Nos Braços do Homem Que a Rejeitou

Selene

Eu não bati no chão.

Darius me pegou antes.

Mesmo inconsciente, alguma parte vergonhosamente viva de mim soube. O calor dele me envolveu com uma brutalidade familiar, o braço firme por baixo dos meus joelhos, a mão espalhada nas minhas costas, o peito sólido contra o lado do meu rosto.

Tempestade.

Couro.

Pinho escuro.

Casa.

Não.

Não casa.

Ruína.

Minha mente afundou em sombras, mas meu corpo se agarrou àquela presença como se não tivesse recebido a notícia de que fora rejeitado. Havia vozes ao redor. Passos. Gritos. Mirella chamando Darius com uma nota aguda de pânico. Morvan ordenando que ninguém tocasse em mim.

Mas Darius não soltou.

— Afaste-se dela, Alfa — ouvi o ancião dizer, muito longe, como se eu estivesse no fundo de um lago. — Não sabemos o que esse sangue significa.

O peito de Darius vibrou contra mim.

— Ela está ferida.

— Ela é perigosa.

— Ela é minha.

O silêncio que se seguiu pareceu me alcançar mesmo no escuro.

Minha.

A palavra abriu alguma coisa em mim.

Uma ferida.

Uma porta.

Uma lembrança que não era minha.

Por um instante, não vi mais o pátio da alcateia. Vi uma floresta branca sob três luas. Vi lobos ajoelhados diante de uma mulher de cabelos negros e olhos prateados. Vi sangue derramado sobre pedra. Vi uma coroa feita de ossos lunares.

E ouvi uma voz.

Não masculina.

Não humana.

Acorde, filha da lua partida.

Meu corpo tentou respirar.

A dor voltou inteira.

Abri os olhos com um arquejo.

A primeira coisa que vi foi Darius.

Ele estava inclinado sobre mim, os cabelos negros caindo sobre a testa, os olhos escuros dilatados de uma forma que jamais vi antes. Medo. Não por si. Não pela alcateia. Por mim.

Aquilo quase me quebrou de novo.

Eu estava nos braços dele.

O homem que havia me rejeitado me segurava como se o mundo inteiro pudesse arrancar-me dele e ele estivesse pronto para matar o mundo.

— Solte-me — sussurrei.

A voz saiu fraca.

O braço dele apertou.

Não por domínio.

Por reflexo.

— Selene…

— Solte-me.

Dessa vez, a prata brilhou nos meus olhos. Eu soube pelo modo como o rosto dele mudou.

Darius obedeceu.

Lentamente, colocou-me de pé, mas não se afastou o suficiente. A mão dele permaneceu próxima à minha cintura, sem tocar, como se cada músculo gritasse para segurá-la outra vez.

Eu cambaleei.

Ele se moveu.

Eu o encarei.

Ele parou.

De novo.

A obediência dele já não era acidente.

E todos sabiam.

O pátio estava cheio agora. Lobos tinham saído do salão, formando um círculo ao redor de nós. Mirella estava no alto dos degraus, o rosto rígido, os dedos fechados com força no vestido branco. Ao lado dela, Morvan observava meu sangue prateado com horror reverente.

— Isto não pode continuar — o ancião murmurou.

Eu respirei fundo.

O ar gelado cortou meus pulmões.

— Então deixe-me ir.

Darius virou o rosto para Morvan, mas falou comigo:

— Você não vai sair sozinha nesse estado.

Eu ri baixo.

— Agora você decide o que eu posso ou não posso fazer?

A mandíbula dele travou.

— Sempre há lobos rondando as fronteiras.

— Passei minha vida inteira cercada por lobos. Os de fora não podem ser piores.

Alguns no círculo desviaram os olhos.

Bom.

Que doesse.

Darius aproximou-se um passo, lento, cuidadoso, como se eu fosse ao mesmo tempo ferida e lâmina.

— Você desmaiou.

— E acordei.

— Seu sangue mudou.

— O seu gosto também mudou quando decidiu rejeitar sua companheira?

Ele ficou imóvel.

A frase foi baixa demais para todos ouvirem, mas ele ouviu.

E doeu.

Vi no rosto dele. Vi na respiração presa. Vi no lobo atrás dos olhos, arranhando a superfície, desesperado por algo que o homem não permitia.

Mirella desceu um degrau.

— Darius, isso é ridículo. Ela está manipulando você.

Darius não olhou para ela.

Esse foi o erro dele.

Ou o presente.

Mirella percebeu.

A alcateia também.

Eu fechei os olhos por um segundo, cansada demais para sentir prazer. O corpo inteiro latejava. O peito continuava vazio no lugar onde o vínculo existira, mas a luz dentro de mim pulsava como uma segunda vida. Como se algo tivesse ocupado o espaço arrancado.

Algo que não chorava por Darius.

Algo que queria vê-lo ajoelhado.

— Selene Aster — Morvan disse, a voz formal, alta o suficiente para todos ouvirem. — Pelo direito dos antigos, você deve ser confinada até que o Conselho determine a natureza dessa manifestação.

Confinada.

A palavra me atravessou como uma velha corrente.

Depósitos escuros.

Portas trancadas.

Mirella rindo do lado de fora durante tempestades.

Meu pai dizendo que era para meu próprio bem.

Minha infância inteira reduzida a paredes sem janela.

Algo dentro de mim abriu os olhos.

Não.

A palavra não saiu da minha boca.

Saiu do ar.

Do chão.

Da neve.

As tochas ao redor do pátio se apagaram de uma vez.

Gritos romperam o círculo.

Darius virou-se para mim.

— Selene.

Dessa vez, havia aviso.

Mas eu não estava ouvindo só ele.

A voz antiga voltou, mais próxima, enrolando-se por dentro dos meus ossos.

Não se ajoelhe diante de homens que esqueceram a lua.

A prata subiu pelas minhas mãos outra vez.

Mais forte.

Mais fria.

Morvan recuou, tropeçando no próprio manto.

— Marquem-na! — ele gritou. — Antes que desperte por completo!

Dois guerreiros avançaram.

Darius rosnou.

O som explodiu no pátio com tanta violência que os dois pararam.

Não foi ordem de Alfa.

Foi instinto.

Proteção.

Posse.

Desespero.

Eu virei lentamente para ele.

— Não tem direito.

Os olhos dele queimavam, negros, dilacerados.

— Eu sei.

A resposta veio tão baixa que quase se perdeu na neve.

Mas eu ouvi.

E esse foi o problema.

A parte de mim que ainda sangrava por ele ouviu também.

Mirella gritou:

— Darius!

Morvan repetiu a ordem.

Os guerreiros hesitaram, presos entre o ancião e o Alfa.

E eu, a Ômega sem lobo, rejeitada diante de todos, ergui a mão ensanguentada.

A prata respondeu.

Não como luz.

Como poder.

O chão sob meus pés rachou em linhas finas, desenhando um círculo perfeito ao meu redor. A neve parou no ar. As sombras das colunas se curvaram na minha direção.

Então, atrás da alcateia, os sinos antigos começaram a tocar sozinhos.

Uma vez.

Duas.

Três.

Morvan ficou lívido.

— Não… — ele sussurrou. — A linhagem lunar estava morta.

Darius virou o rosto para ele.

— O que você disse?

O ancião não respondeu.

Estava olhando para mim como se finalmente soubesse meu nome verdadeiro.

Meu sangue brilhou mais forte.

E, nas profundezas da floresta, algo enorme respondeu ao chamado.

Um uivo.

Não de lobo.

De rainha.

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