele? Pronto, agora você sabe.
Ela fica em silêncio por um momento, provavelmente tentando imaginar a cena.
— Tá, mas... Ele era bonito?
— Isabela!
Ela ri e, mesmo sem ver, eu sei que está com aquela expressão de sempre — a mesma expressão travessa que, sinceramente, às vezes me irrita.







