Capítulo 4

Miguel

Saio do trabalho ainda com o gosto amargo do dia na boca, correndo pelas ruas como se minha vida dependesse disso. E talvez dependa. Não dá tempo de pensar muito; o relógio me avisa que estou atrasado, e Rafael vai me matar se não chegar a tempo.

O local da luta é como sempre: escondido, sombrio, pulsando com a energia de quem veio buscar sangue e espetáculo. As vozes abafadas do público chegam até mim assim que entro, e o cheiro do lugar não deixa dúvidas de onde estou.

Empurro a porta do vestiário com pressa e me jogo em um canto, começando a me preparar. As ataduras estão na minha mochila, e as mãos já sabem o que fazer. O som do meu respirar pesado preenche o espaço enquanto envolvo os punhos, camada por camada, como um ritual que me acalma e prepara para o que está por vir.

Antes que termine, ouço passos se aproximando com força. É Rafael, claro. Ele entra no vestiário como um furacão, a frustração estampada no rosto.

— Você tá de brincadeira com a minha cara, né? — Ele dispara, sem dar nem um segundo de trégua.

Levanto o olhar, mas continuo enrolando as ataduras. — Cheguei, não cheguei?

— "Cheguei"? Miguel, você acha que isso aqui é o quê? Um passeio? Você está atrasado e esse cara que você vai enfrentar não é qualquer um.

Dou de ombros. — Eu sei o que estou fazendo.

— Você acha que tem o direito de chegar atrasado para uma luta dessas?

— Foi só uns minutos — respondo, ajustando as ataduras nas mãos.

— Uns minutos? Você sabe que tempo é tudo nesse jogo, não sabe? — Ele avança um passo, apontando o dedo. — Eu ralei pra conseguir esse combate pra você. Se quiser jogar tudo no lixo, avisa antes!

Suspiro, tentando conter a irritação. Rafael é meu amigo, mas quando se trata de luta, ele não dá trégua.

— Eu tô aqui, não tô? Relaxa.

— Relaxar é o que você não pode fazer. — Ele respira fundo, passando a mão pelo cabelo. — A arena está lotada, e o cara que você vai enfrentar não é nenhum iniciante. Melhor você entrar focado, porque eles querem te ver cair.

Sinto a raiva crescer dentro de mim, como sempre acontece antes de um combate. Rafael pode ser duro, mas está certo. Essa não é só mais uma luta; é uma batalha para provar, mais uma vez, que sou mais do que esperam de mim.

Fecho os olhos por um instante, tentando acalmar a tempestade dentro de mim. O cheiro do vestiário — suor, couro e metal — invade minhas narinas, me lembrando de onde estou e o que preciso fazer. Não há espaço para erros. Aqui, fraqueza não é uma opção. Ignoro suas reclamações e tento me concentrar na minha luta.

É sempre assim antes de uma luta: meu corpo entra em alerta. Cada músculo se prepara, como se soubesse o que está por vir. Para muita gente, isso é só entretenimento. Para mim, é sobrevivência. Não importa se a luta é num grande evento ou em uma arena clandestina, a regra é sempre a mesma: derrubar o oponente antes que ele me derrube.

Cada golpe, cada queda, cada vitória é um passo para longe do que deixei para trás. Não se trata só de ganhar dinheiro, é sobre provar, a mim mesmo e ao mundo, que eu sou mais do que esperavam que eu fosse. Que eu posso vencer, mesmo com tudo e todos contra mim. Um passo a mais para me tornar alguém que não depende de ninguém, que não precisa se ajoelhar por esmolas.

“Rage” não é só um apelido. É a força que carrego comigo toda vez que entro no octógono. É o peso de tudo que já vivi, de cada golpe que levei, de cada escolha que me trouxe até aqui. De quem subestima meu esforço, de quem pensa que lutas clandestinas são brincadeira, de quem acha que sabe alguma coisa sobre mim.

***************

O som das arquibancadas improvisadas vai crescendo à medida que caminho em direção ao octógono. As luzes são fracas, mas o suficiente para iluminar os rostos ansiosos ao redor. Não importa onde ou contra quem, a atmosfera antes de uma luta sempre é a mesma: tensão e expectativa.

Estou quase chegando ao meu destino quando sinto um impacto no meu ombro. Alguém esbarra em mim, e a irritação é instantânea.

— Olha por onde anda! — Grito, tentando ignorar a interrupção e seguir meu caminho.

Mas, surpreendentemente, a resposta vem rápida e direta.

— Olha por onde anda você! — A voz dela é firme, desafiadora.

Isso me faz parar. Não sei se é a ousadia dela ou a maneira como ela se posiciona, mas algo na sua postura me prende por um segundo. Ela não recua, não se intimida. Ao contrário, se mantém firme, sem mostrar sinal de medo ou dúvida.

Eu a encaro por um momento. Algo dentro de mim hesita. O que ela tem de diferente? Não sei. Mas não posso me perder em pensamentos agora.

— Hmph. — Resmungo, e sigo em frente, sem mais palavras. O tempo está contra mim. Tenho uma luta para vencer.

Ao chegar ao octógono, a atmosfera ao meu redor muda. O mundo lá fora começa a desaparecer, e tudo o que importa é o combate à minha frente.

A luta começa e, como sempre, o sangue ferve nas minhas veias. O octógono vira o único lugar que importa, e o resto do mundo desaparece. Meu oponente vem para cima, tentando medir meu alcance, mas sou mais rápido. Ele tenta um soco, mas eu desvio com facilidade, deixando-o exposto.

Com um movimento ágil, entro em sua guarda e o empurro para a grade. O barulho do impacto reverbera pela arena, mas eu não me distraio. Ele tenta me derrubar, mas sou sólido como uma rocha. Com um giro rápido, coloco minhas mãos ao redor de seu pescoço e o pressiono contra a grade, forçando-o a respirar com dificuldade.

Ele se debate, tentando se soltar, mas já senti o controle. Um golpe no estômago, outro no rosto, e seu corpo começa a fraquejar. Ele tenta um golpe baixo, mas eu me esquivo e respondo com um soco direto no rosto. Ele cambaleia para trás, e aproveito a brecha para dar uma joelhada no abdômen, deixando-o sem ar.

Antes que ele possa reagir, me movo para trás e, com um chute certeiro, acerto sua cabeça. Ele cai de costas no chão, sem forças para se levantar. A multidão explode em gritos, mas eu sei que a vitória é minha. O árbitro se aproxima, verificando sua condição, mas já sei: a luta acabou. Levanto minha mão no ar, sinalizando a vitória, e os gritos da multidão se tornam ensurdecedores. Eu venci mais uma vez. Mas no fundo, sei que isso é apenas o começo. Cada luta é mais um passo para sair do lugar de onde vim.

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