Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla se virou para mim. O vento bagunçou uma mecha de seu cabelo ruivo — a primeira imperfeição que vi nela desde que cheguei.
— O senhor foi muito claro sobre o que seu Conselho espera, Lorenzo — ela começou. A voz era firme, embora eu pudesse ver o pulsar acelerado em sua garganta. — Eles querem uma linhagem. Querem a garantia de que o sangue Moretti se unirá a uma noiva intocada. Um troféu de pureza para validar sua paz.
— É a tradição — respondi, cruzando os braços e observando-a como um falcão. — Na máfia, a honra de um Dom começa na cama de sua esposa.
Anya deu um passo à frente. O olhar azul não vacilou, mas uma sombra de dor cruzou seu rosto antes de ser sufocada pelo desprezo.
— Lorenzo... eu passei por um ataque cerca de dois anos atrás. Um homem invadiu esta mansão para tentar matar meu pai e acabou me encontrando no caminho.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que o som do vento pareceu desaparecer. Senti meus músculos retesarem instantaneamente.
— O que você quer dizer com isso? — Minha voz saiu um oitavo mais baixa. Perigosa.
— Estou dizendo que não sou mais virgem — ela disparou. As palavras saíram como balas. — Eu não sou "pura" nos termos que seu mundo exige. Eu não poderia me casar sem lhe contar a verdade.
Avancei dois passos rápidos, cercando-a contra o parapeito de pedra. A fúria borbulhava no meu sangue. Alguém tinha tocado no que agora era meu. Alguém tinha quebrado o brinquedo antes mesmo de eu abrir a caixa.
— Quem foi? — rosnei, meu rosto a centímetros do dela. — Qual dos cães do seu pai se atreveu a tocar em você?
— Isso não importa agora — ela rebateu. Pela primeira vez, vi uma lágrima solitária brilhar no canto de seu olho, embora sua voz não tremesse. — O que importa é o que o senhor fará agora. Vai me devolver para o meu pai e me condenar a algo pior que a morte? Ou o senhor é diferente do homem que me vendeu?
— Você está me testando? — Eu estava possesso. A audácia dela era fascinante e irritante em medidas iguais.
— Estou lhe dando a verdade antes do "sim". Se busca uma aliada que sabe o preço da dor, aqui estou eu. O que posso lhe dizer é que não foi consensual. Meu pai matou o homem e me fez jurar nunca contar isso a ninguém.
Eu a observei em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade. A neve começava a cair, mas o fogo nos olhos dela era o que me prendia.
— Eu não quero mais ser humilhada, Lorenzo. Acho que prefiro o fim agora do que uma vida de joelhos diante de um marido que me despreza pelo que não posso mudar.
O instinto de Dom me dizia para destruí-la, para exigir a cabeça de qualquer um envolvido naquela falha de segurança. Mas o homem dentro de mim, aquele que desconfiou do relatório perfeito, sentiu uma estranha satisfação. Ela não era uma boneca. Era uma sobrevivente. O fato de ela ter jogado essa bomba na minha mão antes do contrato ser irrevogável provava que ela tinha mais honra do que metade dos homens do meu Conselho.
— Meu pai e o seu estão esperando lá dentro — eu disse, minha voz agora controlada, embora o fogo ainda queimasse por dentro. — Eles esperam um acordo selado.
— E o que eles terão? — ela perguntou, prendendo a respiração.
Passei a mão pelo seu rosto, meus dedos traçando a linha da mandíbula com uma posse que ela ainda não compreendia.
— Eles terão o casamento — respondi, vendo o choque atravessar aqueles olhos azuis. — Estou comprando o seu segredo, Anya. E agora, você me deve muito mais do que apenas um herdeiro.
Virei as costas e caminhei de volta para a mansão, sem esperar por ela. Eu casaria com a russa. E depois, eu descobriria cada detalhe do que ela estava escondendo — inclusive quem realmente a machucou — até que não restasse nada além da verdade entre nós.







