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Além do Contrato
Além do Contrato
Por: Jessica Rodrigues
Capítulo 1: O Preço do Orgulho e da Inocência

​O almoço de domingo na mansão dos Alencar tinha gosto de areia para Nicholas. Sentado à mesa de mármore na varanda gourmet, ele encarava o avô, Augusto Alencar, que bebia seu vinho calmamente. Nicholas tinha dedicado os últimos cinco anos da sua vida àquela rede de hotéis de luxo. Ele não tinha finais de semana, não tinha férias. Ele vivia para os negócios.

​— Você está deixando os investidores nervosos, Nicholas — Augusto começou, deixando a taça de lado. A voz do velho era mansa, mas carregada de veneno.

— O mercado de hotelaria de luxo não quer ver apenas relatórios financeiros perfeitos. Nós vendemos experiências, sofisticação, tradição. E a imagem pública do meu CEO é a de um homem frio, um solteirão que só sai em colunas de fofoca por passar a noite trancado no escritório.

​Nicholas soltou os talheres, o som do metal batendo no prato quebrando o silêncio da varanda.

​— Os investidores estão recebendo doze por cento a mais de lucro neste trimestre, avô. Se eles estão nervosos com a minha vida pessoal, o problema é deles, não meu. Meu foco está em expandir a marca.

​— Mas o controle da holding é meu — Augusto rebateu, inclinando-se para frente, os olhos fixos no neto.

— E o estatuto da família exige solidez social para a posse definitiva das ações majoritárias. Seu primo, o Gustavo, já entendeu o jogo. Ele acabou de se casar, a esposa dele é de uma família tradicional, eles aparecem em jantares beneficentes. O conselho está adorando a postura dele. Ele passa a imagem de um herdeiro estável, enquanto você parece um robô de terno.

​Nicholas sentiu a mandíbula travar. A menção ao primo incompetente fez seu sangue ferver.

​— O Gustavo não sabe a diferença entre um relatório de auditoria e um panfleto de turismo — Nicholas disse, a voz pausada e fria.

— Você vai entregar o controle dos hotéis para um idiota só porque ele assinou um papel de casamento?

​— Vou — Augusto foi direto, sem hesitar.

— Estou velho, Nicholas, e quero deixar o império seguro. Estou te dando um ultimato. A reunião extraordinária do conselho é em trinta dias. Se até lá você não aparecer casado e com uma imagem pública renovada, eu assino a transferência das ações para o Gustavo. Você tem um mês para arrumar uma esposa. Ou faz isso, ou está fora da minha empresa.

​Augusto se levantou e saiu, deixando Nicholas sozinho com o peito subindo e descendo de raiva. Perder a empresa estava fora de cogitação. Ele daria um jeito, nem que precisasse comprar o casamento de alguém.

.

.

​Do outro lado da cidade, o desespero tinha nome e sobrenome na cozinha de Maya.

​Seu pai estava sentado na cadeira com as mãos cobrindo o rosto, os ombros sacudindo em um choro sufocado. Na mesa de fórmica, o envelope do banco estava aberto ao lado de uma folha com letras vermelhas e carimbos judiciais.

​— Pai, pelo amor de Deus, fala comigo — Maya pediu, ajoelhada ao lado dele, segurando suas mãos trêmulas.

— O que é essa carta? Que dívida é essa?

​O pai finalmente ergueu o rosto, os olhos vermelhos de vergonha e cansaço.

​— Eu não queria falar, filha... Achei que ia resolver, tive tanta vergonha... — ele desabafou, a voz falhando.

— Três meses atrás, o Roberto me procurou com um negócio de importação de peças eletrônicas. Ele disse que o contêiner já estava no porto, que o retorno era garantido e rápido. Prometeu que o dinheiro ia triplicar em sessenta dias. Eu me empolguei, Maya. Achei que finalmente ia dar uma vida boa para vocês.

​— E de onde veio o dinheiro, pai? — Maya perguntou, sentindo um frio bizarro no estômago.

​— O banco fez um empréstimo alto, dividido em três parcelas gigantescas, e eu dei a nossa casa como garantia. O Roberto sumiu com tudo na semana seguinte. Eu fiquei sem o dinheiro e com as parcelas. A primeira eu paguei com todas as economias da nossa vida. A segunda venceu no mês passado... Eu não tinha de onde tirar, fiquei desesperado e peguei dinheiro com um agiota do bairro para o banco não tomar a casa.

​A mãe de Maya soltou um grito abafado, levando a mão à boca. O pai continuou, chorando ainda mais:

​— Agora a terceira parcela do banco venceu, o agiota está me ameaçando todo dia cobrando os juros do mês passado, e o banco mandou a execução. Eles deram trinta dias para quitar tudo ou a casa vai a leilão. Nós vamos ser despejados, Maya. Eu joguei a nossa família no lixo.

​Maya sentiu o chão sumir. A cabeça dela girou. Ela passava os dias limpando quartos no Hotel Alencar e as noites estudando, sacrificando o sono, a saúde e a juventude para tentar construir um futuro. E agora, o teto deles estava prestes a sumir. O pai tinha escondido o problema até a situação virar uma bola de neve impagável.

​— Calma, pai. Não chora — Maya engoliu o próprio pavor, forçando uma firmeza que não sentia.

— O senhor errou em esconder isso da gente, mas a culpa é daquele canalha do Roberto. Nós não vamos perder a nossa casa.

​— Como, filha? É muito dinheiro! — a mãe desesperou-se.

​— Amanhã eu vou trancar a faculdade. O dinheiro da mensalidade já vai direto para ajudar nas contas e na comida. Eu tenho meu salário do hotel e vou procurar agora mesmo um trabalho extra para os finais de semana, qualquer bico na noite que pague por diária. Nós temos trinta dias para segurar esse banco e esse agiota. Eu vou trabalhar dia e noite, mas ninguém vai tirar a gente daqui.

​Maya abraçou os pais, sentindo o peso esmagador do mundo em suas costas. Ela não tinha a menor ideia de como conseguiria aquela fortuna

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