Capítulo 5

Miguel

O som ensurdecedor dos gritos e aplausos ecoa na arena improvisada, uma mistura de vozes eufóricas que reverberam no peito. Estou de pé no centro do octógono, com os punhos erguidos, respirando pesado enquanto o árbitro levanta meu braço, declarando minha vitória.

— Rage! Rage! Rage! — A multidão entoa meu apelido como um mantra, e por um momento, esqueço de tudo. Esqueço das contas atrasadas, dos golpes recebidos fora do octógono, da luta que é viver.

Caminho até a borda do octógono e desço, recebendo tapinhas nas costas de desconhecidos e sorrisos orgulhosos de alguns rostos familiares. Rafael aparece no meio do tumulto, me puxando para longe da multidão.

— Foi uma boa luta, mas você devia ter finalizado antes — ele fala, mas a expressão no rosto dele não esconde o orgulho.

— Relaxa, deu tudo certo no final — respondo, pegando a garrafa de água que ele me oferece.

O gosto do suor e do sangue ainda está em minha boca, mas não me importo. É o gosto da vitória, e é disso que eu preciso.

— Não vou mentir, Rage, a galera adorou. Você fez valer a aposta deles — Rafael continua apontando para alguns caras no fundo, claramente bêbados e celebrando o dinheiro fácil que ganharam por minha causa.

O clima é de festa. Música alta, cheiro de cigarro e bebida no ar. As pessoas dançam, gritam, algumas discutem animadamente sobre os detalhes da luta. Mas eu não participo dessa comemoração. Meu foco já está no próximo desafio.

O som abafado da música e das conversas começa a perder espaço para algo mais agudo. Um assobio. Não daqueles despreocupados, mas o tipo específico que todos conhecem aqui.

“Droga!”

Meu olhar vai direto para Rafael, que já está em movimento, tentando alcançar os organizadores. O alerta é claro: a polícia está chegando.

— Miguel, pega suas coisas e sai daqui. Agora! — Ele grita por cima da confusão que começa a se formar.

A comemoração vira caos em segundos. Pessoas correm em todas as direções, alguns buscando saídas secretas, outros tentando esconder evidências.

— Sempre a mesma coisa... — murmuro para mim mesmo, sentindo a raiva subir.

Eu odeio a polícia, mas não por medo. Odeio como eles invadem, atrapalham, sem saber ou se importar com o que essas lutas significam para muitos de nós. Eles enxergam isso como crime, mas para alguns é sobrevivência. Para outros, o único caminho para algo melhor.

O som das botas batendo contra o concreto lá fora já é audível. Eles estão mais próximos do que imaginei.

Corro para o vestiário, onde deixei minha mochila, e a confusão só aumenta. Gente empurrando, gritando, tentando abrir portas que levam a becos escuros ou túneis improvisados. Passo direto por alguns lutadores mais jovens que parecem congelados no lugar.

— Movam-se! Ou vão querer passar a noite na delegacia? — Rosno, empurrando um deles para sair do caminho.

Quando finalmente alcanço o vestiário, a porta está entreaberta. Pego minha mochila no chão e coloco o capuz, pronto para sair sem chamar atenção. Rafael aparece novamente, o olhar tão irritado quanto o meu.

— Vai sair por onde? — Ele pergunta, respirando pesado.

— Pela entrada lateral. Menos gente, menos risco. — Respondo, ajustando as alças da mochila e sigo pelo corredor. O som da confusão ecoa ao longe, mas meus passos são rápidos e firmes. Quando enfio a mão no bolso, percebo que algo está errado.

— Cadê...? — murmuro, revirando o outro bolso. Nada.

Paro de andar, o coração acelerando por um motivo totalmente diferente agora.

— Droga! Cadê essas chaves? — Resmungo, passando a mão pela lateral da mochila e vasculhando mais uma vez. Nada.

Rafael, que já estava um pouco à frente, vira-se irritado.

— O que foi agora, Miguel?

— Minhas chaves! Não estão comigo. — Respondo, os dentes cerrados.

— Esquece isso, cara. Amanhã você pega a moto. Vai pra casa e pronto. — Ele faz um gesto impaciente, claramente incomodado com o atraso.

— Esquece? Minha moto é o único meio de transporte que tenho, Rafael! E nem terminei de pagar ainda. Você acha que vou deixar ela aqui pra polícia levar? — Respondo, a voz baixa mas carregada de raiva.

— Tá bom, tá bom! — Ele ergue as mãos em rendição. — Mas vai com calma. Não dá mole pra polícia. Eu vou embora na frente.

Sem esperar resposta, Rafael segue seu caminho, resmungando algo sobre teimosia e problemas.

Eu reviro os olhos, mas não vou perder tempo discutindo. Vou voltar ao vestiário, mas do meu jeito. Preciso pegar aquelas chaves, e rápido.

Encolhendo-me pelas sombras, faço o caminho de volta. Cada passo parece mais longo do que deveria, o som dos passos ecoando ao longe me deixa alerta.

Empurro a porta do vestiário, esperando encontrar apenas o silêncio e minhas chaves perdidas, mas me deparo com uma figura parada no meio do espaço.

Uma garota.

Meu primeiro pensamento é de pura irritação. O que uma mulher estaria fazendo aqui? Só pode ser mais uma dessas garotas que aparece buscando algo com os lutadores. Sério, não basta a confusão lá fora?

— O que você está fazendo aqui? — Minha voz sai dura, enquanto dou passos firmes em direção a ela.

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