A Ômega Rejeitada Que Fez O Alfa Implorar
A Ômega Rejeitada Que Fez O Alfa Implorar
Por: Batistad
A Noite em Que o Alfa Escolheu Outra

Selene

A lua cheia parecia uma lâmina suspensa sobre a alcateia.

Branca. Fria. Implacável.

Selene a encarou por um instante através das janelas altas do salão principal, tentando respirar sem que o peito doesse. O vidro refletia sua imagem de volta: um vestido cinza-claro simples demais para uma cerimônia de vínculo, os cabelos escuros presos de qualquer jeito na nuca, os dedos apertados contra a própria saia como se ainda pudessem impedir o tremor.

Ela soltou o ar devagar.

Não trema.

Não hoje.

O salão da alcateia Lua Sangrenta estava cheio. Guerreiros, anciãos, lobas nobres, servos, curiosos, todos reunidos sob as colunas de pedra negra decoradas com ramos de cipreste e fitas vermelhas. O cheiro de vinho, couro, incenso e peles molhadas se misturava ao perfume metálico da expectativa.

Aquela noite decidiria o futuro da alcateia.

E o dela.

Selene sentia os olhares antes mesmo de ouvi-los.

— Ela teve coragem de vir.

— Uma Ômega na cerimônia de vínculo do Alfa…

— Talvez ele tenha pena.

— Pena não faz uma Luna.

As vozes eram baixas, afiadas, treinadas para ferir sem parecer cruéis. Selene conhecia cada lâmina. Crescera entre elas. Aprendera a engolir insultos antes mesmo de aprender a mudar de forma — não que algum dia tivesse conseguido mudar.

Sem lobo.

Era assim que a chamavam quando queriam ser educados.

Defeituosa, quando queriam ser honestos.

Ela ergueu o queixo, embora o corpo inteiro pedisse para fugir. Não fugiria. Não naquela noite. Não quando cada osso dentro dela, cada gota de sangue, cada sonho miserável que ela ousara esconder atrás do silêncio dizia a mesma coisa desde que completara dezoito anos.

Darius Varek era seu companheiro predestinado.

Seu Alfa.

Seu destino.

Mesmo que ele nunca a tivesse tocado com ternura. Mesmo que seus olhos escuros passassem por ela como se Selene fosse parte da mobília, uma sombra entre as criadas, uma coisa útil apenas para limpar o sangue dos guerreiros depois dos treinos. Mesmo que ele tivesse permitido que Mirella a tratasse como poeira sob os sapatos.

O vínculo não mentia.

O corpo dela sabia.

Sempre soubera.

Quando Darius entrava em um cômodo, a pele de Selene reconhecia antes dos olhos. O cheiro dele chegava primeiro: pinho escuro, tempestade, ferro quente e algo selvagem, masculino, tão profundamente Alfa que fazia seu sangue hesitar entre medo e desejo. Às vezes, quando ele passava perto demais, o mundo inteiro diminuía. O som sumia. O ar engrossava. Seu coração batia como se tentasse se ajoelhar dentro do peito.

E ele nunca percebia.

Ou fingia muito bem.

— Selene.

A voz doce de Mirella deslizou por trás dela como veneno servido em taça de cristal.

Selene não se virou de imediato. Precisou de um segundo para recolocar no rosto a máscara de calma que usava desde criança.

Quando olhou, Mirella sorria.

Sua meia-irmã usava branco.

Claro que usava.

Um vestido branco de seda, justo na cintura, caindo em ondas perfeitas até o chão. Os cabelos dourados estavam presos com pequenas pérolas lunares, e sua garganta exibia um colar de rubis que parecia sangue recém-derramado. Ela era bela de um jeito fácil, treinado, quase ofensivo. A mulher que a alcateia esperava ver ao lado de um Alfa.

Não uma Ômega magra demais, quieta demais, invisível demais.

— Você está pálida — Mirella comentou, inclinando a cabeça. — Está se sentindo bem?

Selene sorriu pouco.

— Estou de pé.

— Por enquanto.

A doçura desapareceu apenas o suficiente para que só Selene visse.

Mirella se aproximou e ajeitou uma dobra inexistente na manga do vestido dela. Seu perfume caro invadiu o ar, floral e sufocante.

— Eu avisei que você não deveria vir. Vai ser constrangedor.

— Para mim?

Mirella soltou uma risada baixa, quase carinhosa.

— Para todos nós. Você sabe como Darius é. Ele pensa na alcateia antes de pensar em… sentimentos.

A palavra caiu entre as duas como algo sujo.

Selene sustentou o olhar dela.

— E você sabe o que ele é para mim.

O sorriso de Mirella endureceu.

Por um segundo, a irmã perfeita desapareceu. Ficou apenas a menina cruel que trancava Selene nos depósitos durante tempestades, que rasgava seus vestidos antes dos rituais, que contava às outras lobas que uma fêmea sem lobo não deveria sentir desejo por macho nenhum.

— Sei — Mirella sussurrou. — Um sonho que você roubou de si mesma.

Antes que Selene pudesse responder, um silêncio pesado caiu sobre o salão.

As portas principais se abriram.

Darius entrou.

E o mundo, como sempre, obedeceu.

Ele vestia preto. Couro de guerra nos ombros, camisa escura ajustada ao peito largo, os cabelos negros levemente úmidos como se tivesse acabado de voltar da chuva. Não havia coroa em sua cabeça, mas não precisava. O poder vinha dele em ondas invisíveis, densas, pressionando cada lobo presente a abaixar os olhos.

Selene não abaixou.

Não conseguiu.

O peito dela apertou com tanta força que quase doeu respirar. Darius parecia esculpido em sombra e violência contida, bonito de um jeito perigoso, o tipo de homem que não precisava levantar a voz para devastar uma sala. Seus olhos, escuros como noite sem lua, varreram o salão.

Por um instante, pararam nela.

Selene sentiu como se uma mão quente tivesse fechado em torno de sua garganta.

Ele a viu.

De verdade.

O olhar de Darius desceu por seu rosto, por seus ombros tensos, por suas mãos apertadas na saia. Algo passou por sua expressão — rápido, indecifrável, quase uma falha.

Depois desapareceu.

Ele desviou.

E caminhou até o centro do salão.

O ancião Morvan ergueu as mãos, pedindo silêncio a um salão que já não respirava.

— Sob a lua cheia, sob o sangue dos antigos e sob a lei que une corpo, lobo e destino, reunimo-nos para reconhecer a futura Luna da alcateia Lua Sangrenta.

Selene sentiu os joelhos fraquejarem.

Era agora.

Todo o sofrimento, todas as humilhações, todas as noites em que ela chorara em silêncio porque o próprio destino parecia tê-la escolhido para alguém grande demais… tudo terminaria ali.

Talvez Darius não a amasse.

Talvez nunca a tivesse desejado.

Mas o vínculo era sagrado.

Até Alfas se curvavam a ele.

Darius parou diante do ancião.

Mirella, ao lado de Selene, ajeitou os cabelos e deu um passo à frente.

Selene percebeu.

O corpo inteiro gelou.

Não.

Mirella não deveria andar.

Ela deveria ficar.

Selene deveria ser chamada.

Mas Mirella continuou caminhando, serena, branca, magnífica, até posicionar-se ao lado de Darius como se aquele lugar sempre tivesse sido dela.

E Darius não a impediu.

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