Além do Que Se Vê
Além do Que Se Vê
Por: Hortencia Duarte
Capítulo 1

Clara

Eu não sei aonde a Isabela quer chegar com essa história de me levar para um lugar radical, como ela diz. Até agora, estou tentando explicar a ela que isso não é uma boa ideia, principalmente considerando que eu sou cega e papai não vai deixar eu sair por aí sem meus seguranças.

— Essa saia vai ficar linda em você — diz, vasculhando meu closet como se fosse dela.

— Eu já disse que não vou sair com você e seus amigos idiotas.

— Para de ser chata e neurótica. Só porque você é cega não quer dizer que precisa viver trancada nesse castelo — diz, como se a mansão onde moro fosse uma prisão para mim.

— Isso não é verdade. Eu sou uma mulher adulta, tenho meu trabalho e saio sempre que quero — justifiquei, tentando me manter firme.

— Sim, sai sempre cercada com mil seguranças ao seu redor, até para o trabalho. Que vida sem graça. Deus me livre viver assim. Só porque você é cega não quer dizer que não pode se divertir.

— Mas eu me divirto.

— Ir até o seu terapeuta e médicos regularmente não conta como diversão, querida priminha.

— Pelo menos eu cuido da minha vida, não sou igual umas intrometidas que vivem falando mal da minha.

— Isso foi uma indireta para mim?

— Não, foi direta mesmo. Se a carapuça serviu.

— Vou ignorar seu comentário nada amistoso só porque estou muito feliz que conseguimos os ingressos para ver a luta...

— Ver o quê? — Pergunto, tentando ter certeza do que eu ouvi.

— Nada não, eu quis dizer os ingressos para ir ao cinema.

— Se a sua felicidade toda é só para ver um filme, você não está batendo bem da cabeça hoje.

— Clara, eu lhe garanto que você vai amar nossa saída.

— Eu já disse que não vou — falo, determinada.

— Ah, você vai sim. O tio Hugo já deixou. Não vamos perder a nossa oportunidade.

— É o que veremos.

***************

Eu sinto o chão tremendo sob meus pés. O ar está pesado, cheio de vozes altas e gritos abafados. O cheiro de suor e madeira velha me envolve. Tudo aqui é estranho e confuso.

— Que cheiro estranho é esse, Isabela? — Pergunto, tentando andar ao seu lado utilizando meu bastão de mobilidade. — Parece cigarro... não, é maconha. Tenho certeza que é maconha.

— E por acaso você já fumou maconha para saber com exatidão que esse cheiro é de maconha? Quem te viu, quem te vê, hein, priminha?

— Ah, cala a boca, Isabela. A gente não ia no cinema. Que lugar é esse? — Pergunto, nervosa.

— Um cinema em que nós podemos ver ao vivo e a cores. Ah, é verdade, aqui não temos o fone auto descritivo como no cinema, mas tenho certeza de que você vai entender o belo show que teremos — O babaca do Mathias me responde.

— Ah, fica quieto, Mat, e vai buscar umas bebidinhas para a gente relaxar aqui — Isabela manda.

— Eu não vou beber nada que venha das suas mãos, já vou logo te avisando — Falo, puta da vida, sem saber o lugar em que minha prima me meteu.

Sinto um empurrão no meu ombro e esbarro em Isabela. Esse povo é tudo mal-educado nesse lugar. Será que não estão vendo que tem uma deficiente visual aqui?

— Acho melhor eu ir embora — falo para Isabela — Essas pessoas não têm educação, estão me empurrando o tempo todo. Não consigo me locomover assim.

Ela bufa do meu lado e agarra meu braço, pegando meu bastão da minha mão.

— Vamos fazer assim: vou deixar você ficar grudada no meu braço só hoje, porque aqui tem muitas pessoas, e esse seu bastão não vai resolver nada. Logo esse lugar vai estar lotado de gente, e será impossível nos locomover. Então, não solta meu braço.

— Tá legal. Então deixa eu guardar meu bastão na bolsa. E, a propósito, que lugar é esse afinal? — Pergunto, arrumando minha bolsa no ombro.

— Estamos em um lugar sensacional, amiga. Esse é um lugar em que você nunca pensou em colocar os pés.

— Para de suspense e fala logo.

— Vou deixar que você descubra por si mesma — Ela fala, e escuto alguém dizendo "boa noite" pelo microfone.

O som da multidão cresce, misturando gritos e aplausos que vibram no ar. Eu posso sentir a tensão no ambiente, como se o espaço estivesse pulsando com a expectativa. A voz do narrador ecoa pelo local, rouca e cheia de energia, mas é o volume que me diz a intensidade do momento.

— Senhoras e senhores! — A voz dele rasga o silêncio, e eu posso sentir a vibração das palavras no chão sob meus pés. — Preparem-se para o maior espetáculo da noite! O que acontece nesse octógono vai desafiar seus limites, seus sentidos!

O som da multidão aumenta, um mar de vozes e aplausos, cada grito uma onda que se choca contra o outro.

— Você só pode estar de brincadeira? — Falo o mais alto que posso para Isabela me escutar —Você me trouxe aqui para assistir a uma luta, é isso mesmo?

— Não é o máximo? Melhor ainda, estamos aqui para assistir uma luta clandestina no meio do subúrbio. Você está sentindo a vibração desse lugar?

— Estou, estou sentindo que vou é desmaiar nesse lugar. Vamos sair daqui agora — mando, irritada.

— Sem chances, já estamos aqui. Não vamos perder o show principal, fica quieta aí no seu canto e aproveita — ela segura firme no meu braço e eu não consigo nem me mexer no lugar, sentindo outras pessoas ao redor.

Que loucura! Onde é que fui me meter? Se o meu pai descobrir onde vim parar, nunca mais poderei sair de casa novamente.

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