Mundo de ficçãoIniciar sessãoO corredor dos fundos da boate estava mergulhado em uma luz avermelhada e fraca. O som da batida eletrônica da pista de dança chegava ali como um eco abafado, mas o barulho mais alto que Maya ouvia era o do seu próprio coração batendo contra as costelas.
Ela se encostou na parede de concreto, as mãos tremendo tanto que ela quase derrubou o celular antes de conseguir deslizar o dedo pela tela para atender a ligação. — Alô? — ela sussurrou, a voz sufocada pelo pânico. — Por que está me ligando de novo? O prazo não era até a próxima sexta-feira? — Só liguei para garantir que você não vai esquecer, garota — a voz grossa do capanga do agiota veio carregada de uma ironia que fez o estômago de Maya revirar. — Estou passando agora mesmo na rua da sua casa. O movimento está calmo por aqui. Seria uma pena se algo acontecesse com aquela fachada bonita ou com os seus pais enquanto você está fora se divertindo na noite. Uma lágrima quente de puro desespero escorreu pelo rosto de Maya, borrando a maquiagem preta nos seus olhos. Ela cobriu a boca com a mão, tentando conter o soluço que ameaçava escapar. — Por favor, eu imploro... não chega perto deles — ela suplicou, as pernas fraquejando sob o salto alto. — Eu estou trabalhando agora. Vou passar o final de semana inteiro trabalhando. Eu vou conseguir o dinheiro dos juros, eu juro por tudo o que é mais sagrado! Só afasta os seus homens da minha casa... — Sexta-feira, Maya. Cinco da tarde. Se o dinheiro não estiver na nossa mão, a conversa vai ser pessoalmente com o seu pai. A ligação caiu. Maya abaixou o braço lentamente, sentindo o ar sumir dos seus pulmões. Ela fechou os olhos com força, deixando as lágrimas correrem livremente pelo rosto. Ela se sentia completamente encurralada, sem saída, esmagada por uma dívida que não era sua. — Você costuma chorar em todos os seus empregos, ou é uma exclusividade minha? A voz grave, firme e absurdamente calma fez Maya dar um sobressalto. Ela abriu os olhos rapidamente e limpou o rosto com as costas das mãos em um gesto instintivo de defesa. Nicholas Alencar estava parado a poucos metros de distância, bloqueando a única saída daquele corredor estreito. Ele estava com os braços cruzados sobre o peito, a camisa escura com os botões abertos destacando sua postura imponente. Ele não parecia surpreso. Ele a encarava com os mesmos olhos afiados e calculistas de quando estava na sala da presidência do hotel. Maya deu um passo para trás, colando as costas contra a parede fria. — S-Senhor Alencar... — ela gaguejou, o coração disparando ainda mais. — Eu... me desculpe. Eu só saí por um minuto para atender uma emergência. Eu já estou voltando para a mesa, não vai se repetir... Nicholas não se moveu. Ele deu dois passos lentos à frente, diminuindo a distância entre eles. O espaço era tão curto que o perfume importado e amadeirado dele invadiu o espaço de Maya, nublando seus pensamentos. Ele era muito mais alto que ela, e sua presença ali parecia preencher todo o corredor. — Eu ouvi a sua ligação no banheiro da minha suíte ontem de manhã, Maya — Nicholas disse, a voz baixa e pausada, pronunciando o nome dela pela primeira vez. — E acabei de ouvir o restante agora. Seu pai caiu em um golpe, colocou a casa de vocês como garantia e você está trabalhando até o esgotamento para pagar um agiota antes de sexta-feira. Estou errado? Maya sentiu o rosto queimar de vergonha. Ser flagrada daquele jeito pelo homem mais poderoso da empresa onde trabalhava era o seu pior pesadelo. Ela ergueu o queixo, tentando manter o pingo de dignidade que ainda lhe restava, mesmo com o rosto manchado de rímel. — Minha vida pessoal não é da sua conta, senhor — ela respondeu, a voz trêmula, mas firme. — Eu cumpro minhas obrigações no hotel e estou cumprindo minhas obrigações aqui. Se o senhor vai me demitir por usar o celular, faça isso de uma vez. Eu preciso voltar ao trabalho. Nicholas soltou um sopro de riso anasalado, mas seus olhos não amoleceram. Ele deu mais um passo, encurralando-a sutilmente contra a parede. Ele se inclinou de leve na direção dela, o olhar descendo fixamente para os lábios dela por um segundo antes de voltar a focar nos seus olhos castanhos. A tensão sexual no corredor ficou tão densa que Maya esqueceu até como se respirava. — Eu não vou te demitir, Maya — Nicholas sussurrou, a voz grave perto demais do ouvido dela. — Na verdade, eu vou resolver o seu problema. Maya franziu a testa, confusa e desconfiada. — O que quer dizer com isso? — Eu posso fazer essa dívida sumir amanhã de manhã. Posso pagar o banco, tirar o nome do seu pai da lista desse agiota e garantir que ninguém chegue perto da sua casa ou da sua família — Nicholas explicou, mantendo os olhos fixos nela, observando a reação de choque no rosto da garota. — Ninguém faz um milagre desses de graça — Maya rebateu, sentindo o peito subir e descer rapidamente pela proximidade física dele. — O que o senhor quer de mim? Nicholas esticou o braço, apoiando a mão na parede logo acima do ombro de Maya, prendendo-a ainda mais no seu espaço. Ele a encarou com uma seriedade implacável. — Quero o seu nome na minha certidão de casamento. Meu avô me deu trinta dias para arrumar uma esposa e provar ao conselho que sou um homem de família, ou eu perco o controle da minha empresa para o meu primo. Eu preciso de uma esposa que saiba se comportar, que seja inteligente e que precise tanto desse acordo quanto eu. Maya ficou sem ar. Suas mãos agarraram o tecido do próprio vestido de tanto choque. — O senhor está me propondo... um casamento por contrato? — ela perguntou, a voz falhando. — Um ano — Nicholas estipulou, o tom de voz direto e profissional, apesar da proximidade íntima dos seus corpos. — Você se muda para a minha cobertura, finge ser a noiva apaixonada diante da imprensa, do meu avô e do conselho. Em troca, eu limpo a vida do seu pai. Sem envolvimento emocional, sem romance. Apenas negócios. Ele se afastou de leve, quebrando o contato visual direto, e colocou a mão no bolso da calça. Nicholas puxou um cartão preto com o seu número pessoal gravado em letras douradas e o deslizou lentamente pelo braço nu de Maya, descendo até a palma da mão dela. Ele fechou os dedos trêmulos dela ao redor do cartão. — Você tem até segunda-feira de manhã para ir à minha sala na presidência do hotel. Se aceitar, o contrato estará pronto e o dinheiro entra na conta do banco do seu pai no mesmo minuto. Se não aceitar, boa sorte com a sua sexta-feira. Nicholas deu um passo para trás, ajeitou o paletó e virou as costas, caminhando de volta para a área VIP sem olhar para trás. Maya ficou sozinha no corredor escuro, olhando para o cartão preto na sua mão, com o coração parecendo uma escola de samba dentro do peito. O prazo para a ruína da sua família ainda era de uma semana, mas o prazo para mudar totalmente de vida terminava em menos de quarenta e oito horas.






