Capitulo 5

Isabella teve a sua pior noite desde que saiu das ruas e se tornou prostituta. A escuridão daquele quarto parecia refletir seu estado de espírito, um turbilhão de incertezas e medos. Como se já não bastasse a luta diária para manter-se de pé em um mundo que a via apenas como um objeto de desejo, agora a ideia de ser mãe a atormentava.

As mãos tremiam ao segurar o resultado dos exames, e o que antes era uma certeza se tornara um fardo imenso: ela estava grávida. O peso dessa revelação parecia pressioná-la contra a parede, sufocando qualquer esperança de um futuro diferente.

O que fazer agora? Contar ao pai? A dúvida a corroía. Seria ele capaz de suportar a verdade sobre quem ela realmente era? Isabella temia que ele a confrontasse, que a julgasse e fugisse da responsabilidade, como tantos outros homens já haviam feito. O olhar do jovem a perseguia, e ela se lembrava da conexão especial que havia desenvolvido com Aléssio, o único cliente que sabia seu verdadeiro nome. Ele era diferente, ou pelo menos assim ela queria acreditar. Mas a vulnerabilidade que sentia era aterrorizante. O que aconteceria se ele soubesse?

Às cinco da manhã, ela já estava de pé, a luz fraca do banheiro iluminando seu rosto cansado. Olhou-se no espelho e o reflexo não mentia. Seus olhos, fundos e cercados por olheiras, contavam a história de uma noite mal dormida, repleta de angústia e questionamentos. Estava exausta, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

Havia dois clientes agendados para o dia, mas como poderia atender a qualquer um deles nesse estado? O desejo de ser algo mais a consumia, mas a realidade gritava mais alto.

Resolvendo agir, ligou para sua cafetina para desmarcar os “encontros”. A voz autoritária do outro lado do telefone ecoou como um aviso. 

— Já vai começar a dar prejuízo, Mel? — Era esse o nome que Isa usava para se prostituir, o único cliente que sabia seu nome verdadeiro era Aléssio, por quem Isa desenvolveu uma conexão incomum entre cliente e prostituta. — Quando decidir voltar, vê se vem no pique para cobrir os prejuízos, e trate de pagar pelo programa do último cliente que não pagou por causa dos seus chiliques — a voz soou autoritária do outro lado do telefone.

 O nome que usava, como um escudo contra a dor, agora parecia um lembrete cruel de quem ela era. Isabella odiava aquele tom, a forma como Morgana a tratava, como se fosse uma máquina de lucro sem emoções.

Quando desligou, um misto de raiva e desespero tomou conta dela. Revirou os olhos, amaldiçoando a cafetina que nunca se importou com os motivos por trás de sua ausência. A verdade era que ela não sabia o que fazer. Seu coração estava dividido.

Queria um bebê, mas sabia que não tinha condições de criar uma criança em um mundo tão hostil. A ideia de abortar parecia a única solução racional, mas a pressão da escolha a deixava tensa. E se sua decisão a condenasse a um ciclo de arrependimentos?

Os pensamentos a atormentavam, criando um emaranhado de possibilidades. O que significaria ser mãe para alguém como ela? E se a criança fosse um reflexo de seu próprio desespero? 

Isabella precisava encontrar uma saída, mas a cada respiração, o peso de sua realidade parecia aumentar. O espelho refletia não apenas seu cansaço, mas uma vida inteira de escolhas, e ela se perguntava se ainda havia tempo para mudar seu destino.

Isa tomou seu café preto, mesmo com orientações do médico para não tomar, e comeu um sequilhos que tinha no seu armário. Segurou seu celular com força na mão esquerda e rolava a lista de contatos, tentando encontrar alguém para ajudá-la a decidir o que fazer. Abriu novamente a mensagem de JJ, mas esse era um passado que ela não queria reviver.

Lembrou-se do pai adotivo, que antes da sua mãe biológica decidir abortar, ele assumiu a criança e falou que adotaria, mas que ela não matasse a pobre criança “poderia ter me deixado morrer” foi o que passou na cabeça de Isa quando se lembrou de todas as torturas sofridas por sua mãe adotiva.

Seus olhos lacrimejaram ao se lembrar da noite em que Laura, Sofia e Lucas se reuniram para torturá-la, colocando-a de mãos amarradas para trás, com um pano na boca para não gritar e a Laura queimando as coxas com bitucas de cigarro, acesa. A garota se contorcia de dor, e os irmãos Romanov se divertiam com sua dor. Até que seu pai chegou e berrou com todos, pedindo que parasse com aquilo. Paulo ameaçou se separar de Laura, caso ela fizesse qualquer outra maldade com a menina, Isa. Foi aí que as torturas diminuíram, mas a dor de Isa era muito mais profunda que uma queimadura de cigarro.

— Papai — Isa pronunciou em voz alta acariciando sua foto na tela do celular.

Suas lágrimas escorriam pelo seu rosto como uma goteira. Então ela resolveu ligar para seu pai e tentar falar um pouco com ele, mesmo ele sendo cachorrinho da Laura e ter obedecido as ordens dela, ele não tinha culpa por Isa estar tão castigada pela dor. Em seus momentos de lucidez, sem o domínio da cachaça, seu pai ainda conversava com Isa e dava atenção para ela, só não foi suficiente para mantê-la naquela família tóxica. Antes que Isa voltasse em si, o número já estava discado no celular e chamando. Ela tentou desligar, mas seu pai atendeu rapidamente.

— Papai? — Isa colocou o telefone no ouvido e falou trêmula.

— Quem é? — a voz do outro lado da linha dissimulou.

No pensamento, Isa já imaginou que não foi uma boa ideia ter ligado para seu pai, já que depois do seu último encontro, ela gritou que só o veria em um caixão.

— Não me reconhece, pai? Sou eu, a Isabella.

— Não tenho nenhuma filha chamada Isabella. — Paulo afirmou e desligou o telefone.

No último telefonema de Isabella para seu pai, ele, decepcionado que a filha fugiu sem dar notícias, deixou bem claro que a partir daquele momento ela nunca mais ligasse, ela não seria mais filha dele. Então, Paulo garantiu a sua palavra e respondeu que não tinha nenhuma filha chamada Isabella, seus filhos se chamavam Sofia e Lucas.

Ouvindo o apito repetitivo do celular, Isabella se irritou de forma agressiva. Seu pai era a sua última esperança e ele deixou claro que não queria mais nenhum vínculo com ela.

Isabella levantou-se da cama e foi até o banheiro, precisava lavar o rosto inundado de lágrimas. Esfregou o rosto com força, tentando arrancar aquela angústia que dominava seu peito. Sentou-se arrastada no chão, no canto da parede e se entregou aos prantos.

Seus pensamentos variavam, por vezes queria ter o bebê e construir a família que tanto sonhou, por vezes, sentia a dor do abandono e desprezo por todos que a conhecia e percebia que ter um bebê era jogar uma vida ao limbo do mundo, poderia fazê-lo sofrer também.

O único gesto carinhoso que Isa conhecia, era dos clientes pseudo-apaixonados que ela atendia. Nesse pensamento, ela sentia uma dor intensa no peito, era como sentir o coração rasgando e saindo através da sua pele, ela desejava com todas as forças, que a morte viesse buscá-la para aliviar a dor que sentia.

Com quem mais Isabella poderia contar?

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