Aliança Provisória - Especial de Natal
Aliança Provisória - Especial de Natal
Por: N.A.S.C
Cap.1

Estava sentada no sofá grande da sala, com as pernas dobradas sob o corpo e uma xícara de chá morna entre as mãos. 

Meus olhos vagavam entre os dois amores da minha vida, Alessandro, de cócoras no tapete, com um manual de instruções amassado numa mão e uma pecinha plástica na outra, e Gabriel, sentado em cima do tapete, observando o pai com uma fé absoluta.

— Pai, o trenzinho tem que passar por debaixo da ponte? — Gabriel perguntou, com seus olhos azuis, iguais aos do pai, brilhando de curiosidade.

— Tem, filho. É a regra do trem — Alessandro respondeu, sua voz era um misto de concentração e uma irritação crescente que só eu conseguia detectar. 

A quinta peça da ponte desmontável simplesmente se recusava a encaixar. Ele franziu a testa, com aquela ruga teimosa que aparecia quando ele estava prestes a perder a paciência, mas, ao olhar para o filho, seu semblante se suavizou. 

— Mas essa ponte parece ter vindo com um manual escrito em grego antigo.

Gabriel riu, uma risada cristalina que encheu a sala, e meu coração apertou de tão bom que era aquele som. 

Contemplei aquela cena, guardando-a em um cantinho seguro da memória. 

A árvore de Natal já estava montada num canto, com as luzinhas piscando, e o cheiro de pinho artificial se misturava ao do chá de canela. 

No meu colo, o tablet mostrava a tela da babá eletrônica. Maria Eduarda, minha bebê de dois aninhos, dormia profundamente, com sua boquininha entreaberta. Um suspiro de pura gratidão saiu dos meus lábios.

Faltava uma semana para o Natal. A paz, finalmente, era um lugar onde eu morava.

Foi quando o toque do celular de Alessandro cortou o ar. Ele fungou, procurando o aparelho no meio das peças de trem.

— Quem liga nessa hora? — murmurou, atendendo sem ver o número. — Alô?

Fiquei observando seu rosto. 

Vi a expressão mudar da leve irritação para uma atenção séria, depois para uma surpresa contida. 

“Tia Catarina?”, ele disse, e se levantou, andando em direção à janela que dava para o jardim escuro.

— Tudo bem? — perguntou, sua voz ficando mais baixa. — Como ela está?

Meu corpo ficou alerta sem que eu mandasse. Tia Catarina. A irmã da mãe de Alessandro, que morava… na Austrália, se não me falha a memória. 

Nunca a conheci pessoalmente. Só pelas histórias antigas, e pelas fotos que Alessandro mal comentava.

— É… eu entendo — ele disse, e suspirou. Foi um suspiro profundo, carregado de um peso que fez meus dedos se apertarem em torno da xícara. — Natal? Lá?

Meu cenho se franziu sozinho. Natal? Na Austrália? Meu estômago deu um nó frio. Alessandro ficou em silêncio por um longo minuto, apenas ouvindo.

— Tudo bem, tia. Deixa eu conversar com a Larissa. Sim… sim, eu conto. Tchau.

Ele desligou e ficou parado, olhando para o telefone, depois para o jardim, como se buscasse respostas na escuridão. 

Finalmente, se virou e seus olhos encontraram os meus. Havia uma sombra neles, uma mistura de dever e apreensão.

— Quem era, pai? — Gabriel perguntou, distraído, tentando encaixar duas peças de trilho.

— Era a tia Catarina, filho — Alessandro respondeu, vindo se sentar na beirada do sofá, perto de mim. Sua proximidade, que normalmente era um conforto, agora parecia carregada de uma notícia difícil.

— E então? — perguntei, minha voz saindo mais suave do que eu esperava.

Ele pegou minha mão livre, seus dedos quentes envolvendo os meus, que estavam frios.

— É a tia Catarina — começou, esfregando o polegar no meu dorso da mão. — Os médicos… descobriram algo. A doença está progredindo e ela está pedindo por um último Natal com a família toda reunida. Ela tem uma casa em uma praia no sul da Austrália e quer que todos vamos para lá.

O nó no meu estômago se apertou, virando um punho de gelo. 

A família toda

As palavras ecoaram na minha cabeça, trazendo consigo memórias desbotadas, mas ainda doloridas, de olhares de desdém, comentários cortantes sussurrados em jantares, a sensação clara de que eu nunca seria boa o suficiente, de que meu casamento por conveniência era uma piada de mau gosto. 

A família de Alessandro, exceto por seus avós e agora ele, nunca me aceitou. Eram a aristocracia fria que viu minha luta como vulgaridade, meu amor como uma estratégia. 

Fugir para a Alemanha tinha sido, de certa forma, uma fuga deles também.

— Na Austrália — repeti, como se as palavras fossem de um idioma estranho. — Faltam sete dias para o Natal.

— Eu sei — ele disse, sua voz firme, mas com uma brecha de incerteza. — E eu sei o que você está pensando. Sobre eles e como te trataram.

Ele olhou fundo para meus olhos, e naquele olhar eu vi o homem que lutou para me reconquistar, não o que me expulsou.

— Se você não se sentir confortável, Lari… nós não vamos. Ponto final. Eu ligo para ela e digo que não dá. A prioridade é você, as crianças, é a nossa paz.

Minha garganta apertou. Ele estava me dando uma saída e colocando nosso ninho, nossa paz duramente conquistada, acima de um apelo de família. 

A culpa, uma companheira antiga, deu um tapinha no meu ombro. Olhei para Gabriel, que agora fazia o trenzinho de brinquedo correr pelo tapete com um “chu-chu” animado, totalmente alheio à tempestade de emoções dos pais. 

Meus olhos pularam para o tablet no meu colo. Maria, dormindo, inocente de todas as batalhas do passado.

Eles nunca conheceram o lado da família do pai.

A voz na minha cabeça era racional, mas trêmula. É a tia dele. Talvez a última chance. E Alessandro… ele fez tanto por nós. Por mim.

Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo. Senti o cheiro do pinho, ouvi a risada de Gabriel. 

Este era o meu porto seguro, mas às vezes, o amor significava navegar em águas turbulentas pelo bem de quem você ama.

Abri os olhos e encontrei o olhar dele, esperando, sem pressão.

— Tudo bem — saiu da minha boca, um pouco mais firme do que eu sentia. — Nós podemos ir.

O suspiro que saiu de Alessandro foi de alívio, mas também de preocupação. Ele levantou minha mão e beijou meus nós dos dedos, um gesto antigo e cheio de gratidão.

— Obrigado — sussurrou, sua voz um pouco rouca. — Obrigado, amor.

Antes que eu pudesse responder, um furacão de seis anos se atirou sobre nós.

— Nós vamos viajar, pai? De avião? Pra praia? — Gabriel gritou, pulando de um pé para o outro, seus olhos azuis arregalados de emoção pura.

Alessandro sorriu, um sorriso verdadeiro que afastou a sombra dos seus olhos, e puxou o filho para um abraço.

— Vamos, sim, campeão. Vamos passar o Natal na praia, com a tia Catarina.

— Yay! — Gabriel comemorou, e sua alegria foi tão contagiante, tão inocente, que, por um momento, o gelo no meu estômago derreteu um pouco. 

Alessandro me puxou para o abraço, envolvendo a mim e nosso filho em um calor que prometia proteger-nos de qualquer coisa.

Olhei por cima do ombro dele, para a tela onde Maria dormia. Por eles, pensei, engolindo o medo. Tudo por eles.

Mas no fundo, no cantinho mais silencioso do meu coração, uma pequena voz sussurrava que aquele Natal sob o sol australiano seria muito mais do que um simples reencontro familiar.

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Mara LessaQUE BOM REENCONTRAR ESSES LINDOS MAIS UMA VEZ ........
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