Capitulo 3

Ao voltar à dura realidade da vida que escolhera, Isabella ansiava pelo próximo encontro com Aléssio, sua luz em meio à escuridão. Porém, não deixava seus clientes sem receber pelo serviço que ofereciam. Com um sorriso confiante e olhos que carregavam segredos, ela se dedicava a oferecer prazer e luxúria, satisfazendo os fetiches mais exóticos que cada cliente desejava. Era um jogo, uma dança entre a necessidade e o desejo, e Isa sabia como desempenhar seu papel.

Morando sozinha em uma casa de dois cômodos, Isabella finalmente sentia um gosto de liberdade. Era um lar, ainda que modesto, onde poderia se refugiar após um dia exaustivo. Não precisava mais suportar os gritos de sua mãe ou a indiferença do pai; tinha conquistado seu espaço. No entanto, a satisfação era apenas parcial. No fundo, seu coração pulsava por mais. Ela sonhava com uma vida diferente, uma vida em que pudesse ter uma família para chamar de sua, um marido para aconchegar à noite após o trabalho, e uma companhia para as longas sessões de filmes no sofá.

A promessa que fizera a si mesma era clara: trabalhar como prostituta apenas até encontrar um emprego que a sustentasse. Essa vida, que a princípio parecia uma escolha, logo se revelava degradante e destrutiva. Isabella batia em várias portas, entrando em agências de emprego e se deparando com a desilusão.

Algumas promessas eram sedutoras, mas acabavam em enganos; agências falsas que a atraíam com ofertas vazias, como um ilusório canto de sereia. Após a conclusão de um curso sem sentido, o telefonema que nunca chegava a deixava em um limbo de frustração.

A perseverança de Isabella, no entanto, era inabalável. O que começou como uma necessidade tornou-se uma estratégia. Depois de tantas negativas e portas fechadas, ela viu na prostituição uma oportunidade de sustentar-se.

Era um passo que a afastava da dependência, mesmo que a deixasse presa em um ciclo que não era o que desejava. E em meio a tudo isso, Aléssio aparecia como uma possibilidade, um escape que oferecia não apenas prazer, mas a chance de um futuro mais luminoso.

Com cada cliente que atendia, Isabella se lembrava do que queria e da vida que merecia. A luta pela liberdade e pela felicidade era uma constante, e a esperança de que um dia poderia deixar tudo isso para trás a mantinha em movimento. A cada encontro com Aléssio, a chama da possibilidade se reacendia, fazendo-a acreditar que talvez, só talvez, ela pudesse ter a vida dos seus sonhos.

Todos os dias, assim que chegava em casa, entrava para seu banheiro minúsculo e como não tinha um conforto, usava o que tinha para satisfazer. Tirava suas roupas sujas, com cheiro de sexo, aconchegado sob a torrente do chuveiro, envolvia os joelhos e deixava as lágrimas fluírem.

Através das suas lágrimas ela deixava ir sua dor, angústia e desejo de desistir. Esfregava a esponja cheia de espuma por todo seu corpo até sentir sua pele queimar. Ainda assim, se sentia suja, mas seus pensamentos de ganhar muito dinheiro e sair dessa vida, a trazia de volta a realidade.

Depois de algum tempo entregue ao choro, levantava-se, se recompunha e cantarolava enquanto esfregava shampoo em seus cabelos longos e castanhos escuros.

Sua vida não era a mais fácil, lidar com homens de todas as idades e cheiros, de formas brutas e delicadas, mas Isa sentia que pelo menos ali, ela tinha uma serventia, coisa que ela nunca sentira quando morava com seus pais. O uso de drogas era um vício ainda perpetuado, mas era algo que ela prometia a si mesma, que quando melhorasse de vida, iria largar sem questionar.

Seus pensamentos vagueavam pelo passado trazendo à tona várias dores que ela não queria sentir, mas trazendo conforto em saber que não dependia mais dos pais e nem necessitava do amor de uma mãe que a rejeitou antes mesmo de nascer.

“Aos dez anos de idade, cansada de sofrer agressões físicas e psicológicas da mãe adotiva, Isa decidiu procurar sua mãe biológica. Em sua cabeça imatura e ingênua, os laços sanguíneos falariam mais fortes e sua mãe teria pena da vida que ela estava levando, e quem sabe, a aceitaria em sua vida. 

No caminho do colégio, Isa fingiu ter entrado e saiu de forma furtiva pelo canto do portão, sendo camuflada pela euforia da criançada que chegava na escola. Seguiu na direção da casa de Samara, a mulher que passou nove meses com Isa na barriga e teve as piores dores ao dar à luz. 

Chegando na porta da casa, Isa observou e pensou em como seria sua vida se sua mãe biológica tivesse a aceitado, olhando o grande jardim com camélias, hortênsias e cravos, além de um lindo gramado verde que mais parecia um tapete. 

Isabella ficou deslumbrada com cada parte que via da casa, mas parecia uma casa fria e sem vida, não tinha crianças nem animais.

“Eu posso trazer alegria para essa casa” Isa pensou inocentemente abrindo um leve sorriso que se desfez assim que levantou a mão para bater na porta.

Uma senhora de semblante carrancudo com avental e um lenço amarrado nos cabelos que saltavam pelos lados fazendo parecer teias de aranha em volta do rosto desproporcionado, com um nariz grande e pontudo e dentes amarelados.

— Hoje não tem pão duro, garota. Vá para sua casa, antes que eu chame a polícia. — a senhora foi grossa e direta e fechou a porta no rosto de Isabella. Mas ela não desistiu, era uma oportunidade única de se apresentar para sua mãe e mostrá-la que era uma menina boa e poderia servir para os afazeres da casa.

Isa bateu novamente na porta e pela terceira vez, ouviu um grito do interior da casa.

— Gerusa, você não vai atender a porta? Empregada imprestável.

Demorou alguns instantes até Isabella ouvir passos vindo na direção da porta e alguns murmúrios.

— O que você quer, garota. Eu não falei que não tem pão velho hoje?

— Eu quero falar com a Samara. — a voz de Isa saiu embargada.

— Dona Samara, é para a senhora. — a mulher gritou quase ensurdecendo a menina.

— Fala que não estou ou que estou ocupada, sei lá. Se vira. — a voz que vinha do interior da casa, não parecia de uma pessoa amigável, mas Isa tinha certeza de que aquela voz ficaria doce assim que conhecesse a filhinha linda e simpática que tinha vindo vê-la.

— É melhor você ir embora, menina. A dona não está em um dia bom. — agora a voz da empregada parecia doce e preocupada.

Isa sentou-se no degrau da porta e garantiu que não sairia dali até falar com a dona Samara. A empregada entrou para a casa e fechou a porta, sem dar mais satisfações para Isabella. Aquele dia ficaria guardado por muito tempo nas lembranças de Isa e esses dias serviriam muito futuramente.

O sol já estava se pondo quando a empregada ia embora e se espantou ao ver que aquela garotinha ingênua ainda estava sentada no degrau da escada da porta da casa.

— Dona Samara, a garotinha ainda está aqui na porta e parece estar passando mal. — a empregada exclamou surpresa.

— Que garota maluca é essa? — Finalmente Samara apareceu na porta eufórica.

Abaixou-se na altura dos olhos de Isabella e viu que seus lábios estavam arroxeados e sua pele pálida como neve, de relance, ela não reconheceu a garota, afinal, desde que nascera ela nunca mais a vira, mas assim que a garota abriu os olhos e a encarou, Samara sentiu seu corpo estremecer, suas pernas amoleceram e suas mãos ficaram frias e suadas. Seus olhos se arregalaram e fixaram na menina, sem dizer uma única palavra. Algo tinha mexido com Samara naquele dia”

Com essas lembranças perambulando seus pensamentos, Isa adormeceu, com os olhos úmidos pelas lágrimas e agarrada em seu urso de pelúcia gigante que tinha ganhado de Aléssio.

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