Mundo ficciónIniciar sesiónA sexta-feira chegou arrastando os pés de Maya. Depois daquela ligação aterrorizante que tinha recebido no banheiro da suíte presidencial no dia anterior, ela mal conseguiu respirar direito. O prazo dado pelo cobrador estava correndo: ela tinha exatamente uma semana, até a próxima sexta-feira às cinco da tarde, para conseguir uma quantia que parecia impossível.
Quando o relógio do vestiário dos funcionários do hotel marcou o fim do seu expediente, Maya sentiu os músculos das costas clamarem por descanso. Era sua folga do final de semana na Rede Alencar, mas ela não teria tempo para respirar. Em vez de pegar o metrô de volta para a sua casa e deitar em sua cama, ela entrou no banheiro do vestiário, lavou o rosto com água gelada para espantar o sono e tirou da mochila a sacola com as roupas que tinha separado na noite anterior. Duas horas depois, Maya encarava o próprio reflexo no espelho do vestiário da Neon, uma das boates mais exclusivas de Nova York. Ela mal conseguia reconhecer a garota de cabelos presos e uniforme sem graça que passava os dias esfregando o chão. Ali, sob as luzes fracas do camarim, ela usava um vestido justo preto que ia até o meio das coxas, os cabelos soltos em ondas bem cuidadas e uma maquiagem marcante que destacava seus olhos. Maya era uma mulher linda, mas a rotina pesada raramente a deixava lembrar disso. Naquela noite, a beleza era apenas mais uma ferramenta de trabalho. As diárias da área VIP da boate eram altíssimas, e ela precisava arrumar aquele dinheiro antes que o prazo do agiota estourasse. — Maya, mesa quatro do camarote presidencial precisa de mais duas garrafas de champanhe — a gerente da noite passou pela porta, batendo as palmas das mãos para apressar a equipe. — Anda logo, são empresários da alta sociedade. Sorriso no rosto e agilidade. — Estou indo — Maya respondeu, ajeitando a barra do vestido. Ela pegou a bandeja de metal pesada no balcão do bar, organizando as garrafas caras de rótulo dourado e as taças de cristal. Com passos firmes, tentando se equilibrar nos saltos altos que não estava acostumada a usar, ela subiu a escada de vidro que dava acesso à área mais reservada do segundo andar, onde o som ensurdecedor da pista de dança virava um eco mais abafado. Ao se aproximar do camarote quatro, dois seguranças de terno abriram a cortina de veludo escuro. Maya entrou de cabeça baixa, focada em não derrubar nada da bandeja. O ambiente cheirava a perfume importado caro, charutos e bebidas de alto padrão. Três homens de meia-idade e ternos sob medida conversavam alto, rindo enquanto bebiam. No entanto, foi o homem sentado no centro do sofá de couro que fez o corpo de Maya travar por inteiro. Nicholas Alencar estava ali. Ele segurava um copo de uísque com duas pedras de gelo, girando o líquido lentamente. Ele não usava gravata, e os primeiros botões da camisa escura estavam abertos, dando a ele um ar perigosamente atraente, mas a sua expressão continuava a mesma de sempre: fria, distante e entediada. Ele nitidamente não queria estar naquele lugar, participando daquela reunião informal de negócios. Maya sentiu o estômago dar um nó. Ela congelou por um segundo, mas o medo de perder o emprego extra a fez engolir o pavor. Ela deu um passo à frente e começou a servir a mesa com as mãos trêmulas, rezando para que a maquiagem pesada e a iluminação baixa do camarote impedissem o seu chefe de reconhecê-la. Nicholas ergueu os olhos da sua bebida apenas por cortesia ao ver a garçonete se aproximar. Mas, no momento em que os olhos dele se fixaram no rosto de Maya, ele parou o movimento do copo. Seus olhos afiados semicerraram imediatamente. Ele a reconheceu no mesmo instante. Aquela não era apenas a garçonete da boate; era a camareira do seu hotel, a mesma garota que ele tinha flagrado chorando desesperada no banheiro no dia anterior. Nicholas não demonstrou nenhuma reação pública, mas seu olhar mudou completamente. Ele passou a observar cada movimento dela. Notou como os outros empresários na mesa pararam a conversa por um instante para secá-la com os olhos, babando pela postura e pela beleza dela. Um incômodo possessivo e completamente repentino atingiu o peito de Nicholas, fazendo-o apertar o copo de uísque com mais força. Ele odiou o fato de estar se importando com aquilo, mas não conseguia desviar os olhos dela. Maya terminou de servir as taças o mais rápido que pôde, sentindo a pele arrepiar sob o olhar intenso de Nicholas, que parecia queimar sua direção. Quando ela estava prestes a pegar a bandeja vazia para sair dali, o celular no bolso do seu vestido começou a vibrar violentamente. Ao olhar discretamente para a tela, ela viu o aviso de número restrito. Seu rosto perdeu a cor instantaneamente. Era o cobrador de novo. — Com licença — Maya sussurrou para os clientes da mesa, a voz quase sumindo. Ela se virou rapidamente e saiu do camarote, caminhando apressada pelo corredor privativo e mal iluminado que dava acesso às saídas de emergência e aos escritórios dos fundos da boate, onde o barulho era menor. Nicholas, vendo a reação de pânico no rosto dela, deixou o copo na mesa sem pensar duas vezes. — Já volto. Preciso fazer uma ligação — ele mentiu para os sócios, levantando-se com a sua imponência habitual e saindo do camarote logo atrás dela, mantendo os passos silenciosos e o olhar fixo na silhueta que sumia pelo corredor escuro.






