Capitulo 4

A vida como garota de programa estava dando à Isabella uma vida tranquila. Ela conseguia pagar suas contas, se sustentar e até tinha conseguido comprar um celular novo. No entanto, nem tudo é tão ruim que não possa piorar.

Isabella tinha experimentado várias sensações ruins de angústia e dor e sabia bem como isso a afetava. Já tinha algum tempo desde que Isa tinha passado por uma montanha russa de emoções.

Em um programa com um cliente milionário, Isa bebeu um pouco de whisky e usou um tipo de droga que nunca tinha experimentado. O senhor próximo aos seus sessenta anos, posicionou Isabella em sua cadeira específica para fantasias sexuais e amarrou seus braços colocando uma venda na garota. Ela já se sentia um pouco estranha, mas tinha que realizar o programa, o jovem senhor pagava muito bem, então, o programa tinha que ser do jeito dele.

Com os braços para cima, seu corpo nu e os olhos vendados, Isa foi penetrada na boca pelo cliente, mas uma sensação estranha começou a invadir seu corpo. Suas pernas amoleceram, seu estômago revirava, assim como quando ela bebia demais nas ruas, mas ela se manteve firme.

Naquele desconforto abdominal que Isa sentia, a sensação de que seu corpo se sucumbiria a qualquer momento era enorme, ela queria pedir um tempo, mas o cliente não estava notando nada de errado, ele só queria satisfazer o seu desejo e realizar suas fantasias.

Mel era uma profissional dedicada, e já tinha alguns anos no ramo, era indicada por clientes de alto escalão, já atendera todos os tipos de bilionários, desde chefes da máfia à políticos. Nenhum contratempo havia ocorrido em nenhum dos seus programas, até aquele momento.

O abdômen da garota não parava de borbulhar. Em seus pensamentos, ela acreditava que a bebida e as novas drogas estavam fazendo mal, mas continuou recebendo algo na boca, que outras garotas comuns jamais aceitariam, porém, em algum momento, a sensação foi tão poderosa que o corpo esbelto de Isa se entregou a agonia e à náusea.

— O que é isso, garota? — o velho gritou assim que recebeu uma golfada de vômito no seu membro. — Você não é profissional?

Mel não sabia explicar o que estava acontecendo e nem conseguiu justificar o ocorrido, manteve em silêncio enquanto seu corpo tremia e suas pernas amoleciam.

— Eu não vou pagar por isso. Puta porca. — O senhor gritou arrancando a venda de Isa.

— Eu sinto muito. — Isa abaixou a cabeça, envergonhada, sem saber realmente o que estava acontecendo com seu corpo naquela noite.

— Vá embora daqui agora. — o cliente encheu um copo de whisky e virou de uma só vez olhando para a vista primorosa do seu apartamento.

Isabella se vestiu às pressas e saiu, sem saber como chegar em casa. O cliente que pagaria, não pagou, ele prometeu a levar para casa, mas depois do incidente, cancelou a promessa. Ela precisou se virar, pediu um carro de aplicativo e pagou com cartão de crédito, sorte dela que tinha essa opção.

Chegando em casa, ela ficou tentando descobrir o que tinha acontecido. A bebida poderia ter feito mal, ou àquela droga sintética esquisita que ela tinha usado. Só de lembrar do acontecimento inoportuno, seu estômago revirava e ela corria para o banheiro.

Já sem nada no estômago e com dor abdominal, ela não aguentava mais vomitar. Ligou o chuveiro e se manteve ali por alguns minutos, esperando que a água trouxesse algum conforto para seu corpo. Felizmente, ela sentiu um conforto momentâneo, mas não durou muito. Assim que se enrolou na toalha e abriu a geladeira para pegar um pouco de água, sentiu o cheiro de alguma coisa que estava guardada lá dentro e seu estômago revirou novamente a levando pela milésima vez para o banheiro.

A noite de Isabella seria longa, ainda mais, por não saber o que tinha de errado com seu corpo. Assim que se deitou sua fome apareceu, para não despertar mais uma vez aquele enjoo desconfortável, ela pegou uma maçã e comeu para trazer um pouco de saciedade. Ela mastigava enquanto tentava encontrar uma explicação plausível para seu enjoo repentino.

Isa deu um salto da cama, com a maçã na mão e pelo susto de seus pensamentos, cuspiu toda maçã mastigada pelo chão. Ela estava surpresa com a ideia maluca que veio na sua cabeça, mas era uma possibilidade. Isa estaria grávida?

— Não… Não… Não… Isso não pode acontecer. — ela dizia em voz alta andando de um lado para o outro da casa com os dedos entrelaçados nos seus cabelos cacheados. Mas precisaria esperar o dia seguinte para ter uma resposta concreta.

Isa não conseguiu dormir, passou a noite inteira indo do banheiro para cozinha e quando seu corpo sucumbia às náuseas e tontura, ela se deitava na cama com os pés para fora e esperava a sensação ruim passar, mas o que estava tirando seu sono na realidade era a possibilidade de uma possível gravidez. Ela não estava preparada para uma surpresa como essa. Seu único trabalho estaria prejudicado com uma gravidez.

Assim que os primeiros raios de sol invadiram as brechas das paredes da casa de Isa, ela se levantou depressa da mesma maneira em que passara a noite inteira e saiu correndo, direto para a farmácia mais próxima. Não era muito longe, mas a medida em que Isa pensava e corria, a distância parecia se alongar e a farmácia estar cada vez mais longe.

Na metade do caminho, a náusea voltou e Isabella sentiu suas vistas escurecerem, tudo o que parecia claro e vivo, foi se dissipando até que ela não enxergasse nem mais um passo à sua frente.

Quando Isabella finalmente acordou, estava em uma ambulância com um enfermeiro e uma enfermeira verificando seus pulsos a cada minuto.

— Onde estou? — Isa perguntou com a voz ainda embargada.

— Bom dia, senhorita. Qual é o seu nome? — a moça simpática direcionou a palavra para a garota deitada em uma maca desconfortável sentindo o balanço da ambulância que passava pelos buracos abandonados pela prefeitura nas ruas locais da cidade.

— Isabella… Onde estou?

— Senhorita Isabella, estamos te levando para o hospital, a senhorita foi encontrada inconsciente na rua. — o enfermeiro explicou, solícito — meu nome é Douglas, essa é a enfermeira Luane. Vamos cuidar de você, está bem? Fique calma e respire.

— Eu preciso ir… — a frase de Isabella foi interrompida por uma golfada de vômito inesperado — desculpa… — ela dizia entre os golfos.

— Está tudo bem, senhorita Isabella. — Luane disse pegando um pote para Isa vomitar — você está com suspeita de gravidez ou tem alguma doença autoimune?

Isabella não queria pensar naquilo, mas não teve escolha. Seus olhos marejaram, seu rosto empalideceu e seu semblante ficou ainda mais triste e cabisbaixo. Ela não conseguiu proferir as palavras, então respondeu com um aceno, assentindo.

— Sim o que? Doença?

Sua cabeça meneou em negativa, assim, os enfermeiros já concluíram que a suspeita era de gravidez e entreolharam. Na recepção da emergência, enquanto o enfermeiro montava a cadeira de rodas, a enfermeira anunciou a paciente.

— Paciente de 23 anos com suspeita de hiperêmese gravídica, PA 90x60, glicose baixa e desidratação. 

Logo que Isabella chegou no hospital, já foi atendida e colocada no soro até saírem os resultados dos exames. A aflição de Isa era muito grande, ela não poderia ter um filho naquele momento da sua vida. Seus pensamentos entraram em conflito e tudo levava a vida em que ela teve com seus pais.

“Eu não posso ter filhos, não serei uma boa mãe, não tive um exemplo de família para isso, não sou casada e minha vida é instável, ter um filho agora desajustaria todos os meus planos” Isabella tentava assimilar tudo o que estava acontecendo enquanto sua consciência ia e vinha. Seus olhos não ficavam abertos por muito tempo.

— Senhorita Isabella Romanov? — uma enfermeira chamou após duas horas de observação.

Isa acordou do seu inoportuno cochilo e acenou para a moça de pé na porta. Esta se aproximou com uma papelada na mão.

— Bom, senhorita. Meus parabéns, você está grávida.

Isabella desejou dormir novamente quando ouviu a confirmação da gravidez indesejada. Mas dessa vez, queria dormir por muito tempo até que essa gravidez terminasse. Virou o rosto em direção a janela embaçada do hospital.

— Você vai precisar retornar no médico, ele tem algumas recomendações a fazer. A senhorita precisará de repouso e ingestão de muito líquido. — a enfermeira entregou a papelada, tirou o acesso da mão de Isabella e a guiou até o consultório do médico, onde foi atendida prontamente.

— Sente-se senhorita Isabella. Vamos ver seus exames. — o doutor muito simpático pegou os papéis da mão de Isa e começou a folheá-los. — Bom. A boa notícia é que não está com hiperêmese gravídica… — o médico deu uma pausa enquanto passava outras folhas. — a má notícia é que a senhorita precisará de repouso e vitaminas. Está com deficiência de ferro. Precisa acompanhar com seu G.O duas vezes por mês até que esteja melhor. No mais, está tudo ok. Uma boa alimentação, tomando as vitaminas e terá uma ótima gestação. Parabéns, senhorita.

Isabella assentiu com as recomendações do médico e não esboçou nenhuma reação. Sua cabeça estava confusa demais, ela precisava de um bom descanso para conseguir assimilar tudo o que estava acontecendo.

Pegou as papeladas e receitas cedidas pelo médico e saiu em estado catatônico do consultório. A primeira pessoa que veio na sua cabeça para contar o fato, foi Aléssio. Mas ela não sabia como ele reagiria a isso, não poderia correr o risco de contar e o afastar de vez da sua vida.

Mais uma vez, Isabella se encontrava em um beco sem saída, sem família para apoiá-la, ninguém para desabafar, sem alguém para compartilhar seu sentimento de desespero e angústia.

Perambulando desnorteada pela rua, Isabella seguiu caminhando até sua casa, uma distância de quase três quilômetros, mas ela estava perdida em pensamentos e inerte na confusão mental. Até que o telefone de Isabella tocou, ela não queria atender, mas seus instintos a dizia que poderia ser importante.

Ao olhar o visor do telefone, o número era desconhecido, então Isa não hesitou em rejeitar a chamada, mas o indivíduo era insistente. Então Isabella decidiu colocar seu telefone no silencioso.

“Amor, preciso falar com você, é urgente. – Seu JJ.”

A mensagem surgiu antes que Isa guardasse o celular, suas pernas já exaustas pela caminhada, titubearam, por pouco aquela jovem garota grávida de poucas semanas, não desaba no chão feito uma bêbada.

Ao abrir a mensagem, as palavras de JJ ressoaram como um eco distante, transportando-a para um tempo que ela preferia esquecer. Cada palavra digitada despertava memórias adormecidas, como se o passado estivesse pulsando com vida própria. O espanto de Isabella transparecia em seus olhos, que refletiam uma mistura de incredulidade e uma ponta de ansiedade.

O passado, que ela acreditava ter deixado para trás, estava agora diante dela, como uma sombra que se recusava a desaparecer. Isabella sentiu-se como uma protagonista involuntária em uma reviravolta surpreendente, enquanto tentava processar a mensagem que acabara de recebe.

Isabella encostou-se em um poste até que a sensação de tontura e palpitação passasse para seguir seu caminho até sua casa.

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