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Capítulo 5: O Peso da Escolha

​O fim de semana passou como um borrão doloroso. Maya trabalhou no sábado e no domingo na boate até o dia amanhecer, com os pés latejando dentro dos saltos e o sorriso forçado congelado no rosto. Cada centavo que recebia em gorjetas ia direto para uma gaveta no seu quarto, mas, ao somar tudo na noite de domingo, a realidade bateu cruel: aquela quantia não cobria sequer uma fração dos juros que o agiota exigia para a próxima sexta-feira.

​Na segunda-feira de manhã, o sol mal tinha nascido quando ela cruzou as portas dos fundos do Hotel Alencar. O cartão preto com letras douradas parecia queimar dentro do bolso do seu uniforme de camareira. Ela passou duas horas empurrando o carrinho pelos andares mais baixos, mas sua mente estava presa no vigésimo andar. Na cobertura. Na proposta absurda que Nicholas Alencar havia feito naquele corredor escuro.

​Por volta das dez da manhã, Maya largou o pano de limpeza dentro do balde. Suas mãos tremiam. Ela olhou para o corredor vazio do décimo andar, respirou fundo e caminhou em direção aos elevadores privativos da diretoria. Sabia que estava arriscando o pouco que tinha, mas a imagem do pai destruído e a ameaça do capanga rondando sua casa não a deixavam outra escolha. Era o seu orgulho ou a sua família.

​O elevador se abriu direto na recepção do andar da presidência. O ambiente era silencioso, revestido de mármore branco e vidro. A secretária de Nicholas, uma mulher impecável com um coque perfeito, ergueu os olhos e franziu a testa ao ver uma camareira de uniforme simples pisar ali.

​— Pois não? — a secretária perguntou, o tom de voz formal e nitidamente confuso.

— O serviço de limpeza desse andar só é feito após o meio-dia.

​— Eu não vim limpar — Maya engoliu em seco, dando um passo à frente. Ela tirou o cartão preto do bolso e o colocou sobre a bancada.

— O senhor Alencar me deu este cartão. Ele disse que eu tinha até hoje de manhã para vir aqui.

​A expressão da secretária mudou instantaneamente de desdém para choque. Ela olhou para o cartão, depois para Maya, e rapidamente pegou o telefone do ramal interno.

​— Senhor Alencar? Uma funcionária... Maya está aqui na recepção. Ela está com o seu cartão pessoal. — Houve uma pausa de dois segundos. A secretária assentiu, ainda surpresa.

— Sim, senhor. Entendido.

​Ela desligou o telefone e apontou para as imensas portas duplas de madeira escura ao fundo.

​— Pode entrar. Ele está te esperando.

​Maya caminhou com as pernas bambas. Ela empurrou uma das portas e entrou na sala da presidência. O espaço era enorme, com janelas que mostravam toda a linha do horizonte de Nova York. Nicholas estava de pé, perto do vidro, segurando uma xícara de café. Ele vestia um terno cinza-escuro perfeitamente alinhado, a gravata impecável. Ao ouvir a porta, ele se virou lentamente. Sua expressão era a mesma máscara fria e calculista de sempre.

​— Você se atrasou dez minutos, Maya — Nicholas comentou, caminhando até a sua mesa e deixando a xícara de lado. Ele não parecia zangado, apenas constatando um fato.

​— Eu estava terminando o meu setor no décimo andar, senhor — Maya respondeu, parando a alguns passos da mesa dele, mantendo os mãos unidas à frente do corpo para disfarçar o tremor. — Eu não posso simplesmente largar minhas obrigações.

​Nicholas sentou-se na sua cadeira de couro e indicou a cadeira estofada à frente da mesa com um leve aceno de cabeça.

​— Sente-se.

​Maya obedeceu, sentando-se na ponta da cadeira, a postura tensa. Nicholas abriu uma gaveta e tirou uma pasta de couro preta, deslizando-a pela mesa até parar diante dela. Ao abrir, Maya viu várias páginas impressas com letras miúdas. No topo, o título em negrito dizia: CONTRATO DE PARCERIA CIVIL E COABITAÇÃO.

​— Isto é o que eu te prometi — Nicholas começou, cruzando os dedos sobre a mesa.

— Um ano de casamento. O documento foi redigido pelos meus advogados particulares, então o sigilo é absoluto. Ninguém além de nós dois e do meu advogado sabe da natureza real desse papel. Para o mundo, para a imprensa e para o meu avô, nós nos conhecemos há alguns meses e decidimos nos casar de forma repentina.

​Maya olhou para as folhas, engolindo em seco.

​— E os meus pais? — ela perguntou, a voz saindo um pouco fraca.

— O que acontece com eles?

​— No momento em que você assinar a última página, o meu departamento financeiro vai fazer uma transferência direta para o banco que detém a dívida da sua casa. A execução será cancelada e o processo, arquivado. Quanto ao agiota... — Nicholas fez uma pausa, o olhar ficando ainda mais frio.

— Um dos meus chefes de segurança pessoal já foi até o bairro do seu pai hoje cedo. O valor total da dívida, incluindo os juros abusivos, foi entregue em mãos. O homem assinou um termo de quitação e recebeu um aviso bem claro: se qualquer um dos capangas dele chegar a menos de cem metros da sua família outra vez, eles vão lidar com a polícia federal e com os meus advogados. Seus pais estão seguros, Maya. A partir de hoje, ninguém vai tocar neles.

​Um alívio tão gigante atingiu o peito de Maya que ela sentiu os olhos marejarem. Ela segurou as lágrimas, respirando fundo. A tortura que vinha tirando o seu sono tinha acabado com uma simples ordem daquele homem.

​— Qual é o preço disso para mim, senhor Alencar? O que exatamente eu tenho que fazer? — ela perguntou, focando no profissionalismo.

​— Primeiro: você deixa de ser camareira hoje mesmo. Uma noiva minha não vai trabalhar limpando banheiros ou servindo mesas na noite. Suas despesas pessoais serão cobertas por uma conta que vou abrir no seu nome. Segundo: você vai se mudar para a minha cobertura na próxima quarta-feira. Nós precisamos parecer um casal real, então vamos dividir o mesmo teto. Terceiro: você vai me acompanhar em jantares de negócios, eventos beneficentes e qualquer reunião familiar onde a sua presença seja exigida. Você vai usar as roupas que eu mandar comprar, as joias que eu te der e vai sorrir ao meu lado.

​Maya leu algumas cláusulas rapidamente, procurando letras miúdas.

​— Aqui diz que não haverá intimidade física — ela pontuou, erguendo os olhos para os dele.

​— Não haverá — Nicholas confirmou, o rosto impenetrável.

— É um contrato de negócios, Maya. Sem romance, sem envolvimento emocional e sem toque, a menos que estejamos na frente das câmeras ou do meu avô, onde um toque de mãos ou um beijo no rosto seja necessário para manter as aparências. Fora dos olhos do público, nós somos dois estranhos dividindo um apartamento. Cada um no seu quarto. Cada um com a sua vida.

​Nicholas estendeu uma caneta pesada e preta na direção dela.

​— Salve a casa dos seus pais e garanta o futuro da sua família, Maya. Em troca, me ajude a garantir o meu império. Nós dois saímos ganhando. Assine.

​Maya olhou para a caneta, depois para o documento. Ela sabia que a sua vida nunca mais seria a mesma depois daquele momento. Mas, ao lembrar do choro desesperado do seu pai, ela esticou a mão, pegou a caneta e assinou o seu nome na última linha da folha.

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